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9º Texto: A vocação como encontro

Publicado por Frei Rubens Nunes da Mota | 16/03/2018 - 00:01

Estamos chegando ao final do nosso encontro sobre o discernimento vocacional. Parabéns a você que esta perseverante nas leituras e exercícios pessoais. Neste nono texto vamos refletir sobre a vocação como encontro entre meu desejo de ser feliz e a necessidade de fazer feliz, como propósito do processo vocacional.

Todo ser humano, independente do caminho que deseja seguir, tem como objetivo o desejo de ser feliz. Ninguém caminha sem uma direção, sem um horizonte e sozinho. Somos por natureza seres de relações, sejam estas familiares, comunitárias, religiosas. Compreender essas relações é possibilidade de entender que somos fruto de um contexto histórico-social, de uma época, e que esses fatores colaboram para a formação integral do ser humano. Não é possível construir uma individualidade a partir do isolamento, da solidão e da indiferença. A partir desse princípio, percebemos a importância do encontro como um processo de crescimento pessoal e humano, nas várias dimensões do ser: afetiva/sexual, cognitiva/intelectual, espiritual/mística.

Encontro consigo mesmo

Compreender a própria biografia possibilita assumir escolhas mais certas, firmes e autênticas. E, é justamente partindo desse princípio que o encontro se faz tão necessário, ajuda-nos a entender as motivações profundas, o desejo essencial que se traz no coração, corroborando para refletir as opções vocacionais que batem à porta.

Hoje, têm-se inúmeros caminhos, caminhos estes que podem conduzir à maturidade e discernimento vocacional, ou à perda dos ideais plantados e sonhados, por meio da decepção, frustração e fracasso. São tantos os caminhos, tantas propostas que indaga, questiona, provoca, e de certo modo, às vezes, segue-se por onde não se deseja andar. Partindo dessa reflexão: como o encontro proporciona a experiência vocacional por meio do desejo e da disposição? Responder a essa pergunta talvez não seja tão fácil, pois algumas respostas são inerentes à individualidade do ser e ao projeto de vida, no entanto, são possíveis alguns apontamentos, esclarecimentos que abrem a visão e permitem uma reflexão profunda dos anseios vocacionais. A princípio é necessária uma reflexão breve do que seja o desejo e a disposição, nem sempre um é condicionante do outro, há desejos que surgem no coração e na vida que, muitas vezes, não correspondem à disposição necessária para seguir. Dado esse breve esclarecimento é possível construir um discernimento maduro e consistente da opção que se faz.

Encontro a partir da palavra de Deus

O Evangelho de São Mateus (19, 16-22) traz a narrativa de um jovem que se aproxima de Jesus, desejando saber o que necessitaria para conseguir a vida eterna. Mediante seu desejo, Jesus diz que era necessário seguir os mandamentos. De prontidão o jovem afirmou observar tais mandamentos. Jesus convida-o a dar um passo além de sua comodidade, ordenando que vendesse seus bens e distribuísse o dinheiro aos pobres. Depois dessa ação, podia segui-Lo. Entristecido, não assume o compromisso, porque possuía muitas propriedades, não conseguia ser disponível e disposto.

É possível refletir o conceito da palavra desejo mediante essa narrativa. De início é importante frisar que existem diferentes conceitos, partindo de várias análises, sejam elas filosóficas, sociológicas, ou teológicas, mas de maneira simplificada, compreende-se que o desejo nasce de forma individual e pessoal, motivado por inúmeros fatores que podem ser internos, próprio da pessoa, ou de fatores externos. Esses agem como motivadores da caminhada. Geralmente o desejo surge a partir de uma necessidade não satisfeita, ou de algo que preencha espaços “vazios” de nosso ser. A busca por algo que completa, pode ser um primeiro passo, para o entendimento do desejo. Este, por sua vez, é propulsor, faz movimentar e buscar pelas realizações. A partir do texto bíblico, percebe-se que as ações realizadas por Jesus, em sua forma de ser, conduzir e ensinar, provavelmente motivaram aquele jovem à busca pela completude do ser, aquilo que para ele era necessidade, tornou-se uma motivação, um despertar de seu desejo interno.

No entanto, para a concretização desse desejo, era necessário um despojamento, uma disposição livre e consciente. O que não houve, pois a sua riqueza e seus bens materiais impediram-no de seguir Jesus. A disposição é fazer algo pelo próprio querer, sem imposição ou obrigação. Faço porque desejo. O jovem, não assumiu seu desejo, pois para ele, deixar aquilo que era seguro, os bens materiais, era como desfazer-se de si próprio, não enxergou além das comodidades, não se dispondo a seguir Jesus.

Vê-se, desse ponto de vista, que desejo e disposição nem sempre andam em um mesmo paralelo, posso assumir um desejo, sem, no entanto, estar disposto a concretizá-lo. A consequência dessa ação pode gerar a frustração do projeto de vida. Agora nos é pertinente questionar: O que é necessário ser feito para que os jovens assumam, de forma integral, o desejo contínuo da busca do sentido de vida e a plena realização do projeto pessoal vocacional? A resposta não pode ser dada como uma receita, que descreve passo a passo o que deve ser feito; hoje, são necessárias condições para que o/a jovem desenvolva de forma saudável a vocação. O contexto atual de sociedade globalizada, extremamente individualista e capitalista, não valoriza aspectos essenciais ao ser humano como, solidariedade, amizade e a própria juventude. É necessário apontar caminhos, tornar-se ponto referencial para ajudar, conduzir, auxiliar, ser agente motivador. Aí sim, é possível que o encontro com outro estabeleça condições pertinentes ao crescimento e amadurecimento pessoal.

Vocação como encontro

Quando se diz vocação como encontro, afirma-se que o processo vocacional pode ser estabelecido com a ajuda do outro. Retomando a primeira questão apresentada sobre como o encontro proporciona a experiência vocacional, por meio do desejo e da disposição, é evidente o encontro como possibilidade vocacional, pois necessito do outro, necessito de pontos referenciais que indiquem a construção una das minhas escolhas, dos meus ensejos. Toda caminhada é permeada por encontros, sejam de forma direta, pessoal e física, ou de encontros “espirituais”, místicos que possibilitam uma relação transcendente com o Deus da vida. Há uma relação mútua entre experiências pessoais e o chamado de Deus. Sabe-se que, por excelência, tem-se como primeira vocação o chamado à vida, cuidar daquilo que foi dado pela gratuidade e bondade do Criador, a partir dessa dimensão, e da caminhada, posso responder seguramente a esse chamado.

Morano (2007, p.25) nos diz que “cada um de nós é marcado por uma história, por uma biografia”, e tomando essa afirmação como premissa, para conscientizar que é daí que conseguimos elaborar escolhas pertinentes a nossa vocação. O autor relata que Deus chama, tendo como base a realidade, o chão histórico e atual, mas o discernimento dá-se de maneira individual, trazendo presente o mundo dos desejos. Mota (2011, p. 442) relata que fazer “experiência pressupõe união entre um desejo e uma iniciativa”, a iniciativa tem uma dimensão divina, e só irá de fato efetivar se encontrar na pessoa chamada um desejo despertado, uma disposição permanente. É urgente transformar nossa motivação vocacional em objeto de amor, e constante desejo.

Deus permeou a nossa história, despertando em diferentes pessoas, o desejo do seguimento. Pela Encarnação, Deus tornou-se um Ser de relação, que tece incessantemente a vinculação com o ser humano. Todo encontro é um aprendizado, uma oportunidade de aprender com o outro, que interpela, questiona, vivencia uma experiência diferente da minha. Devo coexistir e refletir a partir desses encontros a possibilidade do crescimento, da auto-avaliação, das mentalidades solidificadas pelo comodismo, pelo egoísmo e pela transitoriedade. Se o encontro não motiva a mudança ou agregação de novos valores e conceitos, não há proposta de diálogo, de encantamento, de conversão, daquilo que o outro me possibilita como vivência cristão-espiritual.

Jesus, também, estabeleceu uma série de encontros, com o jovem, a mulher adúltera e a samaritana. Seus encontros causaram uma mudança radical e efetiva na vida pessoal daqueles que fizeram essa experiência. A vocação se dá de forma pessoal e singular, mas necessito do outro como possibilidade de interpelação divina, que ajuda na busca e efetivação da proposta vocacional. Posso construir essa proposta, a partir da realidade, daquilo que é essencial, trazer dentro de uma perspectiva afetiva e amorosa, aquilo que, muitas vezes, se qualifica unicamente como intelectualidade e racionalidade.

A juventude pode sim seguir uma vocação, desde que se ofereçam espaços que possibilitem o desenvolver, o agir e fazer discernir a vocação de cada um/uma. O jovem necessita de desafios, de experiências significativas que façam valer a proposta escolhida. Não estamos aqui para imitar e copiar tudo o que Jesus fez, mas para seguir e fazer de seu Reino anunciado, um Reino de identificação que faça mergulhar profundo na vocação independente de suas variadas formas. Há várias maneiras de assumir nossa vocação: como encontro, com aquele que desperta um desejo referencial, que seja um constante renovar-se, entre a própria juventude; encontros com a comunidade, a família, a escola, nos espaços que frequento. É possível essa experiência desde que o seguimento de Jesus, seja para nós, princípio e fim de todo encontro. Faça a experiência do encontro, deixe-se encontrar, e experimente a concretização humana da vocação Divina. O caminho está posto e necessita basicamente do primeiro passo.

Questões

1 – O desejo e a disposição são fatores inerentes ao seguimento da vocação cristã, estabelecer uma relação concreta entre esses dois aspectos, é possibilidade para caminhar mais seguro e certo; como esses dois fatores podem contribuir para o amadurecimento da vocação pessoal, partindo da realidade vivida?

A – O desejo e a disposição estão relacionados de forma direta e inseparável, só posso levar em consideração o amadurecimento vocacional a partir de elementos externos da pessoa humana.
B – O desejo profundo, pessoal e cultivado, a partir de um querer livre sem imposição, associado à biografia, à experiência vivida na comunidade, na igreja, possibilita um amadurecimento das minhas escolhas vocacionais.
C – O desejo e a disposição não são aspectos práticos das minhas escolhas vocacionais, a vocação dá-se de maneira desestruturada, e não é influenciada por aspectos internos e externos da vontade pessoal.

2 – O encontro pode favorecer uma experiência profunda de interpelação de Deus na história pessoal, como o encontro pode favorecer um amadurecimento vocacional e pessoal, que ajuda nas escolhas de vida:

A – O encontro pode fortalecer minhas escolhas, mediante a interpelação do outro como possibilidade de encontro com Deus.
B – Mesmo que o encontro não possibilite uma mudança, um aprendizado, um diálogo, posso conseguir sozinho um direcionamento vocacional.
C – Deus não possibilita um encontro, entre aqueles a quem soa o chamado vocacional, não posso levar em consideração que os encontros com Deus amadureçam a opção vocacional.

3 – Hoje é necessário trazer presente a essencialidade da vocação como proposta de caminho, todo jovem, só irá se encantar com uma opção, se esta proporcionar uma identificação afetiva, e isso poderá for efetivado à medida que

A – Tomo o chamado de Deus somente como algo de cunho racional e intelectual.
B -Transformo a experiência vocacional em algo afetivo, identificando e amando aquilo que proponho como caminhada e projeto de vida.
C – Não necessito me utilizar dos afetos, do coração como meios de amadurecimento vocacional, a razão me proporciona uma escolha certa e efetiva.

 

Referências:

MORANO, Carlos Domínguez. Afetividade, Espiritualidade e Mística. Rio de Janeiro. Publicações CRB, 2007.
MOTA, Rubéns Nunes. Experiência de Deus que gera projeto de vida. IN: Convergência, Setembro de 2011, XLVI, n° 444.

Sobre o autor
Frei Rubens Nunes da Mota

Rubens Nunes da Mota, irmão leigo consagrado. Nasceu no ano de 1971, em Montalvânia-MG. Filho de Joaquim Nunes da Mota e Flozina C. da Mota Nunes.

Profissão

Psicólogo (terapeuta de família sistêmico)

Cargo que exerce atualmente

Assessor nacional para os temas de psicologia, juventudes e vocação.

Formação

Bacharel em Teologia pelo IFITEG-GO (Instituto de Filosofia e teologia de Goiás); Graduação em Psicologia e pós-graduação/psicologia pela UCG-GO (Universidade Católica de Goiás) e Mestrado/psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB).

Livro Publicado

Juventudes - O exercício de aproximação (Ano: 2011)