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O entardecer de uma vida

Publicado por Neusa Picolli Fante | 27/07/2016 - 09:05

 

Ele era um homem de fé, percebia-se pelas lutas que travava consigo mesmo. Acordava todos os dias refletindo sobre o que podia mudar em si, para ser melhor consigo e com seu povo. Era inteligente, determinado. Labuta era seu nome e respeito ao outro seu lema. Encantava-me com sua fala mansa, sua sabedoria e com a abrangência do seu olhar.

 

 

O carinho que perpassava era evidente. O chamavam de guru, mestre e de muitos outros adjetivos, que demonstravam o seu andar adiante de seu tempo e o carinho envolvido nesse andar.

Percebia-se que alguns alcançavam sua inteligência cognitiva, poucos, no entanto, atingiam a profundidade de sua busca.

 

Diante da finitude ou da vida que se esvaia entre os dedos, questionava-se sobre o mistério em que estaria envolvido. Ficava imaginando-se diante de Deus, e isso inebriava-o de alegria e contemplação; ao mesmo tempo, não saber como seria esse encontro deixava-o pensativo. Ficar face a face com o olhar de Deus, aquele ser de luz por quem dedicara sua vida, prendia-lhe os pensamentos. Também o não sabero que fazer nesse encontro o deixava perplexo. Como seria então? Pensamentos e sentimentos que denotavam sua angústia ante tão grande aproximação o envolviam. Preparava-se agora para essa nova etapa de seu viver.

 

Descobrimos juntos que não havia idade determinada para falar sobre morte ou sobre vida. Confrontamos o que realmente pensávamos sobre isso, e nos embrenhamos numa sublime construção.

Na magia do envelhecimento ali visível, lado a lado, professor e aluna aprendiam alguma coisa daquela imensa, tão profunda e escondida sabedoria; ele captou a magia de envelhecer e eu entendia a magia de estar junto. Era o mestre dando os últimos ensinamentos a seu aluno. O aluno querendo aprender as últimas lições desse homem, cuja vivência de amor e cuidado a muitos nutria e, então, seu peito também nutria-se num encontro grandioso com Deus.

Refletia ser a primeira vez, nos seus 90 e poucos anos, em que se via envolvido com tamanhos questionamentos. Mas tinha coerente que envelhecer também significa um eterno aprender.

Sua firmeza e compreensão davam-lhe menos idade do que aparentava. Num primeiro momento, os passos arrastados denotavam o cansaço da espera pela partida. A necessidade de continuar se reinvestindo de vida estava presente nessa caminhada. A força das pernas lhe fugiam, mas estava ali, na fragilidade daquele momento, um ser humano nada frágil.

Assim como vêm questionamentos vêm frases no fim da vida: são elas: Fiz o suficiente? ou ainda: Escolhi o melhor para mim?... e para os outros? A vida terrena abria-lhe as portas da eternidade; enxergava agora coisas que antes não supunha, continuando seu eterno aprender.

 

Percebia que a rigidez consigo mesmo, de querer superar seus próprios limites, e de dar sempre mais para as pessoas, estava naquele homem. Queria rezar mais e as palavras e os pensamentos já lhe fugiam.

Mas, diante da finitude ou da vida que se esvaia pelos dedos, questionava-se sobre o mistério que estaria envolvido; se fizera o suficiente pelo outro, e para o outro. O crítico dentro dele era seu grande questionador.

 

Fui agraciada, em muitos momentos, com comentários oportunos e singelos que ampliaram meu olhar. Ali, um defronte ao outro, líamos A sublime arte de envelhecer, de Anselmo Grunn. Disse certa vez que nunca antes havia se aberto daquela maneira, estava verdadeiramente se encontrando aos 90 e poucos anos de idade. Verbalizava também que não havia percebido a importância da psicologia como naqueles encontros. A resistência de ser cuidado, presente no primeiro momento, transformou-se. Após algum tempo, no horário marcado, ele já estava me esperando no local combinado.

 

Dizia que, das suas vivências, um dia quis conversar com um andante – desses que andam com um saco nas costas – para descobrir algumas verdades, sobre o que ele não enxergava da vida. Um dia experimentei, disse ele.  Parei o carro, fui até ele e questionei como ele se chamava. Ele levantou-se, pegou o saco e saiu com olhos desconfiados. Devia ter dito: Olá amigo, como você está? Percebo que comecei errado. Mostrou naquele momento, e em muitos outros, quão incansável foi seu olhar de continuamente modificar-se para alcançar as pessoas.

 

Os idosos dão aulas contando estórias, rindo e até chorando, dizia ele. A nobre arte de ficar velho é guardar memórias; isso vinha-lhe como as boas memórias que os Freis guardam em seu íntimo. A velhice seria como o outono em sua imensa beleza, eternizando a condição humana.

 

Sim, ele, como muitos outros com os quais tive contato, era um discípulo contemporâneo de Deus e que nos desvendou um pouco mais dos ensinamentos já trazidos para a humanidade. Ele, como discípulo, faz falta, para mim, para alguns, para a humanidade que, mesmo sem saber, todos necessitamos desse olhar e da sua presença amiga. Sabemos, no entanto, que ele fez uma parte: deixou suas construções, suas bases, basta que nós, também como apóstolos, e comungando esse olhar, possamos entender a mensagem e seguir adiante, fazendo a nossa parte, transmitindo amor e fé que vêm sendo repassados de ação em ação, palavra em palavra... ao longo dos séculos.

 

Vai querido, descobre o olhar e o amor de Deus que transpassa teu olhar e teu amor. O teu semear foi rico...

 

Sobre o autor
Neusa Picolli Fante

Graduada em Psicologia pela Universidade de caxias do Sul. Especialista em Teoria, Pesquisa e Intervenção em Luto. Instrumentalizada em luto e perdas pela Clínica Psicológica Luspe. Coordenadora do GAP- Grupo de Apoio a pais enlutados-Anjos Secretos.  Psicóloga Clínica e membro da equipe da Clínica Psicológica Luspe, atendimento em situações de luto, separações e perdas.