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Ministros Gerais escrevem carta pelos 800 anos de São Boaventura

28/07/2017 - 06h34
Os Ministros Gerais da primeira ordem e da TOR divulgaram uma carta sobre as celebrações dos 800 anos de São Boaventura.

Celebra-se neste ano o oitavo centenário do nascimento de São Boaventura, respeitável protagonista da Família Franciscana. Ele nasceu por volta de 1217 em Civita di Bagnoregio, na Toscana romana, nas proximidades de Orvieto (Itália). Em 1245, já laureado nas artes, entra na Ordem, arrebatado pelas re exões de Alexandre de Hales que, por sua vez, passou da cátedra ao claustro, atraído pela espiritualidade franciscana; em 1255, é mestre de teologia em Paris; em 1257, foi eleito ministro geral; em 1272, é nomeado cardeal da Igreja e bispo de Albano com a tarefa de preparar o Concílio de Lion, durante cuja celebração ele morre, aos 15 de julho de 1274. 

 

CARTA DOS MINISTROS GERAIS

 

Para Boaventura, o homem é o ser dos desejos, dos grandes desejos, dos que envolvem a inteligência e o afeto e que querem descobrir e saborear a beleza das coisas, a harmonia delas que reenvia a outro fora de si mesmo1. Ao mesmo tempo, o homem bonaventuriano dos desejos é o ser que aceita a fadiga do caminho, movido por aquela saudade que o faz intuir a presença de uma resposta de sentido em tudo aquilo que tem diante de si. Ele sabe que dentro de seu mundo, na pluriformidade do seu manifestar-se, emerge e aparece uma única e constante presença, da qual tudo provém e à qual tudo retorna. Em tudo isto, Jesus Cristo representa, para Boaventura, o centro da possível unidade de todas as coisas (cristocentrismo), porque nele tudo teve a sua origem e a sua completude, e, ao mesmo tempo, a partir dele o desejo do homem encontra a direção para encaminhar-se à resposta buscada e esperada.

 

O desejo de descobrir e viver esta unidade entre Deus e o mundo concretizou-se, em Boaventura, em três grandes âmbitos da sua existência cristã: na experiência ascética e mística da busca do rosto de Deus descoberto na humanidade de Cristo (1o), no diálogo cultural com os homens do seu tempo para unir fé e razão (2o) e, nalmente, no seu empenho a favor da Ordem minorítica, para mantê-la um instrumento el a Francisco e a serviço da Igreja.

 

1. Boaventura foi antes de tudo um “homem de Deus” que se tornou “guia espiritual” para os homens. Atestam-no os numerosos escritos espirituais tanto de caráter ascético2, quanto devocional3. Com os primeiros, ele tenta organizar os processos ordenados e graduais, feitos também de dinâmicas espaço-temporais, através das quais aproximar-se progressivamente de Deus. Depois, com os escritos de caráter devocional, ele busca o objetivo de estimular-nos ao amor de Deus, orientando o olhar do afeto sobre a vida de Cristo, contemplando particularmente a humanidade dele. Aqui, como em todos os escritos, o Doutor será co se mostra profundamente enraizado na Palavra de Deus, da qual ele próprio se nutria na leitura assídua e na meditação sobre a Bíblia.

 

Entre os muitos aspectos dignos de nota, um emerge com mais força: na vida espiritual, o amor de Deus não pode ser pura emocionalidade e instintividade afetiva, mas precisa de formas e de itinerários conscientes que disponham a alma à maravilha. Sem um processo ordenado de caráter ascético, o espírito humano di cilmente poderá criar aquela quietude e tranquilidade que lhe permita escutar, ver, saborear, adorar e tocar o mistério de Deus. Não se trata, para Boaventura, de “conquistar” a Deus, mas de “deixar-se encontrar”, dispondo-se à surpresa imponderável do encontro com Ele.

 

Além disso, Boaventura recorda à nossa vida de “religiosos” um segundo elemento: o mundo, tanto ontem como hoje, tem necessidade de “mestres do espírito”, homens e mulheres capazes de ajudar os outros com o seu testemunho de vida, no processo da experiência de Deus. Esta proposta de “formação espiritual”, porém, deve ser o fruto de uma verdadeira e profunda experiência pessoal, para dar àqueles itinerantes espirituais um sabor nitidamente franciscano. Sim, o mundo tem necessidade de contemplativos que sejam capazes de anunciar a alegria do evangelho e a beleza de viver o carisma franciscano em fraternidade. A nossa tradição espiritual, feita de lugares e de grandes guras de santidade e de doutrina, tem uma riqueza, à qual o mundo de hoje atribui uma autêntica e cácia devido a um itinerário de efetivo crescimento espiritual.

 

2. Boaventura foi também um mestre universitário. O desejo de Deus, como fonte de estupor e de afeto espiritual, encontrou nele um prolongamento direto no diálogo apaixonado com a cultura de seu tempo4. A sua aula magistral é animada por uma dupla verdade: o homem é feito para chegar à sabedoria de Deus, isto é, ao gosto saboroso dEle; mas este ponto de chegada somente é possível através do instrumento da inteligência, caminho para a verdade sapiencial. No contexto do mundo universitário da metade do século XIII, impunha-se, de fato, a difícil questão de como conciliar loso a e teologia, razão e fé, inteligência e afeto, conhecimento e amor5. O perigo era o de considerar paralelos os dois momentos cognocitivos, com o grave risco de alcançar uma dupla verdade, a losó ca e a teológica, uma estranha à outra ou uma em con ito com a outra. A solução bonaventuriana passa através de dois grandes núcleos de pensamento: o homem é um itinerante que se encaminha progressivamente em direção ao Uno, ao Verdadeiro e ao Bem – é o mistério trinitário que resplandece em todas as coisas – e é também acompanhado pela própria verdade de Cristo, doutor interior que ilumina a cada homem que vem ao mundo. Então, Boaventura não anatematiza as novidades losó cas legadas por Aristóteles, mas tenta integrá-las no interno de um único e progressivo caminho que a mente, movida pelo desejo do coração e sustentada pela inteligência, empreende para Deus. Um princípio fundamental, que Boaventura recorda aos seus contemporâneos, é o seguinte: a inteligência é caminho para a sabedoria, mas, se se fecha em si mesma, cai infalivelmente no erro.

 

A nós, franciscanos do século XXI, imersos em um mundo dominado por um saber cientí co-técnico tão amplo e poderoso quanto aparentemente indiferente a um Além e a um Outro, o santo de Bagnoregio propõe duas estratégias fundamentais. Pede-nos, antes de tudo, para assumirmos uma atitude de verdadeiro e apaixonado diálogo, com um olhar positivo e de grande estima nos confrontos das capacidades humanas, reconhecendo nelas manifestações seguras da beleza que Deus imprimiu na criação e no homem. Cada atitude de contraposição e de anatematização do mundo e das suas capacidades cientí cas e técnicas, com as suas exigências de conhecimento e de desenvolvimento, não pertence à visão de Boaventura: em toda a realidade aparece o mistério de Deus uno e trino, porque em cada coisa há uma pegada da sua presença, e o homem tem a capacidade de descobrir o sentido e de dizer a beleza dela.

 

Ao mesmo tempo, no entanto, ele convida a desenvolver nos confrontos deste mundo um serviço de abertura ao transcendente, recordando aos homens de hoje duas importantes e encorajantes verdades. Antes de tudo, em cada processo cognoscitivo da realidade, o homem é constantemente encaminhado a uma verdade mais profunda, àquela verdade que recompõe numa unidade os fragmentos, espalhados aqui e ali, e reenvia a uma plenitude e completude que supera o intelecto e pede o afeto. Um fechamento a tal horizonte in nito condenaria o homem a uma ciência e técnica sem alma e sem esperança. Além disso, em cada esforço em direção à unidade, à verdade e ao bem é vivo e operante o mistério trinitário do amor divino. Com a certeza da fé, é preciso anunciar que em cada processo a favor de um mundo melhor e mais humano está agindo o mistério redentor de Cristo, que se doou sem reservas a cada homem em todos os tempos.

 

3. Boaventura, nalmente, assumiu a responsabilidade da Ordem – foi eleito em 1257 como ministro geral para car no cargo até à morte(1274).Istorevelaagrandeestimaqueos irmãos tinham para com ele, considerado dom irrenunciável para a vida da Ordem em um período de rápida e prodigiosa difusão.

Ele quis, antes de tudo, ajudar os irmãos a reencontrarem a sua ligação ideal com Francisco para poderem viver com mais delidade a sua escolha religiosa. Tratava-se de reproduzir aqueles ideais deixados em herança pelo Santo de Assis, para que fossem motivo de crescimento espiritual e de comunhão, não de con ito e de desordem. A pobreza, a humildade, a delidade aos compromissos cotidianos, a vida de oração e fraterna, além de um estilo simples e modesto de vida, constituíam as exigências oferecidas a uma Ordem que estava correndo o risco de perder-se por causa do prestígio e do poder cobrados pelos irmãos no interior da Igreja e da sociedade. Neste sentido, importantíssima foi a nova redação da vida de Francisco da parte de Boaventura: sem este modelo de beleza, no qual resplende o amor místico de Deus e o empenho generoso pelo mundo na comunhão com Cristo pobre, os frades teriam levado com muita di culdade uma autêntica vida minorítica.

 

Além de cuidar da qualidade da vida interna da família franciscana, ele se preocupou em dispor os frades a colocar-se a serviço das necessidades culturais e pastorais da cristandade, organizando e sustentando rigorosos percursos de estudo. Tratava-se de continuar aquela escolha assumida por Francisco também em resposta às exigências de reforma proclamadas em 1215 pelo Concílio de Latrão IV. Boaventura sentia a urgência de convocar os frades a estarem a serviço da Igreja universal, colocando à disposição preparação cultural e pastoral, sem fazer disto motivo de vanglória ou de concorrência com as igrejas locais. Livres de mecanismos de rivalidade e do desejo de poder, os frades deviam tornar-se uma palavra boa e luminosa, caracterizada pela humildade e pela competência, em linha com as expectativas e as exigências do Evangelho.

 

Boaventura, portanto, convida-nos a realizar duas grandes escolhas. Antes de tudo, exorta-nos a despertarmo-nos e a defendermos a ligação com um ideal de vida evangélica que tem em Francisco um modelo único. Isto nos permite sermos frades abertos às exigências deste mundo, capazes de levar uma palavra caracterizada pela simplicidade, pela alegria e pela minoridade, pela fraternidade e profecia. Além disso, a nossa presença dentro da Igreja deve ser animada pela inteligência teológica, preparação pastoral e empenho apostólico. Em suma, ele nos recorda que, para sermos sal e luz da terra, com um sabor propriamente “franciscano”, é necessário sermos anunciadores não somente credíveis pelo estilo de vida, mas também “competentes” no modo de propor a palavra que salva.

 

Se queremos ser ainda os frades do povo, homens que levam pelas estradas do mundo uma boa notícia, Boaventura nos recorda que três são os elementos irrenunciáveis da nossa vida franciscana: uma relação constante e credível com o mistério do amor de Deus; uma vida fraterna na qual resplenda uma humanidade reconciliada e marcada pela paz; nalmente, uma preparação cultural séria que nos permita dialogar, com competência e e cácia, com o nosso mundo. E em tudo isto não se trata de refazer uma grande Ordem, mas talvez de aceitar com humildade a nossa atual pobreza de números e de presenças e, assim, ajudados por um renovado olhar sobre Francisco, voltar a ser simples e verdadeiramente “frades menores”. É daqui que é preciso partir de novo para recolocar-nos a caminho com paixão, inteligência e generosidade, no desejo de fazer ressoar aquela boa palavra evangélica realizada por Francisco e reproposta por Boaventura, uma palavra capaz, através de nossas obras e de nossos discursos, de tocar a mente e o coração do mundo contemporâneo, sedento de esperança e desejoso de olhar Além para encontrar o Outro.

 

CONCLUSÃO

 

Uma gura metafórica muito presente nos textos de Boaventura é a do círculo, utilizada para indicar a índole do movimento que existe Deus e o homem. A relação entre esses, mais do que vertical, é de caráter circular, onde tanto Deus como o homem são animados por uma convergente busca de um em direção ao outro: dois peregrinos ligados pelo mesmo desejo de comunhão. Ao homem que se coloca em caminho responde a solicitude dAquele que se fez peregrino para encontrá-lo lá onde ele está. O último ato da itinerância intelectiva e afetiva não será “com- preender” para dominar, mas ser compreendido, abraçado por Aquele que, só por amor, está entre nós, deixando-se encontrar em cada esforço nosso a favor da unidade, da verdade e da bondade. Esta é a mensagem urgente e incisiva que Boaventura nos convida a assimilar e a transmitir, sinal da nossa presença nesta difícil época de rápidas mudanças. Que São Boaventura nos ajude a “desdobrar as asas” da esperança que nos impulsiona a ser, como ele, incessantes buscadores de Deus, cantores das belezas da criação e testemunhas daquele amor e daquela beleza que “tudo move”.

 

1 “De fato, a alma não é contemplativa sem um desejo vivo. Portanto, o desejo dispõe a alma a acolher a iluminação” (Collationes in Hexaëmeron 22, 29).

2 Recordamos aqui entre os principais textos: A tríplice via, O Solilóquio, A perfeição da vida escrita para as irmãs, O Governo da alma, Tratado de preparação para a missa.

3 A árvore da vida; As cinco Festas do Menino Jesus; O Ofício da Paixão e a Videira mística.

4 Além do monumental Comentário às Sentenças, recordamos somente alguns opúsculos teológicos: A Redução das artes à Teologia; O Itinerário da mente para Deus; Os sete dons do Espírito Santo; Collationes in Hexaëmeron.

5 “Portanto, exorto o leitor, antes de tudo, ao gemido da oração a Cristo cruci cado, e isto para que não creia que lhe baste a leitura sem a unção, a especulação sem a devoção, a pesquisa sem a admiração, a consideração sem a exultação, a atividade sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humildade, o estudo sem a graça divina, o espelho sem a sabedoria divinamente inspirada” (Itinerarium mentis in Deum, prol. 4).

6 “O santo franciscano [Boaventura] ensina-nos que cada criatura traz em si uma estrutura propriamente trinitária, tão real que poderia ser espontaneamente contemplada, se o olhar do ser humano não fosse limitado, obscuro e frágil. Deste modo, ele nos indica o desa o de tentar ler a realidade em chave trinitária” (Laudato si’ 239).

7 Constituições de Narbona, Legenda Maior e Legenda Menor de Francisco, Apologia dos pobres.

8 “Nisto consiste o estudo do sábio: que o nosso estudo se dirija unicamente a Deus, que é o totalmente desejável” (Collationes in Hexaëmeron 19, 27). 

 

OS TRÊS MINISTROS GERAIS DA PRIMEIRA ORDEM E DA TOR ​​​​​​​

Roma, 14 de julho de 2017
Vigília da Festa de São Boaventura 

Fonte: Capuchinhos do Brasil /CCB

Por Paulo Henrique (Assessoria de Comunicação e Imprensa, São Paulo - SP)

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