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Os jovens, a fé e o discernimento vocacional

Publicado por Frei Rubens Nunes da Mota | 22/11/2018 - 22:23

Neste mês de outubro vivenciamos o Sínodo sobre os jovens, fé e o discernimento vocacional. Evento este que precisa ser compreendido dentro de um processo maior que o Papa Francisco tem, pedagogicamente, nos mostrado onde a vida clama.

Sob o meu ponto de vista, este processo começou com a instituição do ano da VRC. Naquela ocasião, diante de um mundo pessimista, de crises e falta de perspectivas, fomos exortados a sermos presença alegre junto ao povo de Deus, facilitadores e não controladores da graça. Na sequência, tivemos o ano da Misericórdia, onde houve uma convocação para uma Igreja que consiga chegar na essência das pessoas, em seu coração como forma de enfrentar o individualismo e personalismo frio e isolante. Diante de uma Igreja estagnada, o apelo para sermos uma Igreja de acolhida e em saída. Contudo o santo padre notou que se fazia necessário olhar para a Igreja doméstica, para a família e sua situação. Veio o sínodo sobre a família para reconhecer os sofrimentos da família e saber mais acolher a diversidade do que julgá-la e excluí-la. Diante desta realidade houve um retorno à misericórdia com a roupagem diferente, através da exortação sobre Santidade, mostrando que todos e todas somos chamados à santidade no mundo atual. Uma santidade possível a partir do cotidiano, do ordinário, do século, do simples e complexo. Mostrou-nos que ser santo, nestes contextos, muitas vezes, é andar na contramão. É não ignorar as injustiças deste mundo. É sermos presença, onde a vida clama. E agora...

Neste momento houve uma verticalização para aqueles e aquelas que padecem com a falta de perspectiva, diante de um cenário de depressão e suicídio. Vejo que o Sínodo sobre juventude, fé e vocação, é uma grande manifestação de amor do Papa Francisco para com os jovens! Não é somente um evento, mas um alerta que quer fazer acordar a sociedade, a Igreja e a família para os perigos e valores básicos da vida diante de tantas ameaças de morte: motivações para viver e fazer viver!

Buscando ter bases sólidas, o Sínodo nos traz uma análise da realidade e nos convoca para o protagonismo juvenil. Vemos alguns elementos que aparecem no documento preparatório do Sínodo e que nos ajuda, como VRC, a sermos mais presentes na vida das Juventudes. Vemos alguns tópicos tratados no evento.

Contexto social e eclesial

O Sínodo nos alertou sobre a fragilidade das instituições gerando uma crença baixa, especialmente quanto ao poder judiciário, político. Contudo se percebe um descrédito do sistema familiar, com certo descrédito ao papel dos pais e na educação, com aumento da violência na escola e desrespeito à classe de educadores.

Quanto à instituição Igreja, ainda temos um nível razoável de aprovação, porém com grande índice de descompromisso e relativismo diante dos valores que são transmitidos. Obviamente que encontramos motivos para tanto, sejam externos, devido ao hedonismo e individualismo que acentuam o personalismo, empoderando as pessoas para imporem seu modo de pensar, bem como por parte de alguns clérigos excessos que tem sua expressão no clericalismo, onde os padres acreditam que são detentores do poder e controle, desmerecendo a caminhada dos leigos e leigas.

Estes ambientes favorecem manifestação de polos, como conservadorismo, ressuscitando um tradicionalismo tridentino que pouco ajuda na evangelização diante das demandas de nossa época. Por outro lado, temos algumas posturas laxistas, com relativismo dos costumes e normas que banalizam o sagrado. É importante evitarmos estes polos que não nos ajudam a sermos Igreja povo de Deus, impedindo de vermos e nos envolvermos com as realidades onde a vida clama. Ao contrário, corremos o risco de ser contratestemunho em um mundo que tanto precisa de referências positivas para vencer tendências secularistas que estão rompendo com os valores cristãos.

Contrastes em relação à figura do Papa Francisco

O sínodo acontece em um contexto em que não é incomum percebermos manifestações de amor e vibração para com as atitudes do Papa Francisco diante de tantas mudanças e testemunhos de uma Igreja que se aproxima dos empobrecidos e excluídos. Contudo vemos igualmente sinais de ódio ou apatia diante deste pastor, por incomodar a tantos que se encontravam em um modelo de igreja acomodada, configurando zona de conforto e comodidade.

Neste sentido percebemos outros contrastes, como alas da Igreja que percebem o Papa como agregador por trazer os afastados e provocar diálogo com outras religiões, contudo alguns o percebem como divisor, por inquietar e dividir internamente; alguns o percebem como testemunho Jesuano, por exalar a fragrância de Jesus de Nazaré por onde passa e no que fala, bem como franciscano, ao ser um testemunho vivo de Francisco de Assis, contudo outros o comparam à besta fera, sendo ‘inimigo da igreja’. Muitos de nós o vemos como referência que gera sonhos e esperanças, especialmente nas Juventudes, outros o acham destruidor da Igreja, justo por propor uma Igreja em saída, evangelizadora.

Presença do Papa Francisco junto às juventudes

Desde que assumiu o pontificado, Francisco tem se mostrado muito próximo das Juventudes. Vemos alguns destaques que apareceram na Jornada Mundial da Juventude (JMJ) do Rio em 2013 e na Cracóvia em 2016:

Com grande capacidade de empatia e encantamento conseguiu atrair, agregar e se comunicar com as Juventudes presentes. Mostrou-se próximo e envolvente, despertando empatia e carinho que envolvia a grande multidão presente. Conseguia ainda desenvolver uma sintonia que provocava respeito e admiração.

Algo impressionando na relação do Papa Francisco com o povo e com a Juventude em especial, é a possibilidade de despertar a Fé e Esperança através de sua convocação, alertando que as Juventudes devem ser guardiãs da Esperança, nunca perdendo a alegria e encanto que lhes são próprios.

Outro aspecto marcante em sua relação com a Juventude diz respeito ao seu incentivo para a missão, como sentinelas do hoje e do amanhã, sem perder a atenção e o carinho para o Profetismo.

Juventudes

O Sínodo traz alguns elementos que mostram os cenários das Juventudes e seus complicadores e elementos positivos. Relata sobre as influências dos diversos sistemas na configuração da identidade e personalidade, especialmente na geração Z, jovens com menos de 20 anos de idade. Alguns elementos positivos aparecem diante deste cenário, como o acesso a muitas informações; bom nível de flexibilidade e diversas possibilidades diante das muitas ofertas encontradas. Contudo temos alguns complicadores, como o paradoxo das múltiplas escolhas, gerando confusão diante de tantas opções e provocando crises, como o desânimo, a depressão e o suicídio.

Diante deste quadro é importante valorizarmos as possibilidades que surgem mediante a oferta que encontramos no cenário atual, contudo cuidar para que estes excessos não gerem inconstância diante dos projetos pessoais, pois é tão importante ter flexibilidade, mas se precaver diante da cegueira de escolha, ou seja, se alienar de si mesmo diante do Projeto de Vida.

Nesta valorização das possibilidades, devemos considerar a identidade de cada Juventude, como: jovens do mundo urbano, que trazem um forte nível de influência da massificação que lhes é imposta por marcas, estilos e modelos. Isto pode avassalar culturas e valores, como indígenas, negros e empobrecidos. Outras especificidades dizem respeito às regiões dos Pais, como Norte, Nordeste, como os demais que sofrem processos migratórios fortemente marcados por dificuldades financeiras. Esses processos interferem na identidade, autoestima de cada jovem.

Fé e vocação

O Sínodo retrata a Fé, na mesma lógica do documento sobre santidade, ou seja, impulsiona para que as juventudes possam dar espaço para o sagrado que anima, torna discípulo e missionário. Neste sentido, Fé e vocação devem caminhar juntas, pois a iniciativa do chamado é de Deus, contudo, de forma lúcida e otimista. É preciso evitar os polos da violência diante do chamado, através de pessoas que mais direcionam do que animam, nem tão pouco diante da apatia de muitos que desistem de chamar (ou porque são infelizes, ou pelo descrédito N’Aquele que continua chamando. O discernimento diante do chamado implica no processo que faz caminhar, questionar e purificar o formato do chamado. Este caminho é, justamente, para se verificar se as motivações são aquelas que puxam, ou seja, atrativas, ou empurram, ou seja, com tonalidades de fuga e compensação.

Neste sentido é bom que nos perguntemos, como VRC, como estamos para ajudarmos os jovens neste processo de discernimento vocacional. Como está a vocação pessoal de cada consagrado e consagrada, nossa vida comunitária/fraterna e nossas instituições fragilizadas. Tudo isto para que consigamos acompanhar e ajudar no discernimento das buscas juvenis, que já não são nada fáceis, como vimos acima. Imagina se nós, ordens, congregações e novas comunidades, não estamos acertadas conosco mesmas: o caos vocacional está posto, pois um ‘cego não guia outro cego’! [[e importante que nos ajustemos diante do que nos é prioritário, o núcleo identitário da VRC, as relações saudáveis que buscam potencializar cada membro, valorizar os dons e talentos a partir do comum em vista da missão.

Este fortalecimento é possível quando discernimos o processo vocacional e formativo em vista do fortalecimento da identidade e carisma; quando possibilitamos a cultura do encontro com o diferente, de forma integradora, considerando a cultura alheia. Assim criamos novas relações que valorizam a identidade, consideram a alteridade, em vista da transcendência. Assim caminhando, nossa missão será construída a partir do coletivo, capaz de favorecer espaços para manifestação dos dons e talentos que cada pessoa traz.

Considerações finais

As problemáticas recorrentes que atacam as Juventudes, como: síndromes, depressão e demais patologias geram nostalgia, individualismo, desistência dos projetos e da própria vida.  A esperança, de um esperar apático, confabula com a ansiedade, que, por sua vez, corrobora com a angústia, que adoece. É preciso despertar para a espera de esperançar, de assumir sua vida e seu papel, seu protagonismo. Neste sentido, quais os contrapontos que a Igreja pode colocar para reavivar cada jovem? O Sínodo quer ser esta resposta. Diante do tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, quer trazer as Juventudes para centralidade do projeto de Deus e a chamada do Papa Francisco ao dizer “Eu quis que vós estivésseis no centro da atenção, porque vos trago no coração.”, quer mostrar, com carinho, o lugar que ele quer que o jovem ocupe, central.

O desejo do Papa Francisco é que a Igreja se interrogue sobre o modo de anunciar o Evangelho aos jovens, de acompanhá-los e ajudá-los no itinerário da vida cristã. Ao mesmo tempo, provocar as Juventudes para Esperança do verbo esperançar, capaz de gerar Projeto de Vida, levando ao protagonismo eclesial e social.

Deus continua chamando. A iniciativa para convocar continua sendo D’Ele, tanto para vivermos, como para convivermos e sairmos em missão. Diante deste chamado é preciso que continuemos cuidando da VRC para que seja sinal do Reino, bem como animados e animadas para a missão, com a “oração insistente ao Senhor da messe” (cf. Mt 9,38). É preciso continuar falando ao coração da Juventude com a partir do testemunho e com centralidade no Evangelho.

QUESTÕES:

1 – Como foi nosso envolvimento no Sínodo e quais os aspectos que nos marcaram como VRC?

2 – Diante das provocações do Papa Francisco sobre a centralidade do jovem na Igreja e o cuidado com as juventudes, como nossos projetos e propostas congregacionais e provinciais estão contemplando este apelo?

3 – Sabendo que somente cuidando do cuidador, teremos capacidade para cuidar das juventudes, como estamos cuidando de nossas irmãs e irmãos consagrados e de nossas instituições para acompanhar e acolher as juventudes que nos buscam?

 

Sobre o autor
Frei Rubens Nunes da Mota

Rubens Nunes da Mota, irmão leigo consagrado. Nasceu no ano de 1971, em Montalvânia-MG. Filho de Joaquim Nunes da Mota e Flozina C. da Mota Nunes.

Profissão

Psicólogo (terapeuta de família sistêmico)

Cargo que exerce atualmente

Assessor nacional para os temas de psicologia, juventudes e vocação.

Formação

Bacharel em Teologia pelo IFITEG-GO (Instituto de Filosofia e teologia de Goiás); Graduação em Psicologia e pós-graduação/psicologia pela UCG-GO (Universidade Católica de Goiás) e Mestrado/psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB).

Livro Publicado

Juventudes - O exercício de aproximação (Ano: 2011)