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Experiência de Deus que gera Projeto de Vida

Publicado por Frei Rubens Nunes da Mota | 07/01/2018 - 09:26

“Vejam, fiz de novo a leitura das raízes da vida, que meu Pai vê melhor. Luzes, acendi com brandura…” (Música: Frei Antônio Fernando Fabreti, OFM; Letra: J. Thomaz Filho)

 

Este breve artigo quer ser uma provocação que ajuda nas reflexões sobre o Serviço de Animação Vocacional (SAV) . São contribuições que evocam as experiências de Assessoria, participação em Congressos e contribuições de alguns autores.

A sequencia dos temas abordados revelam um caminho possível para a construção de um Projeto de Vida, a partir da leitura do processo pessoal e das implicações da história de vida no processo vocacional. A temática vocação está centrada na experiência de Deus, evocando o tema da Assembléia Geral da CRB Nacional: “de olhos fixos em Jesus” (Hb 12,3) incita a pensar novas metodologias para o SAV, considerando sempre a vida das Juventudes, sua diversidade, sonhos e projetos antes das necessidades institucionais.

1 – Comunhão com Deus

Fazer experiência pressupõe união entre um desejo e uma iniciativa. Damos o nome a este duplo movimento de ação vocacional. A iniciativa é de Deus e obterá ressonância se encontrar na pessoa chamada um desejo despertado para fazer a experiência. Encontrando resposta, o chamado terá um dinamismo próprio, estabelecendo uma aliança/comunhão de amor com quem chama (SAV/CNBB, 2009).

Amadeo Cencini diz que existem muitas implicações culturais que podem dificultar a compreensão desse chamado. Cultura, diz Cencini, é compreendida como fruto da interação humana que tem pontos de encontro, ou seja, a assimilação de valores e costumes. É o que se converte em sistema e tradição, sendo expressão da identidade de um povo. Tem valor subjetivo e objetivo que dão valor à sua vida. Não se dá através de somente repetições, mas motivacional sempre. É uma prática de vida que, mesmo tendo um método, é vivencial, não sendo somente um dado teórico e comportamental, mas atenção permanente e vigilante à vida cotidiana, onde se concretiza a resposta.
A cultura vocacional implicará no encontro entre as crenças pessoais e os valores comunitários. Essa assimilação será mais saudável se as crenças pessoais se converterem em patrimônio que serve à comunidade e à sociedade, fazendo do valor subjetivo um dom público, ou ainda, a satisfação pessoal em alegria e solidariedade a outrem.

Para levar a uma comunhão com Deus, a cultura vocacional segue uma pedagogia que se transforma em um Projeto. Este Projeto é compreendido a partir de uma teologia vocacional que parte de Deus e encontra ressonância no Projeto D’Ele mesmo. Parte da imagem de Deus como O que chama e ama eternamente, com a finalidade de contribuir na sua messe, efetivando seu Reino no mundo.

O termo vocação não fala exatamente de um projeto de vida, de um serviço, mas fala de Deus, de um Deus que chama para manifesta seu amor. O chamado pode se transformar em um Projeto de Vida, mas somente será vocacional se for orientado a partir do amor e da relação com Deus. Esta relação ajuda perceber que Deus não quer empregados ou meros funcionários para sua messe, mas está interessado na vida e no desejo de compartilhar seu mistério. Este mistério que se deixa revelar no cotidiano da vida e no encontro intimo com Ele, não um enigma distante e frio. É mistério, sim, mas revelado na diversidade das vocações, não somente uma, mas na diversidade. Mesmo a salvação e a redenção são pilares do mistério que envolve a vocação humana, sendo um convite ao ser humano à participar de uma missão de maior amplitude, uma causa social.

Vocação aqui não se reduz somente ao âmbito pessoal, mas tem um desdobramento comunitário e social. O vocacionado/a dimensiona sua resposta no bem das demais pessoas, faz-se veículo da herança divina. Foi para isso que Deus fez o ser humano à sua imagem, capaz de ser agente de salvação.

Reduzir o relacionamento com Deus ao projeto pessoal, sem o aspecto missionário é infantilizar a Teologia Vocacional e deturpar a comunhão com Deus. A comunhão desperta para um chamado a participar da obra da redenção. Esse é o mistério de Deus que vem ao encontro do nosso mistério, é a nossa história, com seus limites e virtudes, que se propõe continuar a história de salvação, o Reinar de Deus.

1.1 – Comunhão consigo

A comunhão com Deus e com seu Projeto entende pessoas inteiras, integradas consigo e com sua história. Isso não quer dizer que existe uma ordem linear onde ocorre primeiro a comunhão com Deus e depois a comunhão consigo mesmo. Nem tão pouco entrar em comunhão com Deus se torna um aval automático para estar em comunhão interna. Essa não é uma sequência e nem essa organização quer impor uma ordem, pois tem pessoas que precisam ajustar sua história pessoal para depois perceber outras realidades. Essa proposta quer dizer que a comunhão com Deus ou consigo pode acontecer simultaneamente, onde um passo ajuda o outro.

O caminho para entrar em comunhão consigo é peculiar em cada pessoa, pois tem a ver com a própria história de vida. Aqui cabe, no máximo e com certa ousadia, propor um itinerário para entrar em contato com a própria história, processo facilitado para a proposta dessa etapa. Apresentamos seis etapas que podem ajudar:

1 - Fazer anamnese, uma memória viva da própria história. Nela são considerados aspectos familiares que dizem respeito à árvore genealógica;
2 - A própria identidade originária: quem deu o nome, o que motivou esse nome, qual a inspiração para esse nome, qual o significado e origem;
3 - Sobre a cultura onde a família esteve inserida: o que é próprio da região onde nasceu, costumes alimentares, modo de falar, comidas típicas…
4 - Dimensão religiosa: a forma de rezar/orações, a imagem de Deus que foi passada na catequese e pela família;
5 - Contexto do sistema: perceber a dimensão política e ideológica da época; questões econômicas (condições financeiras – realidade sócio-econômica);
6 - Dimensão afetivo-sexual: como tomou contato com o corpo (primeiras descobertas sobre a heroicidade), paixões, desejos, relacionamentos.

Essas etapas são divididas somente para compreensão pedagógica, pois elas estão intimamente relacionadas, formando um único processo. Como exemplo podemos perceber na exposição de Amadeo Cencini , quando fala da correlação entre a afetividade, a sensibilidade e a espiritualidade. São dimensões que dizem respeito ao mesmo potencial que podem proporcionar a experiência pessoal com as pessoas e com Deus.

Essas dimensões constituem a pessoa, mas foram construídos ao longo da vida, como confirma Cencini, ao afirmar que a sensibilidade é um construto histórico elaborado ao longo da vida. Se são construtos que constituem a identidade, deve-se atentar à contraposição entre o que cultivo e o que se deseja para futuro pessoal e relacional.

2 – Experiência de Deus

Mesmo tendo mencionado acima a imagem de Deus na dimensão religiosa, essa merece maior atenção por constituir o elemento principal nesse texto. Falar de imagem não é falar de algo estático e neutro, como não é estático o olhar fixo em Jesus. Fixar o olhar em Jesus, como nos alertou a Conferência dos Religiosos do Brasil , é estar atentos/as à realidade interna e externa, que clama pela experiência de Deus e por nosso testemunho/ação. Estarmos atentos/as a essa realidade é o mesmo que perceber a gênese conceptiva do ser ou, utilizando uma analogia, é à base da construção.

Duas perguntas ajudam perceber a influência que a imagem de Deus tem sobre a identidade pessoal. Uma é: – quem é Deus para mim? A resposta a esta pergunta desvela em qual imagem de Deus que se acredita e como esta imagem influencia as atitudes, ações e concepção de vida. A segunda é: – Quem sou eu (ou estou sendo) para Deus? Normalmente esta tem sido uma pergunta mais difícil de ser respondida nos exercícios feitos junto às pessoas no ministério do acompanhamento espiritual. O grau de dificuldade é justificado pela necessária reflexão de ficar no lugar de Deus e perceber-se a partir D’Ele. Essa segunda questão tem o mesmo objetivo da primeira, o de mostrar o grau de fé em Deus nas próprias atitudes.

Foi justamente para tomar consciência da influência que a crença pessoal tem na constituição de cada pessoa que esse tópico entra nessa análise. É muito comum a convicção de que a concepção que se tem de Deus é como a concepção de si e das s próprias relações, logo, a relação consigo, com Deus e com as pessoas se influenciam mutuamente por essa imagem que foi se criando ao longo da história de vida.

Além do propósito de mostrar o nível de influência da imagem de Deus sobre a identidade pessoal, quer-se demonstrar que o êxito do projeto de vida vai depender do aprofundamento desse relacionamento. Da relação profunda e íntima com Deus Trindade, o Deus de Jesus Cristo, dependerá o nascimento de um sonho – mas não somente o nascimento – como de sua consolidação.

3 – Itinerário vocacional

A partir da tomada de consciência da própria história e sobre as questões que contribuíram para essa constituição, será possível iniciar a reflexão sobre o itinerário que leva ao Projeto de Vida. A pessoa chamada percorre este caminho através da dimensão vocacional.

Falar sobre vocação significa falar da realidade mais profunda da pessoa, nos falou Amadeo Cencini em Costa Rica . Não se trata apenas de buscar a satisfação de um mero desejo pessoal ou de sentir-se realizado/a em determinadas tarefas gratificantes (SAV/CNBB, 2009). Refletir sobre a dimensão vocacional é ir ao encontro dos desejos individuais que encontram o propósito no sonho de Deus, realização pessoal em seu Reino.

Um dos grandes desafios de quem acompanha um itinerário vocacional é perceber e deixar-se embalar pelos sonhos de quem é acompanhado/a entrelaçando com o sonho de Deus. Valorizar as iniciativas e propósitos da pessoa que está buscando e, ao mesmo tempo, convidá-la a cruzar os dados pessoais com a história da salvação, eis o labor da Animação Vocacional.

Esse discernimento é tão trabalhoso para quem está construindo o projeto, como por parte de quem acompanha esse itinerário. Grandes desafios estão ligados às diversas opções oferecidas nos tempos modernos, sendo umas favoráveis e outras prejudiciais neste caminho. Por isso, junto ao embalo dos sonhos juvenis, propõe-se partir da aventura empolgante do Evangelho, pois Ele é quem ilumina o caminho da construção do Projeto.

Partir do Evangelho é partir do sonho de Deus e de seu desejo para humanidade. Amadeo Cencini, quando fala sobre a mentalidade vocacional, trata justamente desta questão, orientando que o processo vocacional parte da imagem de Deus como Aquele que chama eternamente porque ama e, amando, chama. No chamado, a iniciativa é sempre de Deus que dá condições, através de dons, aos chamados/as.

Dons são carismas, biblicamente definidos como graça e Espírito. O conceito introduzido por Paulo na literatura cristã como “expressão abrangente que designa os dons da graça dos cristãos, que são entendidos como manifestações da charis, do poder da graça de Deus e de seu Espírito”, ajudam compreender que o carisma é dado individualmente, é próprio (ICor 7,7), mas impõe um desdobramento comunitário, ou seja, se traduz em serviço à Comunidade. O dom ou carisma é, pois, a célula tronco que gerará a vocação e ainda o talento que em seu desenvolvimento vocacional revelará o Projeto de Vida que inclui o sonho de Deus a as necessidades humanas.

Contudo este não é um processo automático, ao contrário, a descoberta vocacional é exigente, pressupõe crises pessoais em relação aos questionamentos existenciais que põem em cheque várias concepções até então tidas como certas e verdadeiras. Toda vocação tende sofrer com os conflitos familiares e sociais por contrariar lógicas estabelecidas e sonhos questionados, valores revistos, com novo rumo tomado.

O discernimento sério com este itinerário levará a um Projeto de Vida comprometido com o sonho pessoal-sonho de Deus. Nesse encontro de sonhos, a pessoa é livre para escolher a lógica para sua vida, mas não é livre para sair desta lógica, pois trair-se significa trair o projeto de Deus. Este itinerário mostra que optar livremente por um projeto implica na fidelidade ao dinamismo da opção vocacional feita. Este dinamismo, comenta Cencini, tem implicações vocacionais, como: doação, vivência na e para a Comunidade, dimensão social como responsabilidade e resposta diante do sim dito mediante o discernimento feito.

4 – Projeto de Vida

O sim vocacional, que implica compromisso com o projeto de Deus, implica em desdobramentos de corresponsabilidade. A esta atitude de coconstrução do Reino fica aqui nomeado de Projeto de Vida. O termo vocação não fala exatamente de um projeto de vida, nos diz Cencini, alertando para centralidade em Deus e não nas tarefas. Diz respeito primeiro à experiência de Deus, como já vimos acima, contudo esta experiência não é intimista ou egoísta, pois a verdadeira experiência de Deus conduz à manifestação de seu amor e de seu projeto.

Um Projeto de Vida, para ser um projeto vocacional, tem ressonância com o Projeto de Jesus.

Ao elaborar o seu projeto, a pessoa busca inspiração no itinerário percorrido por Jesus para analisar se este projeto é vocacional ou se é uma elaboração que busca apenas a própria realização. Na comparação deve aparecer a tríade: encarnação, paixão e ressurreição. É percebendo o presépio que o projeto terá a realidade concreta como referencial para atuação. É no mistério pascal que os sofrimentos, angústias e inquietudes tomarão sentido para impulsionar a continuidade do Reino e é na Ressurreição que as lutas e desafios encontrarão sentido, pois o fim não é aqui, há uma realidade que vai além desses limites.

A própria encarnação do Filho nos revela o verdadeiro rosto da transcendência e o seu modo de atuar na história. Este é o paradigma do qual não se pode distanciar o pensamento vocacional de uma estrutura fundada na revelação. A essência do Projeto de Vida deve manter uma nítida e definitiva coerência com a verdade da mensagem de Jesus, manifestando-se ao mundo através do anúncio do Reino do Pai.

O Projeto de Vida é um convite a esta obediência despojada de Jesus. O itinerário de Jesus é a principal motivação vocacional para um Projeto confiável e bem estruturado. Seguindo este caminho, o Projeto vai ser para Deus e para os outros, tendo como base, razão, centro e meta Jesus Cristo. Neste sentido o Projeto de Vida será consequência da experiência de Deus em Jesus. Esta é lógica que não deve ser interrompida, como já refletimos acima, pois é este itinerário vocacional que ilumina o verdadeiro Projeto.

É a experiência de Deus, no contexto da encarnação, que gera um projeto de vida vocacional. É a práxis, da qual Cencini alerta, que mantém a sintonia entre a resposta vocacional a missão assumida. Essa missão tem conotação tanto eclesial quanto social. A eclesial contempla a pastoral da Igreja, que tem seu fundamento teológico na eclesiologia renovadora do Concílio Vaticano II, o qual define a Igreja como comunhão e missão (SAV/CNBB, 2009). A conotação social contempla as diversas iniciativas de organizações da sociedade que lutam em favor da vida.

4.1 – Passos para elaboração do Projeto de Vida

Já temos alguns escritos que tratam sobre este assunto. Dom Eduardo Pinheiro (2008), bispo referencial para o Setor Juventude da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), lançou um livro sobre o assunto onde inclui no itinerário para escrever o Projeto, a necessidade de perceber os sonhos e a realidade antes dos passos para sua concretização. O enfoque aqui será a elaboração de um Projeto de Vida com centralidade na experiência de Deus revelado por Jesus Cristo com atenção à leitura da vida. Para isto seguem algumas pistas para sua elaboração.

A preocupação em elaborar e assumir um Projeto é antecedida pela atenção à sua importância vivencial/existencial. Ter presente o momento/estágio da VIDA e da VOCAÇÃO que se está vivendo e o situar-se para elaborar ou reelaborar o Projeto de Vida com maior solidez e realismo são pressupostos aqui pontuados. Esta preparação não diz respeito somente à reflexão racional, mas tem seu fundamento na reflexão-oração, a fim de incluir Deus em todo o Processo.

A elaboração do Projeto de Vida parte das reflexões sobre o processo pessoal para o autoconhecimento. Tomar consciência do processo geracional-familiar ajuda a retirar as amarras da própria história de vida que deixam refém das vontades alheias ou mesmo das tramas e traumas pessoais. A consciência da própria história e de seu contexto dá condições de elaborar o Projeto de Vida.

Para sistematização objetiva do Projeto de Vida propomos quatro tópicos em formato de passos que remetem às seguintes dimensões: eu comigo, eu com o outro, eu com o mundo/natureza e eu com Deus. Vamos perceber algumas questões que podem iluminar a elaboração do Projeto de vida através de quatro passos:

– Passos a nível pessoal (eu comigo): encantamento com a possibilidade de dar um significado para a vida e enfrentamento de si mesmo/a diante das crises e angústias pessoais que antecedem a compreensão do chamado.
– Passos a nível familiar e social (eu com o outro/mundo): enfrentar os sonhos, as expectativas e possíveis incompreensões familiares e confrontar as inquietações diante das opções que o mundo oferece.
– Passos diante da opção a ser feita (eu com Deus): escolha diante dos diferentes carismas, tendo presente o chamado de Deus e o desejo pessoal. Momento de cruzar os dados obtidos na história de vida com o carisma que se está optando para perceber bem como se coadunam o carisma pessoal e os dons recebidos e se conduzem para a missão.
– Perceber se há confluência entre o carisma pessoal com o carisma institucional exige atenção especial ao processo de discernimento vocacional, contemplando (olhando com os olhos de Deus) as motivações para a escolha de tal carisma. Aqui se podem verificar as principais inquietações vocacionais, percebendo o que e quem ajudou a fazer esse processo, bem como as principais crises, “certezas” e dúvidas nas diversas fases do discernimento.
– Passos na Instituição: trata-se do ajuste do Projeto pessoal com o da Instituição (Congregação/Província). Algumas questões podem ajudar a verificação do carisma pessoal e congregacional: quais as principais motivações para escolha desse Carisma e Instituição? Como é o processo de identificação com este estilo de vida? Como esta Instituição atua como igreja ou quais as funções que exerce? Essas questões levam a uma revisão do discernimento vocacional, pois é justamente o bom discernimento que proporcionará mais acerto na opção.

A partir deste passo, a expectativa é que o processo formativo acrescente valores para que a etapa posterior tenha maiores acertos. A contribuição mútua favorece a continuidade do processo, pois uma etapa bem vivenciada ajuda a vivenciar as demais.

Duas dimensões podem ajudar no ajuste desse processo entre as etapas. O primeiro diz respeito ao projeto e à equipe formativa da Instituição, que deve ser afinada com o Regimento e Orientações comuns. A outra diz respeito à abertura e sintonia da pessoa que está passando pelo processo. Esse/a Formando/a deve estar atento/a ao que marca cada etapa para ir agregando o aprendizado ao longo do processo. Para isso pode se perguntar sobre: – o que mais me marcou no acompanhamento vocacional (sentimentos)? Quais as principais contribuições na primeira etapa de formação? O que ficou de cada etapa vivenciada e quais os pontos que mais marcaram?

4.2 – Questões que implicam na elaboração do Projeto (supondo uma escolha vocacional em uma Congregação Religiosa). As perguntas que seguem apontam para um ideal de Vida Consagrada a ser coconstruida, pressupondo a contribuição do carisma de quem está entrando na Congregação:

1. Vida em fraternidade/convivência

Como pretendo ajudar na construção desse sonho, especialmente da vida fraterna/comunitária, diariamente?
Sou único e tenho um carisma próprio, porém encontro carismas na Congregação. Como ser um dom na vida das pessoas com quem convivo?

2. Vida em Oração

Como darei continuidade ao cultivo da experiência de Deus que foi despertada em mim?
Como pretendo ajudar para que os momentos de oração fraterna/comunitária sejam mais ricos e proporcionem experiências fortes de Deus e da Fé?

3. Vida missionária/profissional/estudos:

Qual minha opção ministerial enquanto: estado laical (Irmão leigo) ou ministério sacerdotal? Em ambas as opções devo aprofundar minha opção com a pergunta: quais as motivações que me levaram à essa opção?
Quais as motivações para cursar uma Faculdade ou Curso profissionalizante? Pretendo fazer um curso profissionalizante? Com qual área profissional me identifico? Qual a aplicação e importância desse curso para mim e para Instituição da qual faço parte? Como ser dom para o povo de Deus?
Essa terceira etapa contempla uma ressonância com os carismas, tanto pessoais quanto congregacional. Para não se caracterizar como um projeto rígido e fechado, é bom e convém que seja flexível, tanto para possíveis mudanças nas concepções pessoais, quanto para sugestões que dizem respeito à realidade da Congregação/Instituição.

Concluindo

Como dissemos na introdução, este pequeno artigo teve a pretensão de provocar os/as Animadores/as Vocacionais e os/as Formadores/as a repensar os métodos que tem sido utilizados para elaboração de Projeto de Vida. Alguns métodos têm instrumentalizado a vida das Juventudes e/ou banalizado Carismas, tanto pessoais quanto Institucionais.

Após estas reflexões, ficam dois grandes desejos: – o primeiro de cuidar da vida como dom de Deus, zelando sempre para não sobrepor as necessidades institucionais acima da vida, sob a tentação de colocar em risco a própria vocação; – o segundo diz respeito ao cuidado com as inspirações primeiras, não como insistência em concepções rígidas ou processos travados, mas valorizando o chamado de Deus como origem de tudo, como nos diz Santa Clara “não perca de vista seu ponto de partida”. 

 

Referência

CNBB, Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada Pastoral Vocacional (PV) / Serviço de Animação Vocacional (SAV): CMOVC/ SAV (02) Maio de 2009.
KONIG, Franz Cardeal & HANS Wldenfels, Léxico das Religiões, Vozes 1998.
SILVA, Dom Eduardo Pinheiro. Projeto Pessoal de Vida. CISBRASIL, CIB, Brasília.

Sobre o autor
Frei Rubens Nunes da Mota

Rubens Nunes da Mota, irmão leigo consagrado. Nasceu no ano de 1971, em Montalvânia-MG. Filho de Joaquim Nunes da Mota e Flozina C. da Mota Nunes.

Profissão

Psicólogo (terapeuta de família sistêmico)

Cargo que exerce atualmente

Assessor nacional para os temas de psicologia, juventudes e vocação.

Formação

Bacharel em Teologia pelo IFITEG-GO (Instituto de Filosofia e teologia de Goiás); Graduação em Psicologia e pós-graduação/psicologia pela UCG-GO (Universidade Católica de Goiás) e Mestrado/psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB).

Livro Publicado

Juventudes - O exercício de aproximação (Ano: 2011)