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O Portal da Gratidão

Publicado por Neusa Picolli Fante | 27/07/2016 - 09:17

            Através da janela, de onde pensamentos e sentimentos se juntam, olhamos para a gratidão e surge um questionamento: Agradecer faz bem a quem? A quem recebe ou a quem transmite? Todo gesto é refletido nos olhos, nas ações, no silêncio valioso; sim ele resplandece e transforma todos os envolvidos.

Quem não é grato não tem memória diz um dos Freis. Naquele momento, envolvido em seus pensamentos, talvez ele se conectasse com suas vivências e com os muitos cuidados com os quais se viu envolvido. A memória da gratidão está presente naquele que recebe e naquele que agradece. Essa memória vai além do intelectual, é a memória mais singela que perpassa as pessoas, é a memória do coração.

Percebe-se que a inteligência, na gratidão, pressupõe a junção do cognitivo com o emocional e com o espiritual. Surge ali um encontro entre o que me compõe, e me impedeou não de ser ingrato.

Quanta gente, soterrada nos seus questionamentos e em seus sentimentos, procura “entulhos” dentro de si que não se justificam. É notório reconhecer a importância das dificuldades nas quais nos embrenhamos, e que o ontem, por difícil que tenha sido, ajudou-me a crescer. A inteligência, que compreende e justifica certas atitudes das pessoas, está constantemente sendo dissecada. Sabe-se, no entanto que sentir-se no dever de retribuir ou agradecer não nasce da imposição, mas da espontaneidade em contato com os recursos internos que o indivíduo possui.

Agradecer faz mais bem para quem agradece ou paraquem recebe? Essa é questão que se ouve entre as pessoas. Existe um soterramento de valores quando a pessoa é ingrata; ela está constantemente insatisfeita e amontoa problemas, sendo interiormente negativa.

Insatisfação diante do mundo pode gerar um vazio interior; o eu se perde à procura de razão; a pessoa se torna vazia de princípios e de direção. Pode ser comparada a latas vazias: quanto mais vazias se encontram mais barulho fazem, verbaliza um dos Freis.

Gratidão nos remete a termos uma essência humilde. Eeste é um caminho construído interiormente, que nos leva a reconhecer que eu não sou mais nem menos que alguém. Temos claro que agradecer nos reconecta com a verdade.

A lembrança do dito de São Francisco de Assis foi refletida entre os presentes: “Temos mais a agradecer do que a pedir”; lembrança que pulsa dentro de nós, faz-nos olhar não só para o futuro, para o que queremos, mas nos amarra com tudo aquilo que vivemos.

 Por vezes sentimentos se amontoam, e a falta de equilíbrio e de serenidade, presente na vida de alguns indivíduos, naquele momento, os faz mergulhar nas limitações humanas de não enxergar o perceptível e ter outro olhar. A gratidão envolve a serenidade e a serenidade faz ter registros de gratidão gravados no íntimo.  Assim ela passa a ser um gesto de amor.

É perceptível que gratidão também é aprendizado, que passa de pai para filho; seeu souber ser grato ensinarei pessoas de minha convivência a aprenderem a ser gratas também. Assim, deixar-nos contagiar pela gratidão é uma grande tarefa de instrução e de amor. O que esse dom faz a cada um de nós é mostrar que existe uma grande força que une as pessoas.

Santo Agostinho dizia que inquieto é o coração do homem até que não repouse em Deus, buscando mostrar que há um colo que nos acolhe em todos os momentos, basta que tenhamos olhos profundos para enxergar e nos deixar acolher por esse amor.

Sabe-se que a gratidão é um portal que nos abre oportunidades a vários encontros conosco mesmo e com o outro. Portanto, serenidade pode ser compreender-se e ao outro. Consequentemente, atitudes de gratidão fazem parte da nossa vida, e são valores que se refletem nela e se propagam. Assim, mostram que é possível continuar elevando a alma, e nos deixando mais próximos de Deus.

 

Sobre o autor
Neusa Picolli Fante

Graduada em Psicologia pela Universidade de caxias do Sul. Especialista em Teoria, Pesquisa e Intervenção em Luto. Instrumentalizada em luto e perdas pela Clínica Psicológica Luspe. Coordenadora do GAP- Grupo de Apoio a pais enlutados-Anjos Secretos.  Psicóloga Clínica e membro da equipe da Clínica Psicológica Luspe, atendimento em situações de luto, separações e perdas.