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Homilia do I Domingo do Advento / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 03/12/2017 - 10:14

I Domingo do Advento

Marcos 13, 33-37.

"Ficai de sobreaviso, vigiai; porque não sabeis quando será o tempo. 34.Será como um homem que, partindo em viagem, deixa a sua casa e delega sua autoridade aos seus servos, indicando o trabalho de cada um, e manda ao porteiro que vigie. 35.Vigiai, pois, visto que não sabeis quando o senhor da casa voltará, se à tardinha, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela alvorecer, 36.para que, vindo de repente, não vos encontre dormindo. 37.O que vos digo, digo a todos: vigiai! " 

- Existe a noite, a escuridão do mundo marcado pela violência, agressão, pela exploração e abusos, pela injustiça e desumanidades, pelas incertezas acerca do amanha e pela falta de amor, pelas guerras e miséria de inteiras populações, pela incoerência daqueles que deveriam dar o exemplo, pelo abandono dos jovens das nossas comunidades. Existe a tentação da mera resignação, do cruzar os braços e não mais esperar, restando fechar os olhos e dormir. Existe o convite: “Ficai de sobreaviso, vigiai, elevai os olhos, pois a Luz vem, o Senhor vem!”. Autoridade e serviço recebemos do Senhor: não durmamos, não sejamos negligentes.

- Qual será a nossa noite? Elenquemos possíveis noites: ódio, ressentimentos, rancor, remorsos, vida dupla, desilusão amorosa, decepção,  raiva, vingança, solidão, ostracismo, baixa estima, falta de sentido na vida, devassidão, bebedeiras, orgias, sofrimento, depressão, agitação, vícios..... Que o sono não nos deixe em tais noites. Autoridade e serviço recebemos do Senhor: não durmamos, não sejamos negligentes.

- A “boa notícia” é que o Senhor vem durante a noite. Importa não se render ao sono, mas manter a esperança de que a Luz vence as trevas. E se mantém a esperança de olhos abertos, dialogando e interagindo com os apelos divinos que diariamente se apresentam à nós. O Senhor vem sempre para iluminar nossas noites.

- “... não sabeis quando será o tempo”, isto é, não percamos a oportunidade quando o tempo de Deus se faz presente, pois o tempo de Deus sempre carrega consigo nossa felicidade.

- Vigiar significa olhos atentos e capacidade de interagir, aderir e acatar os apelos que a Vida, Deus, nos faz. Vigiar é ser responsável, responder às exigências de nossa missão de pai, de mãe, de religioso, de cidadão, de cristão membro de uma comunidade, de uma Igreja. Autoridade e serviço recebemos do Senhor: não durmamos, não sejamos negligentes.

- O Senhor delega uma tarefa a cada um de nós, seus servos, que possuímos o mesmo pensamento do “Dono” da casa. Desta maneira Ele se faz presente. Afinal, Ele disse que estaria conosco quando estivermos unidos (“... e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” – Mt 28, 20). Somos também “porteiros” (“... e manda ao porteiro que vigie”): que a nossa consciência seja bem formada, não deformada pela devassidão e pela moral e pensamentos desse mundo. Que o “porteiro”, a nossa consciência, não deixe entrar em nossa casa o relativismo que confunde o bem com o mal, que troca a verdade pela mentira, a honestidade pelos mesquinhos interesses. “Muitos” querem adentrar em nossa casa, passar pelo “porteiro” (consciência), prometendo paz, felicidade, alegria. Tantos tentam usurpar a “casa’ de Deus, a nossa vida, reinar sobre nossas vidas, mas só deixam um rastro de sofrimento e morte. Por isso o forte convite: “Vigiai” e cuidado para não trair o nosso projeto, que o mesmo  do “Dono”.

- "Ficai de sobreaviso, atenciosos, vigiai”. Dormimos e sonhamos com um mundo de sonhos. O despertador toca, e acordamos para a realidade. Por vezes levamos a vida como vivendo em um mundo de sonhos. A realidade insiste em dizer o contrario, e nós insistimos em viver no mundo de sonhos: castelos de areia, casas sem fundamentos, futuro sem presente. Tantos fatos da vida nos incitam a “acordar”: fatos alegres, fatos tristes, fatos de sofrimento. A primeira decepção da vida. Um perdão concedido. Qualquer reprovação ou insucesso. O primeiro emprego. A juventude que passa. Os filhos que crescem. A idade que chega. Os netos que nascem. Amizades desfeitas. Reconciliação perdida. Pecados cometidos. Fé renovada. Em tudo isso o Senhor vem, nos convidando a responder com aquela fé de que é possível, sim, viver como irmãos que tem o mesmo Pai.

O PERIGO mora ao lado e durmo sempre ao lado dele. O PERIGO maior é dormir eternamente ao lado dele. "Ficai de sobreaviso, atenciosos, vigiai”. Mantenha-se em aspiração, expectativa, jamais paralisado diante de um prazer deste mundo, mas em prazer de aspiração, que nunca se esgota, sem ressaca e sem saturação. Prazer que convida a se levantar, ofertar, amar.

Disse o Diabo: “... manda que estas pedras se tornem em pães. ... Toda esta glória te darei ...” (Mt 4). O vigilante recusa tal oferta, mas o dorminhoco se esbalda em pães e glórias.  Como vou saber se com as coisas e comigo estou no torpor, dormindo ou cochilando? Quando o meu centro pessoal ficará enlameado e fincado no ciúme, na inveja, na difamação, na intriga, no ressentimento, na vingança, etc.

Entre dormir ou vigiar: “... fazei-vos servos uns dos outros pela caridade ...  Mas, se vos mordeis e vos devorais, vede que não acabeis por vos destruirdes uns aos outros. Ora, as obras da carne são estas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, superstição, inimizades, brigas, ciúmes, ódio, ambição, discórdias, partidos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas semelhantes. ... Ao contrário, o fruto do Espírito é caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura, temperança. Não sejamos ávidos da vanglória. Nada de provocações, nada de invejas entre nós (Gal. 5, 13-26). Dormir ou vigiar: “Não podeis servir a dois senhores....”. Já o Apocalipse fala de frio ou quente, pois o morno será vomitado.

E se vivo sem vigilância, preguiçosamente dormindo? Certamente morrerei sem vigilância, preguiçosamente dormindo! Eu sou as escolhas que fiz e serei as escolhas faço agora. Vivendo, o ser humano vai se fixando devido a sua própria vontade. Fixando-se no bem? Fixando-se no mal? No dia da minha morte estarei fixado em....?   Fixado com...?

Tinha a águia que pensava ser galinha. Estava em torpor, embasbacada. Veio um vento forte e ela na reação ao vento descobriu ser águia. Saiu do torpor, do sono. Só um vendaval, uma procela instaurada pode desfazer o torpor, a fim de que um torpor se desmanche e um embasbacado acorde.

Muitas são as Palavras de Jesus para se sair do torpor. Escolhemos uma: “Vereis o céu aberto ....”; e preferimos outra: “Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas”. Ora, Jesus “ressuscitou” Lázaro, um morto. Fazer algo mais do que isso?!  São Paulo nos ensina que é possível se sair do torpor: sendo escravos uns dos outros, isto é, amando (cf. Gálatas, 5, 13ss)

Espiritualidade do Advento

- Estamos iniciando o tempo do advento. Algo vem ao teu encontro, está vindo e vai te encontrar, queiras tu ou não: isto significa “ad-ventus”. No entanto para que o encontro seja pleno, precisa de tua escolha, adesão: “Eis que estou à porta e bato.......”

- A Vida, Deus, quer nos dar um presente; nos está enviando algo. Acolhemos? – Um dia um amigo me disse: Amanhã passo na tua casa às 16.30". "Sim, ok”, lhe disse. Fico te esperando. Somente que no dia seguinte fui visitar uma pessoa: ele veio, mas não me encontrou. Não nos encontramos”.

- Advento nos prepara ao Natal. Natal quer dizer que Ele vem. E eu estarei?

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.