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Homilia da Solenidade da Assunção da Imaculada Conceição / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 20/08/2017 - 16:58

O que será de mim? Qual minha última meta? O que será do meu corpo e da minha alma? E o meu eu e minha pessoa? Pois, então..... a solenidade da Assunção quer tratar dessas questões.

O pecado e a morte entraram na vida dos homens e mulheres: “... por um só homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado, a morte...” (Rm 5, 12). Houve uma promessa: adescendência da “mulher” esmagaria a cabeça da “serpente”, a morte e o pecado seriam vencidos: “Cristo ressuscitou dos mortos, primícias dos que morreram” ( lCor 15,20).

“Porei inimizade entre ti (serpente) e a mulher, entre a tua descendência e a descendência da mulher. E Ela (a descendência da mulher) te atingirá a cabeça. E tu lhe atingirás o calcanhar” (Gn 3, 15).

Não se pode separar a “descendência”, Jesus Cristo, da mulher, a mãe da nova descendência, a geradora de Jesus. Com a ressurreição, a promessa se cumpriu, Jesus venceu a morte e o pecado, passou a ter um corpo glorioso. Com a ressurreição de Jesus, Maria é assunta, glorificada no seu corpo virginal. De fato, o dogma da Assunção declara: “... a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial". Em “corpo e alma”: com tal definição a fé da Igreja quer afirmar que a salvação é total, não é só da alma de Maria, mas da sua pessoa. Em “corpo e alma” seremos, também, ressuscitados: não perderei minha identidade, minha corporeidade. Corpo somático? Certamente não. Mas corpo glorioso (cf. 1Cor 15, 54).

Um pouco de teologia

- A carta aos Efésioas atesta que há, sim, “uma igreja esplêndida, sem mancha, nem ruga, nem defeito algum, santa e irrepreensível” (Ef 5, 27), “Uma mulher revestida de sol” (Ap 12, 1).    Não é verdade que todos os humanos resistem à “graça”, pois existe um “resto que diz sim à graça” (Rm 11, 6). Não se trata só de uma maneira de falar ou de algo genérico (uma “igreja”, um “resto”), mas também de um rosto, de algo que acontece em uma pessoa, uma criatura: em Maria de Nazaré. Por isso Nossa Senhora, que é apresentada como verdadeira discípula, como bendita porque acreditou, como mulher vestida de sol (de Deus), como igreja irrepreensível, como quem diz sempre “sim” à graça, é proclamada “Assunta” nos Céus. Ela, criatura de Deus, conseguiu: assim podemos nós também conseguir, afinal todos nós somos chamados à assunção em Deus.

Alguém pode dizer: “Jesus Cristo, o jovem Galileu, viveu conosco, ressuscitou, mas era Deus. Nós, não! Somos meras criaturas, não respondemos completamente à Vontade do Senhor”. Diante disso é que a festa da Assunção vem nos provocar: “Olha...veja Maria, criatura também ela, e, no entanto, chegou lá”. Não esqueçamos, portanto, do nosso amanhã, da nossa meta final. Não esqueçamos que somos chamados à mesma “coisa” que aconteceu com Maria e acontece com a Igreja: somos chamados à assunção, pois “... com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus em Jesus Cristo”(Ef 2, 6).

- Pela Encarnação, pela vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, a vida do Eterno já se faz acontecer em todo discípulos do Senhor. De fato, “... vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Col 3, 3). E não só temos uma “vida escondida com Cristo”, mas também já somos assumidos pelo céu: “... com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus em Jesus Cristo”(Ef 2, 6). Participamos de sua ressurreição e ascensão junto ao trono de Deus. A festa da Assunção nos anima no sentido de revelar que isso já aconteceu plenamente em Maria, afinal, o Verbo, Deus mesmo, se fez carne na carne de Maria: carne na carne. O Verbo, Deus como ação e presença assumiu a carne de Maria. Podemos imaginar que é para sempre tal união. A carne de Maria habitada pelo Verbo, por Deus, está gloriosa no Céu: “... a imaculada Mãe de Deus, a sempre virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial” (Assim o dogma define).

 

Motivo de festa.

No Evangelho de Lucas, Maria profetiza: “Todas as gerações me chamarão de bem-aventurada”, isto é, me chamarão de feliz, salva, redenta (Lc 1, 48). Na festa da Assunção de Maria somos chamados a cumprir essa profecia evangélica: A Virgem Maria foi salva, redenta, assunta em corpo e alma nos céus. E assim o fazendo estamos chamando-a de bem-aventurada (que teve um bom fim). Nesta festa celebramos o poder salvador do nosso Deus e a reconhecer que Maria chegou lá, alcançou a felicidade, o estado de “beata”, de salvação definitiva. “... com Ele nos ressuscitou e nos fez sentar nos céus em Jesus Cristo”(Ef 2, 6).

- Maria fala, João salta, louva, bendiz, presta culto (cf. Lucas 6, 23; 2Sm 6, 16). João dançou diante de Maria e Jesus. Davi dançou diante da Arca da aliança. A Arca significa proximidade de Deus. Maria grávida significa mais do que proximidade de Deus: Deus mesmo, não próximo, não perto, mas em nós, conosco, habitando em nós, não só próximo a nós. Se a fé bíblica do Antigo Testamento jubila diante da Arca que trazia os escritos sagrados, quanto mais devemos dançar diante daquela que traz, não escritos sagrados, mas o próprio Deus entre nós. Só quando entendemos isso, podemos compreender também o culto mariano. O culto mariano é a ação de se deixar tomar pelo encanto da alegria de que existe, indestrutível, o verdadeiro Israel que não resiste ao Senhor: “Eis aqui a escrava do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra”. O culto mariano é o lançar-se bem aventurado no jubilo de engrandecer o Senhor (Magnificat) e com isso é louvor d´Aquele de quem a Filha de Sião é devedora, pois Ele fez nela “maravilhas”. O culto mariano é louvor d´Aquele que ela traz dentro de si, como a verdadeira, incorruptível e indestrutível Arca da aliança.

 

 Celebrar a Assunção de Maria é trazer luz a este mundo, proclamar a potência de Cristo que pode nos ressuscitar. A festa da Assunção é profecia: o que já aconteceu com Maria irá acontecer conosco. Fala do nosso destino glorioso, do destino da criação.

A festa de hoje nos interpela a crer que Dio tem projetos grandiosos para cada um de nós.

Há também os que se acomodam em não esperar mais nada da vida, nem no pós-morte. Há os que imaginam que no pós-morte será só uma energia ou “sei-lá-o-quê”. Não! O ser humano, na festa da Assunção, é chamado a olhar para o destino glorioso de alguém que não perde o seu nome, a sua identidade, não reencarna, mas ressuscita, preserva o seu belo corpo, seu nome, sua vida.

A festa da Assunção pede que olhemos para o depois da história e consideremos a beleza que seremos quando a glória nos revestir. Nossa Senhora assunta ao Céu, isto é, revestida da vida de Deus, aparece bela e o belo eleva o homem e o torna capaz de vencer os engodos dos “bens-fetiches”(“bens-fetiches”, isto é, substitutos compensatórios. Tais “bens” podem frear a expansão da pessoa. Aqui temos os apegos ao cargo, à pessoas, à coisas e objetos, etc.). O belo penetra o homem - libertando-o de seu egoísmo -, e o leva a se render amorosamente, deliciosamente, como num êxtase. E, assim, o homem sai de si mesmo, de sua mesquinhez e se entrega à grandeza e plenitude, como um filho que readquire seu pai, encontrando-o no Absoluto. Contemplando as maravilhas de Deus (e Maria assunta é uma delas), o homem torna-se bom. Importa se atraído pela Beleza e passar a apreciar e saborear as coisas simples da vida: o louvar a Deus será consequência. Demos graças a Deus porque a sua Igreja, na festa de hoje, nos oferece tais delícias da fé.

Sem esta paisagem do nosso amanhã glorioso, todos nós passaremos a olhar só esta terra, e olhando só esta terra nos tornaremos pessoas apagadas, por demais intoxicados,entorpecidos e indiferentes em um horizonte por demais limitado de nossa contemporaneidade. Sem olharmos para o alto, para a “Assunta”, esta terra se torna arena de violência, de luta entre os humanos, acima de tudo. Sem o horizonte da beleza somos apagados. E sem o horizonte da beleza, resta-nos sugar: sugamos a natureza, sugamos álcool, sugamos drogas, o outro se torna uma coisa, eu mesmo perco meu rosto, passamos a nos aproveitar do outro, etc. A violência de toda ordem que campeia nosso mundo não é por acaso!

A festa de hoje combate o desprezo de si, a baixa-estima. A festa da Assunção fala do corpo de Maria, do corpo humano, do meu corpo, do nosso corpo. A vida humana nesta terra não pode ser só passagem. Não queremos perder nosso corpo! No meu corpo eu encontro as pessoas, eu construo minha vida, me alimento, durmo, acordo, corro, adoeço, brinco, morro. O meu corpo é a minha vida. Não posso perder meu corpo: com ele aprendi a sentir necessidade do outro. Qual o destino desse corpo que não é só passagem e que pede descanso, repouso, encontro, abraço? Vestir-se de sol: “Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol”. E, assim, vestido de sol, de Deus, o corpo da Virgem Maria brilha, se comunica. E o meu corpo brilhará, se expressará: será glorificado. E eu brilharei, me expressarei: serei glorificado.

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.