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“♫♪ QUE TIRO FOI ESSE? ♪♫...” CONTRA NOSSA DIGNIDADE HUMANA

Publicado por Frei Adriano Borges de Lima | 20/02/2018 - 09:52

     Lamentavelmente preciso começar este texto fazendo um triste anúncio: foi assassinado neste exato momento mais uma pessoa em algum rincão desta nossa pátria amada, Brasil! Até o fim da sua leitura talvez mais alguns outros. Todos nossos irmãos e irmãs. Em 2016 foram quase sete por hora, e também naquela época o maior índice estava no estado do Rio de Janeiro. Na verdade, quem „viu, ouviu e desceu‟ até a realidade das últimas semanas percebeu que este cenário não mudou, e não somente na cidade maravilhosa, que continua maravilhosa, pois tem um povo abençoado por natureza, mas em todo Brasil. O fato é que aqui acontecem mais homicídios do que em diversas das guerras recentes, e isso é uma triste realidade.

     Seja a violência direta, estrutural ou cultural, a morte parece ser o grau máximo e o mais alcançado ultimamente. Tira-se a vida do outro por muito pouco. Sejam adulto, criança, homem ou mulher, a morte nunca esteve tão próxima de nós. Seus propulsores e motivadores nunca foram tão falados, nos noticiários, nas músicas, na arte: intolerância, tiroteios, corrupção, marginalização, desigualdade, entre outros. Tudo isto ronda nossas conversas, fazem parte de nosso vocabulário diário, nos deixam indignados, e em muitos casos tem atingido diretamente nosso corpo, tirando nossa essência vital, a própria dignidade humana. Tem-se tirado a nossa vida e as das pessoas que amamos.
     Dignidade humana? Todos, repito, todos nós temos essa característica única que é a dignidade humana, e esta se manifesta e se consolida na vida que a cada um é concedida por Deus. Quando se tira, mesmo que a vida de somente um, fragmenta-se na verdade a dignidade de todos. Todos somos atingidos. Talvez isso explique porque sentimos indignação, mal estar, tristeza quando sabemos que mais um filho de Deus teve a vida ceifada, sobretudo, quando de forma violenta. Toda violência, seja ela qual for e contra quem for, ferre a todos nós, porque ferre nossa dignidade humana. Lembremos, somos todos irmãos.

     “Que tiro foi esse?”... Calma! Foi “só” mais um em meio a centenas de centenas que diariamente ouvimos, sentimos, choramos. “Que tiro foi esse?”... é uma das músicas mais ouvidas no momento. Música que nossos jovens têm escutado, fazendo dela sua expressão e modo de ser no mundo. E talvez, também nós. Será este um sinal de que a violência está tornando-se cultural? Algo cotidiano e normal? Algo do tipo: não dá mais para mudar isso! O negócio é se acostumar, e levar na boa, até fazendo piada se possível. Será isto?
     Para esta conversa trago também alguns relatos bíblicos, e começo com o da criação, presente no livro do Gênesis. Ali o autor deixa transparecer o amor e o cuidado de Deus ao dizer: “e Deus viu que tudo era bom... Ele criou o ser humano sua imagem e semelhança... e Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom” (cf. Gn 1, 1-31). Essas palavras ecoam no relato do gênesis humano, e o transbordamento se dá na certeza que somos imagem e semelhança de um Deus amor e cuidado. Portanto, evidencia-se que em nós existe uma relação de amor e cuidado que constituem o que somos, pois fomos criados por um Deus amor; criados sua imagem e semelhança. Então, herdeiros dessa essência, correto? Eís nossa dignidade humana.
     Deus é amor, portanto, minha vocação é o amor. Deus é Trindade, minha vocação é a fraternidade. Deus é cuidado, a minha vocação é o serviço-cuidado. Deus nos criou a todos, então todos somos irmãos. Eís nossa dignidade humana. E essa é uma verdade que pode libertar. Busquemos compreender o que isso significa, muito mais com a prática, do que somente pelas teorias.
     Mas continuemos! A Campanha da Fraternidade (CF) deste ano, preocupada com a construção da fraternidade e superação da violência, frisa que no princípio não há divisão, violência, mortes. A violência vem depois, no esquecimento das origens. No esquecer a nossa grande dignidade humana.
Diz o texto-base da CF no nº 152:
No principio, no eclodir, no dar-se, no manifestar-se, não existia divisão, desamor, violência, mas acolhimento, reverência, pertença fraterna. A violência vem depois. Nasce do esquecimento das origens, da vocação do ser humano: o amor.

Daquele relato das origens a Bíblia continua a História da Salvação, descrevendo no livro do Êxodo o início da libertação que Deus realizou na vida do povo Hebreu, escravizado, marginalizado, assassinado na alma e muitas vezes também no corpo. Não sei se concordarão, mas condição por vezes tão parecida com a atual. Mas, o que solta aos olhos mesmo é o trecho que diz: “Eu vi... eu ouvi... eu desci” (cf. Ex 3, 7-12). E é sempre essa a atitude de Deus em relação a nós seus filhos e filhas.

     “Eu vi”. Para Deus ninguém é invisível. Ele vê o sofrimento do seu povo, e não lhe é indiferente. Ele vê nossa realidade, e somos chamados a ver a realidade com os olhos de Deus. E temos feito isto? Pensemos, pois não olhar com os olhos de Deus é perigoso. Essa atitude alimentada pode facilmente nos levar ao pessimismo, a falta de esperança, e a pior das consequências, a indiferença. E esta última sempre está relacionada ao próximo, que é o meu irmão, lembre-se. Olhar sempre com os olhos de Deus, que é amor e esperança. Sempre!
     “Eu ouvi”. Deus não é surdo aos nossos clamores. Não foi com o povo Hebreu, não é conosco, pois Ele é o mesmo ontem, hoje e sempre (cf. Hb 13, 8). Então pensemos bem se estamos de fato clamando aos céus por algo. E o mais importante, pelo que clamamos? Como clamamos? Junto de quem clamamos?
     “Eu desci”. E Ele desceu verdadeiramente e fez morada no meio de nós (cf. Jo 1, 14). O Deus amor, fraterno, cuidado, viu, ouviu e desceu mais uma vez, Ele mesmo para o meio de nós. Nós acreditamos em sua presença? Ele mesmo disse: “e eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mt 28, 20). Estamos sendo sua presença no meio do povo? E todo cristão é chamado a ser presença de Deus, o que explica sermos chamados cristãos (Alter Christus – outro Cristo).
     Em continuidade a este relato bíblico lemos que para dar unidade, colocando os alicerces que podem manter a libertação que o povo recebeu, o próprio Deus conduziu Moisés e transmitiu por ele o Decálogo, depois que o povo liberto estava da escravidão. Este com sua estrutura concêntrica transmitiu ao povo o que é essencial. Essencialidade que está no centro do decálogo, na descrição do mandamento: “Não Matarás”.
     Não matar, porque a dignidade humana é o centro fonte e ápice da vida. No centro de tudo a defesa da vida. Jesus mesmo retoma essa centralidade da Lei quando no Sermão da Montanha inicia dizendo: “Ouviste o que foi dito aos antigos: “Não Matarás” (Mt 5, 21). 

Êxodo 20, 2-17: Eu sou YHWH, teu Deus, que te fiz sair do Egito, da casa da escravidão.

Por isso:

(1) Não terás outros deuses

(2) Não pronunciarás em vão o nome de YHWH

(3) Lembra-te do sábado...

(4) Honra teu pai e tua mãe pra que tua vida se prolongue na terra

(5) NÃO MATARÁS

(6) Não cometerás adultério

(7) Não roubarás

(8) Não levantarás falso contra (o nome do) teu próximo

(9 e 10) Não cobiçarás a casa do teu próximo

    
     Não matar é sinal de respeito que preserva a vida na esfera das relações humanas: conjugais/parentais (4º e 6º mandamentos); e de trabalho (3º e 7º). Respeito que preserva a vida também na esfera das relações de justiça (2º e 8º). E por fim, na esfera das relações religiosas e econômicas (1º e 9º-10º). Todos emanam e se direcionam ao centro: “Não Matarás”.

     Não matar e não permitir matar as relações entre si, por meio da propagação de uma cultura de morte, da fofoca, da traição, etc. Não matar e não permitir matar os direitos adquiridos dos trabalhadores. Não matar e não permitir matar a honra e dignidade das pessoas, simplesmente pelo machismo que ferre as mulheres, pelo tráfico de pessoas, o abuso de menores, etc. Não matar e permitir matar os sonhos e, sobretudo, a esperança do povo.

     Deus é vida e quer que tenhamos vida e vida em abundância (cf. Jo 10 10), e esta é para todos. Lembremos mais uma vez Jesus dizendo aos seus discípulos: “E vós sois todos irmãos” (Mt. 23, 8). Este é o lema da CF 2018. Portanto, enquanto tivermos a simples atitude de optarmos por „sambarmos na cara das inimigas‟, de eliminarmos nossos „big brothers‟, nos calarmos diante das injustiças, entre tantas outras, nunca estaremos refazendo os verdadeiros alicerces da paz, ou seja, o amor, o cuidado, o respeito, a fraternidade, a justiça, entre tantos outros. Sem a consciente luta pela dignidade seremos na verdade meros retransmissores da violência que no fim mata, inclusive lentamente a nós mesmos.

     Cultivar a esperança, lançar sementes de vida, compreender que o próximo é um irmão, e não um adversário. Quem sabe assim estaremos iniciando um verdadeiro caminho de volta as origens. Onde um dizer “que tiro foi esse” não será mais necessário, não terá sentido, simplesmente não será acolhido. Pois, em tudo, nos noticiários, na música ou na arte a dignidade humana será preservada. A vida estará em primeiro lugar, e tudo que ferre a vida não será mais adequado e aceito.

Sobre o autor
Frei Adriano Borges de Lima

Frade Capuchinho, Capixaba, da cidade de Viana - ES. Frei Adriano pertence a Província Nossa Senhora dos Anjos, Rio de janeiro e Espírito Santo. É graduado em filosofia e atualmente estuda teologia no Instituto Teológico Franciscano em Petrópolis - RJ, reside na fraternidade Nossa Senhora Aparecida no Bairro Quitandinha, Petrópolis - RJ.