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Psicologia e Bíblia: os discípulos de Emaús

Publicado por Frei Edson Matias | 30/04/2014 - 15:20

"De que estais falando pelo caminho, e por que estais tristes?" (Lc 24,17).

 

Será que a psicologia pode conversar com os textos bíblicos? Penso que sim. As ciências humanas podem com certeza ser apoio e ajuda para nosso aprofundamento. Sabemos de início que nossa fé está baseada não em teorias e sim na vivência. Esta se dá dentro de uma cultura, em uma comunidade, em uma família específica. E aí estamos nós inseridos. As vezes repletos de histórias felizes, por vezes mescladas com momentos tristes e frustrações. Sem dúvida esta última situação se adequa melhor a vida de todos nós, pois a vida não é feita somente de tempos felizes.

Porém não há como negar que existem situações na vida de muitas pessoas que marcam ou marcaram profundamente a personalidade. Falamos sobre traumas, gerando dores, frustrações, paralizações, negatividades. Neste ponto a psicologia pode nós auxiliar. Logo, um texto bíblico pode sim, junto as teorias e práticas psicológicas ajudar a arrumar a nossa casa para que a Palavra de Deus encontre um terreno fértil.

A tristeza é um obstáculo para nosso crescimento e amadurecimento humano. Os discípulos de Emaús não ‘enxergaram’, não ‘reconheceram’ Jesus Ressuscitado. Quando a frustração daquilo que esperávamos, no caso dos discípulos, a restauração do reino de Israel, nossa visão fica contaminada por tal estado. Não enxergamos, tudo fica ruim e só vemos e constatamos o que é negativo. Isso pode ocorrer em nossa vida. Neste caso precisaremos de uma revisão, uma exame de consciência (a partir da espiritualidade) ou uma autoanálise (a partir da psicologia). Tanto uma como a outra, na maioria das vezes, precisará de outra pessoa para dialogarmos.  

Poderia dizer de imediato que a oração seja um bom caminho, porém se a frustração que carregamos caso já esteja enrijecida, precisaremos de alguém para conversar. Na espiritualidade falamos em acompanhamento espiritual. Na psicologia, falamos de terapia. Caso nos sintamos pesados, que nossa vida adentrou em uma forte nuvem de negatividade, ou seja: não sentimos bem, sentimentos de solidão constante, vazio, não nos sentimos amados, dificuldades de relacionamentos, etc. Precisaremos de uma acompanhamento mais detalhado.

Uma verdadeira e sadia psicologia não vai contra nossa vida religiosa e espiritual. Só se esta última está sendo vivida de forma infantil e alimentando mais ainda nossos traumas. Um bom terapeuta saberá observar isso e acompadrará corretamente o andamento do processo terapêutico.  

Os discípulos estavam vivenciando uma profunda tristeza, decepção. Jesus se coloca no meio deles e parte o pão. Senta com eles, conversa com eles. Estes ouvem e falam e então, se observarmos bem, desde o início da conversa, o coração ardia. Sinal que as emoções estavam mudando. Estava acontecendo uma ‘metanoia’ (conversão, mudança de ‘mente’). Pouco a pouco se dava a mudança do coração/visão.  

Mas mudou o fato de Jesus Cristo ter sido assassinado em Jerusalém? Não. Neste ponto não podemos enganar. A superação de uma frustração, de um trauma, não é se enganar, ou mentir para si mesmo. É ver na situação que caminhamos o que tiramos de aprendizagem. Ou, nos casos mais graves, aceitação e perdão. Principalmente perdoar a si mesmo.

A partir da psicologia podemos aprender também que devemos olhar para nossas feridas sem cairmos na auto piedade ou inferioridade, mas olhar para frente e saber que até ali aquela situação nos causou tristeza e nos paralisou. Agora, precisamos dar um passo à frente. Para o futuro. Para nossa realização humana e espiritual. E assim, podemos perguntar: “Para onde quero ir agora?”.

Acompanhamento espiritual e terapia psicológica são duas coisas distintas. Porém, por vezes, uma pode ajudar a outra em nosso amadurecimento. O que não podemos deixar são as tristezas da vida nublar nossa visão e caímos na desesperança. Esta contamina o coração e nos paralisa. Tristeza teremos, mas devemos vive-las com vigor, sofrendo quando é inevitável, e levantando logo após.  

Sobre o autor
Frei Edson Matias

Frade Capuchinho, Sacertode. Naceu no ano de 1976 em Anápolis-GO. Filho de Baltazar Justino Dias e Genoveva Matias Dias. Ingressou na Ordem Franciscana em 25 de Janeiro de 1999, inicialmente nos Frades Conventuais - Província de Brasília. Depois fez a passagem para a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos no dia 13 de Julho de 2009. 

Formação

Doutorando em Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE. Psicólogo pelo Centro Universitário de Brasilia - UniCEUB. Mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás - PUC Goiás. Pós-Graduado em Psicologia Junguiana pela Faculdade de Ciências da Saúde de São Paulo - FACIS. Pós-Graduado em Teologia Contemporânea pelo Centro Universitário Claretiano. Teólogo Pelo Centro Universitário Claretiano. 

Áreas de atuação

Foi Professor de Psicologia e disciplinas afins na Filosofia e Teologia nos Institutos: ISB/DF, ITEO/MS e IFITEG/GO e na Faculdade Brasil Central/GO. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia clínica e psicologia da religião, como também em Teologia Pastoral e Espiritualidade. Presta assessorias às comunidades e congregações religiosas. 

Livros e Artigos

Possue diversos artigos publicados em revistas e livros. 

Contato

ed.matias@gmail.com
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