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A Pedra do Baú #2

Publicado por Paulo Henrique | 19/07/2016 - 17:01

Acervo do Arquivo Provincial

Quem nos acompanha através de nossas páginas sociais, sabe que está sendo publicado uma série de textos de Frei Mauro Strabelli sobre as primeiras férias que os Frades Capuchinhos de São Paulo puderam participar. Vamos acompanhar agora o segundo texto deste engraçado e nostálgico relato.

Se você perdeu o primeiro texto, não tem problema, basta clicar aqui.

Os primeiros dias

Dia 28 de dezembro, quinta feira.

Depois de 6 horas de viagem, mais ou menos agradável, chegamos a Campos do Jordão, como foi dito. O dia estava bonito. Foi grande a algazarra para o pessoal se acomodar. Os novatos vistoriavam a casa, tomando conhecimento: beliches e mais beliches! Banheiros? Um só na casa; outro,feinho,lá fora... Ave, Maria!

Frei Ângelo, que já conhecia a casa e a vila, chamou frei Mauro e frei Rogério e indicando o campo de futebol, ali pertinho, convidou-os para “um quebra canela”, dizendo que a molecada da vila sempre estava por lá. Dava prá fazer dois timinhos!

Depois de todos acomodados (no maior aperto!), frei Adolfo, frei Frederico e frei Silvestre saíram para um giro pela redondeza a procurar por uma lagoinha que existia por ali. Gostam de nadar. Queriam refrescar a personalidade prá começar as férias!

Por outro lado, o Padre Diretor frei Acácio convocou o freiOscar e o “seu” Bepinho e foram a Abernéssia,encomendar leite e pão e conhecer a vila. Na saída da casa, encontraram frei Mauro e o seqüestraram para ir junto; deram-lhe um garrafão vazio,para na volta trazê-lo pesado,cheio de leite! (Exploração de novatos!!)

À noitinha caíram as primeiras chuvas. Mas a temperatura era amena. Lá pelas 9 horas da noite fomos à casa do “seu”Amadeu, vizinho e amigo. Fomos acompanhar a transmissão, por rádio, do jogo entre Palmeiras e Fortaleza, pela Copa do Brasil. (Para nós que não podíamos ter rádio e nem ouvir rádio, foi um grande acontecimento, uma grande novidade!). O Palmeiras venceu por8 a 2.

Depois do jogo voltamos para casa. Fomos dormir. Cansados pela viagem e “grandes emoções”! Aí começou a confusão para se ajustarem nos beliches. Os gordos não queriam dormir na parte de cima porque tinha escadinha prá subir e o lugar era perigoso porque de lá se caía facilmente! Por fim, todos ajustados. Mas o ajuste provocou momentos de comédia, pois quando os gordos “pegaram no sono, começaram a roncar forte e chiado!Frei Benigno, gordo, e frei Venceslau, pareciam dois tratores a óleo cru. Roncavam mudando marchas, forte, fracas, altas, baixas... Frei Adolfo, começou a rir alto e fazerpequenos protestos: “Ei, barrigudão, breca esse trator, pô!” – dizia ele ao frei Benigno (gordinho).. Um outro protestava: “Ô, gente, têm uns aí que  não controlam o escapamento! Todo mundo acordado ria alto esperando a situação melhorar. Enfim, todo mundo dormiu.

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Dia 29 de dezembro, sexta feira.

Após as orações e o café da manhã, fui com Frei Ciro e Frei Ângelo ao Mercado.O padre-mestre mandou-me ir também - para aprender o caminho, disse. Acho que depois vão me largar sozinho,sei não!! Fizemos compras para a casa. Voltamos de carona, num carro de um turista santista legal! Não encontramos quase ninguém em casa.Na verdade só encontramos frei Benigno, que por sinal estava sentado ao lado do telefone da casa, torcendo para o próprio tocar... Atender telefone éconsiderado, entre nós,uma tarefa nobre e moderna....O padre-diretor,com um grupinho, foi nadarnuma lagoa um tanto distante. Os demais se haviam espalhado pela cidade e por pontos turísticos.

Um pouco mais tarde apareceram frei Rogério, frei Ângelo e frei Jorge. Para não ficarmos inativos, fomos jogar futebol; era o primeiro racha – como dizíamos. Havia já um grupinho de garotos e alguns jovens no campo, batendo bola.. Chegamos e formamos dois timinhos: oito para cada lado. A tarde estava agradável; uma garoa friazinha e macia molhava aquela tarde. Dia propício para jogar um futebolzinho. Jogamos de hábito (= batina)!!! Vejam só! Admiração geral. Já que não tirávamos o hábito para nada, a não ser para tomar banho ou nadar! Nosso primeiro jogo foi vencido (9 X 5)pelo timinho dos freis:frei Ângelo, bom goleiro; frei Jorge, umponta direita que (apesar do hábito)corria de tal modo que ultrapassava a linha de fundo; e frei Mauro que fez uns golzinhos. Se o hábito impedia os freis atacantes de correrem mais, pelo menos ajudava o nosso goleiro, que não tomava gol pelo meio das pernas (como muitos goleiros...).

Lá pelas 6 da tarde começou chover. Chuva mansa que foi evoluindo, aumentando e virou quase tempestade. A chuva batendo no telhado, trovões, relâmpagos e friozinho convidavam o pessoal para um bom sono. A maior parte dos estudantes foi para os lençóis e passou a roncar em plena tarde. Quando cessou a chuva, devagar o pessoal foi acordando, levantando-se dos beliches.Foi quando apareceu o Seu Amadeu, o vizinho;trouxe uma garrafa de cachaça “para os freisesquentarem o frio”, dizia ele (frio que não existia!) . O pessoal tomou uns goles para animar o truco, que começou logo em seguida. Um grupinho foi dar uma volta pela Vila Jaguaribe.

Dia 30 de dezembro, sábado

Manhã agradável. Fomos à capela do Bairro. Muito simples, bonita, limpinha. Rezamos o breviário. Café da manhã com protestos de frei Jorge português porque a manteiga nunca chegava ao seu lugar na mesa.

Às 9:30h Frei Leônidas, franciscano, veio nos visitar. Conversou com os freis por muito tempo, pois alguns freis especularam muitas coisas. Outros, que não estavam lá se importando muito com discussão sobre franciscanismo, começaram a ficar inquietos porque já tinham programado passeio turístico para aquela manhã. Conseguiram sair do grupo e foram nadar, uns; outrosforam jogar futebol - no momento, coisas mais importantes que discutir franciscanismo!

Depois do almoço o tempo fechou novamente, mas não chovia.Frei Jorge, frei Mauro e frei Silvestreresolveramvisitar o “Palácio do Governo”, que está sendo construído. Projetado para ser residência do governo de São Paulo no verão. Dizem que será muito rico, com salas para concertos, capela, museu e outras coisas.Começou a ser construído em 1938 por Adhemar de Barros, informaram-nos. Agora (1960) as obras estão paradas.O palácio fica no Alto da Boa Vista. Fomos até ele a pé. Levamos quase duas horas caminhando. Podia ser menos tempo, pois nosso cicerone ou guia, Frei Jorge português, errou o caminho.Mas valeu a pena a caminhada. O palácio é muito grande; parte da estrutura está feita.Não temos idéia como será aquilo..O lugar é encantador. Realmente um Alto da Boa Vista. O panorama é do mais belos; muitos vales, muitos montes. Casinhas brancas,distantes pontilhavam as encostas dos montes; pinheirinhos (especialidade de Campos do Jordão), coroam os cumes dos montes numa disposição simétrica que encanta.

Pouco depois de havermos alcançado o palácio, caiu vigorosa, mas passageira chuva. Permanecemos alojado sob lajes da construção, apreciando a chuva que caía nos vales e montes. Meia hora depois, passando a chuva, uma fria garoa tentava gazear os montes. Começamos bater em retirada, com frio e fome. Mas nada poderíamos comprar, porque não podemos ter dinheiro. Além do mais, se tivéssemos dinheiro, denadavaleria pois estávamos numa floresta, sem alma viva porali. Chegamos à nossa casa às4:30hda tarde

À noite, perto das 19 horas, fomos à Capela da Vila para rezar Vésperas e Completas. Depois do jantar foi aberta sessão de jogos: truco, douradão, charadas, palavras cruzadas. Às 20:15 da noite rezamos o terço em casa e nos recolhemos às 22:30h. Sem barulho algum!

Depois de um dia agitado o sono veio logo. Quanto roncar! quantos roncadores!! Frei Benigno roncava, fungava, assobiava; parava, dava vigorosa arrancada e seguia em frente. Frei Adolfo não agüentou e gritou lá de cima do seu beliche: “Pára Benigno... “Pelamor” de Deus... Parece gambá laçado!”Frei Silvestre e outros dois não agüentaram também. Saíram do quarto e foram dormir na sala, no chão. No quarto vizinho havia só um roncador, mas vigoroso e muito conhecido: o frei Ciro.Segundo os cronistas que dormiam por lá, o problema do Ciro é quealém de roncar ele deixava o escapamento aberto.!!! Um ronco fatal! Expulsou vários moradores.

Dia 31 de dezembro, domingo

Fim de ano.O dia amanheceu muito bonito, claro e convidativo para passeios. Saimos, Frei Tomé, eu e frei Frederico para subir o “Morro dos Elefantes”. Subimos o morro comendo figos. Fomos devagar. Alcançamos o topo. O morro está 1.800 ms. acima do nível do mar, como dizem aqui.Lugar rústico, mas muito interessante porque do topo desse morro podem ser vistas as vilas Capivari, Abernessia e entornos, além das diversas montanhas que se perdem no horizonte. Uma visão panorâmica inesquecível. Encontramos lá em cima vários turistas: brasileiros, alemães e ingleses. Depois de descansar um pouco começamos a descida pela encosta muito inclinada e acidentada. (E revestidos do “santo hábito, cordão e barba..”!!!). Na volta encontramos o Padre Diretor frei Acácio com os freis Silvestre,Adolfo e Tomás, que voltavam da Usina onde foram nadar – se não me engano.. Chegamos á casa, tomamos banho, tomamos uns goles de cachaça com o pessoal e fomos almoçar. Como o tempo esfriou um pouco, todo mundo – cansado dos morros – foi deitar-se..[Aconteceu:Frei Benigno, o gordinho, foi censuradopor alguns freis porque dera comida aos cachorros numa das travessas em que era servido o arroz na mesa! Repreendido, respondeu tranquilamente: “Tenha a santa paciência! Não sei por quê! Lavando bem não tem nada, não! Afinal, eles são nossos irmãos, como ensinou S. Francisco!]

Pelas 3 horas da tarde, descansados, fomos jogar futebol. Jogamos por duas horas, junto com garotos e jovens da Vila. Saímos do campo debaixo de uma chuvavigorosa e fria.

Às 7 horas da noite reunimo-nos na Igreja da Vila paraum momento de oraçãode Ação de Graças pelo anode 1960 que terminava. Houve Exposição e Bênção do Santíssimocom osolene canto do TE DEUM em gregoriano.

Voltamos para casaàs 8 e meia da noite. Depois do jantar festivo fomos à casa do Seu Amadeu, nosso vizinho, para assistir TV e ouvir músicas (coisas que não temos no Convento!). Ele abriu umas garrafas de vinho e de cerveja e serviu petiscos (que também nem conhecíamos no Convento). Às 23 horas a TV Cultura exibiu um documentário: “Tele-Horror”. Às 23:30as câmeras da TV passaram a transmitir a chamada “Monumental Corrida de São Silvestre”. Foi empolgante. Neste ano participavam 1.500 corredores Era a XXXVI Corrida. O argentino Osvaldo Suarez levantou o tricampeonato.

Após a Corrida e encerramento do ano, demo-nos parabéns, cumprimentos, abraços pelo Ano Novo de 1961 que começava. Fomos deitarlá pela 1 hora da madrugada.

Frei Rogério, depois de deitar,lembrou-se de saudar o Ano novo cantando o refrão de uma música italiana – que não sabemos onde achou: “IO, SONO IO, PROPRIO IO...”E ficou nessa arenga aí bom tempo, para em seguida, dar conselhos a todo mundo para não ficar de 2.ª época em hebraico com o Frei Daniel ... o “Fona”.

Sobre o autor
Frei Mauro Strabeli

Sacerdote franciscano, paulista, professor de linguas bíblicas, latim, grego, hebraico e Antigo Testamento.

Frei Mauro leciona na Faculdade de Filosofia e Teologia (FAJOPA) na cidade de Marília há 26 anos.