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5º Texto: Nossa participação no Projeto

Publicado por Frei Rubens Nunes da Mota | 16/02/2018 - 00:01

O chamado de Deus e o convite para participar de Seu Projeto

Os primeiras textos nos ofereceram um caminho que facilita este quinto texto, pois através da imagem da Trindade já é possível verificar a experiência de Deus e seu Projeto. A partir da comunhão com Deus Trindade fica mais fácil compreender seu projeto do Reino, expresso pelo Pai, no Filho em sintonia com o Espírito Santo. Se a compreensão do chamado Trinitário já está posto no primeiro texto, agora cabe mais um passo antes de continuar o caminho que contribua no discernimento vocacional, que é a compreensão de quem quer percorrer o caminho, parabéns a você que está lendo e participando em nosso site, continue firme.

O chamado de Deus entende pessoas inteiras, integradas consigo e com sua história. Isso não quer dizer que existe uma ordem linear onde ocorre, primeiro a comunhão com Deus e, depois, uma comunhão consigo mesmo. Nem tão pouco entrar em comunhão com Deus se torna um aval automático para estar em comunhão interna. Essa não é uma sequência e nem essa organização quer impor essa ordem, pois há pessoas que precisam ajustar sua história pessoal, para depois conseguir perceber outras realidades e há situações onde esses ajustamentos se dão de forma paralela, ao mesmo tempo. Essa proposta quer dizer que a comunhão com Deus e consigo pode ajudar no discernimento diante do chamado de Deus.

O caminho para entrar em comunhão consigo mesmo, me parece bastante particular, pois tem a ver com a história de vida de cada pessoa. Aqui, creio que cabe, no máximo e com certa ousadia, propor um itinerário para entrar em contato com a própria história, processo facilitado para a proposta dessa etapa. Vou apresentar seis etapas que podem ajudar:

1 – Fazer anamnese, uma memória viva da própria história. Nessa memória devem ser considerados aspectos familiares que dizem respeito à árvore genealógica ;
2 – A própria identidade originária: quem deu o nome, o que motivou esse nome, qual a inspiração para esse nome; qual o significado e origem;
3 – Sobre a cultura onde a família esteve inserida: o que é próprio da região onde nasceu; costumes alimentares; jeito de falar; comidas típicas;
4 – Dimensão religiosa: a forma de rezar/orar; a imagem de Deus que me foi passada na catequese e pela família;
5 – Contexto do sistema: perceber a dimensão política e ideológica da época; questões econômicas (condições financeiras – realidade sócio-econômica);
6 – Dimensão afetiva/sexual: como tomou contato com o corpo (primeiras descobertas sobre a heroicidade); paixões; desejos; relacionamentos.

Comunhão com Deus

Fazer experiência pressupõe união comum entre um desejo e uma iniciativa. Damos o nome a esse duplo movimento de ação vocacional. A iniciativa é de Deus e terá ressonância se encontrar na pessoa chamada um desejo despertado para fazer a experiência. Encontrando resposta, o chamado terá um dinamismo próprio, estabelecendo uma aliança/comunhão de amor com quem chama, (SAV/CNBB, 2009).

Amadeo Cencini diz que existem muitas implicações culturais que podem dificultar a compreensão desse chamado. Cultura, diz Cencini, é compreendida como fruto da interação humana, que tem pontos de encontro, ou seja, a assimilação de valores e costumes. É o que se converte em sistema e tradição, sendo expressão da identidade de um povo. Tem valor subjetivo e objetivo que dão valor à sua vida. Não se dá através de somente repetições, mas deve ser motivacional sempre. É uma prática de vida que, mesmo tendo um método, é vivencial, não sendo somente um dado teórico e comportamental, mas atenção à vida cotidiana.

A cultura vocacional implicará no encontro entre as crenças pessoais e os valores comunitários. O desafio aqui é discernir a respeito das coisas que vamos agregando como valores em nossas vidas. Nem tudo o que existe no contexto social é saudável nem nos ajuda em nosso projeto de vida. Essa assimilação será mais saudável se as crenças pessoais se converterem em patrimônios que servem à comunidade e a sociedade, fazendo do valor subjetivo um dom público, ou ainda, a satisfação pessoal tornará também satisfeitos a outrem.

Para que o discernimento vocacional esteja no caminho correto, do Reino, é preciso observar se há uma devida comunhão com Deus e seu projeto. Esse projeto deve ser compreendido a partir de uma teologia vocacional que parte de Deus, ou seja, reconhece Nele a autoria e o chamado e encontra ressonância no projeto D’ele mesmo. Parte da imagem de Deus como o que chama e ama eternamente para contribuir na sua messe. Os critérios, já vimos nas lições anteriores: justiça, fraternidade, participação…

Vocação como projeto de vida

O termo vocação não fala exatamente de um projeto de vida, de um serviço, mas fala de Deus, de um Deus que chama para manifestar seu amor. Deus não quer empregados, mas está interessado na vida e no desejo de compartilhar seu mistério. Esse mistério que se deixa revelar, não é um enigma frio. É mistério sim, mas revelado na diversidade das vocações, não somente uma, mas na diversidade. Mesmo a salvação e redenção são pilares do mistério que envolve a vocação humana, sendo um convite ao ser humano à participação para amplitude, causa social.

Vocação aqui não é somente para salvação e santidade pessoal, não se reduz unicamente ao âmbito pessoal, mas tem um desdobramento comunitário e social. O vocacionado/a é para encarregar-se pelas demais pessoas, fazer-se veículo que transmite a herança divina, pois esta é a dinâmica do Reino. Foi para isso que Deus fez o ser humano sua imagem, capaz de ser agente de salvação.

Entender que o relacionamento com Deus pertence somente à esfera pessoal, egoísta, sem o aspecto missionário é infantilizar a teologia vocacional e deturpar a comunhão com Deus. A comunhão deve despertar para um chamado que leve a participar da obra da redenção. Esse é o mistério de Deus que vem ao encontro do nosso mistério, é a nossa história, com seus limites e virtudes, que se propõe continuar a história de salvação, o Reinar de Deus.

Questões

1) Sobre o convite de Deus, reflita:

A – Deus convida porque nos ama e quer contar conosco.
B – Deus não admite resposta negativa para seu convite.
C – O convite de Deus pede de nós intimidade com nossa própria história para responder.

2) Em relação à comunhão com Deus:

A – Tenho que dar total importância a meus desejos e satisfazê-los sempre.
B – O que sinto deve estar acima de toda e qualquer decisão.
C – É importante valorizar os sentimentos, porém devemos discernir a partir do critério do Reino de Deus (servir e amar).

3) Sobre vocação como projeto de vida:

A – Vocação é assumir a continuidade da vontade de Deus.
B – A relação com Deus gera Projeto de vida que é compromisso que faz bem para mim e para o próximo, especialmente os mais necessitados/as.
C – Deus quer empregados e por isso nos chama.

 

Referências

Texto: Esquecer para lembrar – Rubem Alves
Textos Bíblicos: At 17,22-34; 1Pd 3,15; Rm 8,14-17.28-30; 1Jo 4,7-10; Gl 4,4-7

Sobre o autor
Frei Rubens Nunes da Mota

Rubens Nunes da Mota, irmão leigo consagrado. Nasceu no ano de 1971, em Montalvânia-MG. Filho de Joaquim Nunes da Mota e Flozina C. da Mota Nunes.

Profissão

Psicólogo (terapeuta de família sistêmico)

Cargo que exerce atualmente

Assessor nacional para os temas de psicologia, juventudes e vocação.

Formação

Bacharel em Teologia pelo IFITEG-GO (Instituto de Filosofia e teologia de Goiás); Graduação em Psicologia e pós-graduação/psicologia pela UCG-GO (Universidade Católica de Goiás) e Mestrado/psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB).

Livro Publicado

Juventudes - O exercício de aproximação (Ano: 2011)