Tamanho do Texto:
A+
A-

Os jovens no mundo

Publicado por Frei Mauricio Solfa | 05/06/2018 - 22:52

Em outubro de 2018, celebrar-se-á o Sínodo dos Bispos com o tema: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. Para escrever sobre o tema exposto acima, utilizo-me do documento preparatório para o Sínodo.

O documento preparatório não traça uma análise completa da sociedade e do mundo juvenil, mas apresenta alguns resultados das pesquisas em âmbito social úteis para afrontar o tema do discernimento vocacional.

Existem tendências globais, porém as diferenças entre as diversas áreas do planeta permanecem relevantes. Existe uma pluralidade de mundos juvenis, não apenas um.

As diferenças são em primeiro lugar efeito das dinâmicas demográficas e separa os países com alta natalidade, dos países com baixa natalidade. A segunda diferença deriva da história, que torna diferentes os países e continentes de antiga tradição cristã, dos países e continentes cuja cultura é marcada por outras tradições religiosas e nos quais o cristianismo é uma presença minoritária e frequentemente recente.

Quando o documento fala de jovens, refere-se às pessoas de idade compreendida aproximadamente entre 16 a 29 anos.

 

Um mundo que muda rapidamente

A rapidez dos processos de mudança e de transformação é a figura principal que caracteriza as sociedades e culturas nos tempos atuais. Um contexto de fluidez e incerteza jamais experimentado anteriormente: é um dado de fato para assumir sem julgar. Trata-se de um problema ou de uma oportunidade. Podemos escolher nossa forma de olhar.

O crescimento da incerteza afeta a condição de vulnerabilidade, isto é, a combinação de mal-estar social e dificuldade econômica, e marca as experiências de insegurança de grande parte da população. Surgem alguns fenômenos: desemprego, exploração, aumento do número de refugiados e migrantes, muitos vivem em situação de vulnerabilidade e de insegurança, o que causa impacto sobre seus itinerários de vida e sobre suas escolhas.

Em âmbito global, o mundo contemporâneo é marcado por uma cultura “cientificista”, frequentemente dominada pela técnica. As sociedades são cada vez mais multiculturais e multirreligiosas, isso requer um crescimento na cultura da escuta, do respeito e do diálogo. Precisamos aprender a conviver com o diferente e aprender com ele também. Os jovens também tem algo a nos ensinar.

 

As novas gerações

Com as transformações sociais mudam também os desejos, as necessidades, as sensibilidades e o modo de se relacionar com os outros. Os jovens tendem a ser cada vez mais homogêneos em todas as partes do mundo, mas permanecem características culturais locais que influenciam na formação de sua identidade.

Em muitas partes do mundo, os jovens experimentam condições particularmente duras: jovens em situação de pobreza e exclusão; jovens que crescem sem pais ou família, ou não tem a possibilidade de ir para a escola; jovens de rua de tantas periferias; jovens desempregados, deslocados e migrantes; jovens que são vítimas de exploração. Tráfico, escravidão; jovens e crianças recrutados a força por gangues criminosas; esposas meninas e jovens obrigadas a casar contra sua vontade.

Também existem jovens que cresceram num ambiente familiar saudável. Jovens com forte espiritualidade. Jovens comprometidos com a Igreja, com a vida, com outros jovens e com sua família.

 

Pertença e participação

Os jovens não se vêem como destinatários passivos de programas pastorais ou de escolhas políticas. Eles não se percebem como uma categoria desfavorecida ou um grupo social a ser protegido. Muitos deles desejam ser parte ativa dos processos de mudança do presente. Esta é uma bela característica dos jovens. Não devemos fazer pra eles, mas com eles.

Porém existem jovens desencorajados. Porque existem jovens empreendedores e os desencorajados?  Isso é fruto das oportunidades concretamente oferecidos a cada um dentro do contexto social e familiar em que crescem, bem como das experiências de significado, relação e valor feitas ainda antes do início da juventude.

Os jovens precisam de oportunidade. Isso lhes falto muito.

 

Pontos de referência pessoal e institucional

Várias pesquisas mostram como os jovens sentem a necessidade de figuras de referência próximas credíveis, coerentes e honestas. Buscam figuras capazes de exprimir sintonia, encorajamento e ajuda para reconhecer os limites. O papel dos pais e das famílias permanece crucial. Pais ausentes ou hiperprotetores tornam os filhos mais frágeis e tendem a subestimar os ricos ou a ser obcecados pelo medo de errar.

Os jovens gostariam de uma Igreja mais próxima das pessoas, mais atenta aos problemas sociais, mas não pensam que isso possa acontecer imediatamente.

Os agentes vocacionais podem ser estas figuras de referência credíveis para os jovens.

 

Rumo a uma geração (hiper) conectada

As jovens gerações são hoje caracterizadas com as modernas tecnologias da comunicação e com aquele que é normalmente chamado de “mundo virtual”, mas que tem efeitos muito reais.

 

Os jovens e suas escolhas

No contexto de fluidez e precariedade que delineamos, a transição à vida adulta e construção da identidade exigem sempre mais um percurso “reflexivo”. É preciso reapropriar-se constantemente das próprias escolhas.

A concepção de liberdade entendida como possibilidade de buscar oportunidades sempre novas. Rejeita-se o fato de que construir um percurso pessoal de vida signifique renunciar a percorrer no futuro diferentes estradas: “Hoje escolho isso, amanhã veremos”.

O Papa Francisco disse: “Como podemos despertar a grandeza e a coragem de escolhas de amplo alcance, de impulsos de coração para enfrentar desafios educativos e afetivos? Já repeti muitas vezes: Arrisca! Arrisca! Quem não arrisca não caminha. ‘Mas e se eu errar? ’. Bendito o Senhor. Errará mais se permaneceres parado, parada”.

Os jovens tem dificuldade para fazer escolhas. Isso se deve, em partes: a dificuldade de encontrar trabalho ou a sua  dramática falta; os obstáculos no construir-se uma autonomia econômica; a impossibilidade de estabilizar o próprio percurso profissional. Para as jovens mulheres, esses obstáculos são normalmente ainda mais árduos para superar.

Um bom caminho para os jovens é promover as capacidades pessoais, colocando-as ao serviço de um sólido projeto de crescimento comum. Os jovens apreciam a possibilidade de combinar a ação em projetos concretos, por meio dos quais possam medir a própria capacidade de obter resultados, o exercício de um protagonismo dirigido a melhorar o contexto em que vivem.

É interessante que exatamente os jovens, muitas vezes trancados no estereótipo da passividade e da inexperiência, proponham alternativas que mostram como mundo ou a Igreja poderiam ser. Se na sociedade ou na Igreja queremos fazer acontecer algo de novo, devemos deixar espaço para que pessoas novas possam agir.

 

 

Sobre o autor
Frei Mauricio Solfa

Frei Mauricio Aparecido Solfa, nasceu em Rondon-Pr, em 1977. Formado em filosofia e teologia. Fez o curso de verao sobre Espiritualidade Franciscana oferecido pelo Centro Franciscano de Espiritualidade de Piracicaba-SP. Trabalhou na equipe missionaria dos freis Capuchinhos do Parana e Santa Catarina. Desempenhou a funcao de vigario paroquial na paroquia das Merces-Curitiba. Atualmente e vigario paroquial em Umuarama na paroquia Sao Francisco de Assis.