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4º Texto: Vocação de Jesus e nosso chamado

Publicado por Frei Rubens Nunes da Mota | 04/02/2018 - 00:01

Deus Filho e o segmento que leva ao Reino

A ação de Deus entre nós sempre envolveu pessoas em seu desenvolvimento e concretização. Mesmo não precisando, Deus se fez necessitado da humanidade para fazer acontecer seu projeto entre nós. Foi assim no primeiro/antigo testamento com a ação dos patriarcas, profetas e profetizas e foi assim no segundo/novo testamento com sua ação direta através de Maria, como vimos na lição três.

Perceber como se deu o chamado de Maria e o desenvolvimento de sua resposta torna-se uma grande provocação a fazermos a experiência de Maria, buscando ter um nível de sensibilidade à convocação e abertura para uma resposta comprometedora com esse grande projeto do Reino de Deus. Este Reino é plenamente revelado em Jesus Cristo. É Ele quem nos dá notícia do Pai, sobre como devemos proceder. Por isso vamos ver alguns passos dados por Jesus diante da proposta de Deus Pai neste quarto texto.

Jesus chega até nós e nos interpela

O Padre Alfredo J. Gonçalves, CS, diz que o Mistério da Encarnação aponta para a irrupção de Deus na história. A atitude de Deus, ao se encarnar, vem nos interpelar, sobre nossa história pessoal e coletiva, nos questionando sobre nossa participação nesse processo de Salvação. Desinstala-nos vocacionalmente, ajudando-nos a superar duas tendências muito presentes na condição humana: a inércia e o comodismo que marca nossa paralisação na missão, por um lado, e a agressividade que marca nossos relacionamentos, por outro.

“Deus se faz gente na ‘casa’ de Maria e José de Nazaré. José, esposo de Maria, é homem simples e camponês da Galileia, criado segundo os costumes e as leis da sua religião. Na casa de José, inicia-se com Maria uma nova genealogia que nomeia mulheres que rompem com o poder violento e patriarcal. Na casa de José, não mais só de José, mas também de Maria, é gerado o novo Homem, Jesus, o Filho de Deus. Na casa de José e de Maria, Deus se faz gente” (Pe. Alfredo).

O evento Jesus de Nazaré foi uma graça para José, Maria, os reis magos, pastores e para todos nós. São Francisco de Assis foi o primeiro a construir um presépio vivo. Francisco vê, admira e se deixa cativar pelo amor divino pobre e humilde revelado na gruta de Belém, representado em Greccio, cidade onde edifica o presépio. Apresenta, com o nascimento do Deus menino, a condição da existência humilde, na pobreza da vida de Jesus, no modo de encontro e inserção no mundo humano, no despojar radical na cruz, como símbolo de serviço incondicional de si mesmo na história da salvação.

É com a maneira que Deus escolhe para ser presença no mundo, lugar pobre/presépio, que Francisco e Clara de Assis opta por sua vocação: ele admira e se sente chamado a corresponder sem reservas a Deus que se revela como amor, mas em forma despojada de vestimentas humilde, da pobreza, do despojamento total.

Vocação de Jesus

Vimos, no terceiro texto, a atuação de Maria na vida de Jesus. As leituras que mostram a trajetória percorrida por Jesus indicam que mesmo sendo o Filho de Deus, mesmo enviado pelo Pai, ele teve que ir descobrindo como esse chamado deveria se concretizar, no dia-a-dia, em meio a uma realidade que o interpelava. Maria contribui muito nesta catequese básica que passou pela convivência em casa e na comunidade. O texto bíblico mostra que Jesus foi crescendo não somente fisicamente, mas também na fé (Lc 2,40).

É muito importante, para o nosso processo de discernimento vocacional, perceber que Deus se submete ao caminho natural humano quando se faz um de nós, em Jesus. Perceber que Jesus tinha que aprender e que ia crescendo, nos revela a nossa possibilidade de segui-lo e percorrer o caminho proposto por Ele. Esse caminho não foi rápido, somente aos trinta anos Jesus é batizado (Lc 3,21-22).

No texto número dois refletimos que o batismo marca a vida pública de Jesus no que diz respeito ao anúncio do Reino de Deus. Ao discernir sobre sua missão, Jesus anuncia publicamente seu projeto (Lc 4,14-21) e convida pessoas para ajudá-lo (Lc 5,1-12.10,1-16). Mesmo sendo o Mestre, Jesus não quer ser um missionário isolado, ter méritos sozinho; ao contrário, constitui comunidade, convida pessoas para ajudar na messe e envia sempre de dois em dois.

Inspirado em Jesus, ser Discípulo/a

Como vimos acima, Jesus não quer ser missionário sozinho, mas chama e envolve outras pessoas nesta causa. Ao responder o chamado, Ele chama a outros/as para o discipulado. Ele é o Mestre que se faz servo mostrando aos seus discípulos/as uma maneira nova de servir a Deus e ao próximo/a.

Jesus ensina não somente o jeito de ser servo, mas mostra como fazer aos seus: cuida de cada um, chama e resgata os desviados. Esta é uma inovação para época, pois os rabinos judeus tinham uma forma própria de serem mestres, sendo aqueles que conheciam e ensinavam as leis.
Discípulos os seguiam, literalmente falando. Havia prescrições para este seguimento: o mestre caminhava sempre alguns metros à frente dos discípulos, e sentava-se sempre em local mais elevado que estes, olhando-os de cima. Jesus se põe ao lado, faz caminho com seus discípulos e dá testemunho.

Desafios no seguimento de Jesus

O itinerário apresentado por Jesus primeiro é percorrido por Ele mesmo, não havendo uma falsa promessa, mas um testemunho. Jesus aprende com sua própria história, na comunidade e com as escrituras, é batizado, diz sim à missão, porém tudo isto não impede que Ele sofra com os desafios que aparecem para desviá-lo na missão (Lc 4,1-13). Para aprender com tudo, e vencer os obstáculos, Jesus cultiva sua intimidade com o Pai através do diálogo e da oração (Lc 11,1-4).

Jesus não para diante dos desafios que aparecem, mas aprende, transformando os obstáculos em escola da fé. Jesus mostra esta imagem de aprendizagem na transfiguração diante dos apóstolos Pedro, Tiago e João. “Seu rosto tornou-se brilhante como o sol e suas vestes brancas como a neve” (Mt 17,1-2). Esta é uma imagem tão bela para seus discípulos, que Pedro quer permanecer ali para sempre: “Como é bom estarmos aqui” (Mt 17,4).

Essa imagem transfigurada é fruto de um caminho percorrido, de testemunhos dados e de uma intimidade profunda com o Pai, capaz de transmitir sinais de acerto vocacional para aqueles que seguem o chamado de Deus. Não somente Jesus foi convidado a este feito, mas, também nós. A vida nos mostra que ao sermos transfigurados, no dia-a-dia, diante da realidade que nos convoca ao testemunho, ao mesmo tempo, somos também provocados à traição do projeto, diante de tantas outras propostas que contrariam o chamado.

A partir das vivências de Jesus “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e nós viremos a ele, e faremos nele morada” (Jo 14,23), muitos de seus seguidores deram testemunho sobre a possibilidade de se transfigurar, de transformar os limites em potenciais para a missão. Paulo: “não sou eu quem vivo é Cristo quem vive em mim” (Gl 2,20); Pedro: “somos participantes da natureza divina” (2 Pd 1,4). Os testemunhos dos primeiros vocacionados não podem ser somente admirados e venerados, mas devem inspirar atitudes, em nós, desse tempo que pede resposta. Para isso é preciso não somente observar o itinerário de Jesus e de seus discípulos, mas construirmos nosso próprio itinerário inspirado Neles.

Itinerário vocacional: nosso chamado!

Vimos que Jesus percorreu um caminho e ensinou, a todas as pessoas convidadas, a percorrerem um itinerário conforme o seu testemunho de vida e a história de cada pessoa. Construir um itinerário pressupõe duas realidades: inspiração divina no caminho proposto por Jesus e a história de vida pessoal. A história pessoal, familiar e social deve ser assumida para contribuir como material que dê suporte na edificação e não como peso que impeça a visualização do novo.

Sintonia com nossa história de vida significa novo olhar sobre a vida e os acontecimentos. É um olhar iluminado pelas atitudes de Jesus que vai nos mostrando o caminho, nos revelando; não é apesar de nossos limites que Ele quer contar conosco, mas a partir deles, aprendendo com cada dificuldade e desafio é que vamos crescendo na fé e na missão. Estando de olhos fixos em Jesus conseguiremos essa dupla mirada, nossa história e história da salvação, pois esse olhar implica em estarmos atentos/as à realidade interna e externa, que clama pela experiência de Deus e por nosso testemunho/ação. Estarmos atentos/as a essa realidade é o mesmo que perceber a gênese que concebe o ser ou, utilizando uma analogia, é a base que edifica a construção.

A partir da tomada de consciência da própria história e sobre as questões que contribuíram para essa constituição, será possível iniciar a reflexão sobre o itinerário que leva ao discernimento vocacional e uma possível construção de um projeto de vida. Esse caminho será percorrido através do chamado de Deus, que utiliza de diversas situações do cotidiano, como vimos acima quando falamos sobre o olhar fixo em Jesus.

O chamado vocacional traz presente uma realidade profunda da pessoa, pois tem relação direta com o divino. O chamado é divino e a resposta é humana, manifestando um movimento entre o divino e o humano. Esta resposta humana não diz respeito somente a uma satisfação de um mero desejo pessoal ou de sentir-se realizado/a em determinadas tarefas gratificantes (SAV/CNBB, 2009). Refletir sobre a dimensão vocacional é ir ao encontro dos desejos individuais, que encontram o propósito no sonho de Deus, nossa realização em seu Reino

Questões

1) Sobre a vocação de Jesus, reflita:

A – Jesus, em sua intimidade com o Pai, vai descobrindo sua vocação.
B – Jesus já nasce sabendo que é Deus e resolve todos os problemas com milagres.
C – A convivência na comunidade e a leitura das sagradas escrituras ajudam Jesus em seu discernimento vocacional.

2) Sobre o chamado para o discipulado de Jesus:

A – Ser discípulo/a é imitar Jesus.
B – Discipulado é ensinar o que agente quiser.
C – Ser discípulo/a é fazer experiência de Deus a partir dos ensinamentos de Jesus e dar continuidade à missão.

3) Sobre o itinerário vocacional:

A – Para construir o itinerário vocacional é preciso observar o caminho percorrido por Jesus e a história de vida pessoal.
B – Vocação é ser feliz de qualquer forma.
C – Para compreender o chamado de Deus é importante estar atento/a à palavra de Deus, à realidade familiar, comunitária e social.

 

Referências

Texto: ‘Deus irrompe na história’, Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
Textos Bíblicos: Lc 2,40; Lc 3,21-22; Lc 5,1-12.10,1-16; Lc 4,1-13; Lc 11,1-4; Mc 2,14; 3,13; Mc 10,29; Mt 8, 19-22 10,37; 19, 16-22; Mc 10,39; 12, 9-11; Mt 10, 18-20; Lc 9, 23-24; 14, 27; Mt 10,38; 16,24; Mc 8,34; Mt 19, 22ss;

Sobre o autor
Frei Rubens Nunes da Mota

Rubens Nunes da Mota, irmão leigo consagrado. Nasceu no ano de 1971, em Montalvânia-MG. Filho de Joaquim Nunes da Mota e Flozina C. da Mota Nunes.

Profissão

Psicólogo (terapeuta de família sistêmico)

Cargo que exerce atualmente

Assessor nacional para os temas de psicologia, juventudes e vocação.

Formação

Bacharel em Teologia pelo IFITEG-GO (Instituto de Filosofia e teologia de Goiás); Graduação em Psicologia e pós-graduação/psicologia pela UCG-GO (Universidade Católica de Goiás) e Mestrado/psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB).

Livro Publicado

Juventudes - O exercício de aproximação (Ano: 2011)