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Correr para saudar

Publicado por Frei João Carlos Romanini | 10/01/2017 - 11:35

“A criança que fomos no ontem era mais simples, desconhecia eletrônicos, não tinha grandes exigências. O coração conhecia a leveza advinda da bondade e da gratidão”

 

Enquanto recordava que esta seria a última crônica de 2016, pois teremos o tradicional intervalo das edições, veio em mente algo muito simples: na infância a atenção não incluía o término do ano, mas o começo do novo ano. O amanhecer do primeiro dia não alterava apenas um algarismo, mas abria espaço para a tradicional saudação acompanhada da mãozinha estendida.  Levantávamos mais cedo do que o normal e nos dirigíamos às casas dos vizinhos. O ritual era conhecido: dizíamos ‘feliz ano novo’ e, ao mesmo tempo, aguardávamos algumas moedas. Cada qual corria no intuito de chegar antes e, assim, saudar por primeiro e ser agraciado com uma simples, mas simbólica doação.

O contentamento era tão grande, ao ponto de deixar em segundo plano o valor arrecadado. Afinal, um coração de criança sempre encontra motivos para alegrar-se. Não há necessidade de volume, nem de aparência, muito menos de preço. A criança que fomos no ontem era mais simples, desconhecia eletrônicos, não tinha grandes exigências. O coração conhecia a leveza advinda da bondade e da gratidão. Fico pensando: que maravilhoso era correr para desejar ‘feliz ano novo’, mesmo que, em seguida, a mão era estendida aguardando um singelo abono. O contentamento não suponha grandes motivos, nada era mensurado a partir da quantidade arrecadada.

Os tempos mudaram. A vida experimenta outros sabores e também alguns dissabores. Para alegrar uma criança, nem sempre é fácil. Sem contar que nada mais surpreende. Tudo é conhecido, através de redes e meios que criam necessidades à infância. Quantas dúvidas quando se trata de presentear alguns pequenos. Por outro lado, a grande maioria já não sabe a importância de desejar ‘feliz ano novo’. Alguns costumes assinalados pela simplicidade não deveriam ficar no esquecimento. Não se trata unicamente de recuperar o passado, mas de conservar aquela alegria que unia gerações e que valorizava os pequenos gestos.

Bom, o ano está terminando. Os balancetes permitem diferentes análises. O olhar econômico é fonte de frustração. Foi um ano bem difícil. A recuperação desconhece a rapidez. Por outro lado, foi um tempo de muito aprendizado. É necessário reinventar até mesmo o jeito de viver, revendo determinados costumes. Talvez não seja aconselhável estender a mãozinha, por causa da crise. Porém, ninguém está dispensado de saudar e abraçar com um efusivo ‘Feliz 2017’. 

  

Sobre o autor
Frei Jaime Bettega

 Frei Jaime tem formação em Filosofia, Teologia, Administração de Empresas, Pós Graduação em Gestão de Pessoas e Mestrado em Administração, com enfoque na Espiritualidade nas Organizações. Professor de Ética Organizacional do curso de Administração de Empresas da UCS.,  Coordenador da Legião Franciscana de Assistência aos Necessitados (Lefan) e é o fundador do Projeto Mão Amiga, que auxilia crianças carentes.
Apresentação do programa, na rádio São Francisco SAT (560 AM)e Articuladro do Jornal Correio Riograndense e colunista no Pioneiro.