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Homilia do Natal do Senhor / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 23/12/2017 - 23:03

Natal do Senhor

Lucas 2, 1-7

- "Naqueles tempos apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. ... 3.Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade. 4.Também José subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, 5.para se alistar com a sua esposa Maria, que estava grávida. 6.Estando eles ali, completaram-se os dias dela. 7.E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria”.

Natal e o viver de cada dia: uma chamada ao presente momento. O nosso cotidiano, dia-a-dia, cheio de planos, de tarefas domésticas, preocupações e ocupações, encontros e surpresas, ida ao emprego, um descanso, uma leitura, uma visita, momento de oração, cuidado com os filhos, com o cônjuge, celebrar o nascimento, celebrar o falecimento. Nada é em vão, pois o Verbo se fez carne e habita entre nós em meio às faces e rostos que encontramos. O “Natal” nos faz um tremendo convite: crer e experimentar que o dia-a-dia e o simples da vida escondem uma Grandeza Maior, uma Maravilha: Deus se dá no cotidiano e nas coisas da vida e do viver. As religiões, filosofias e ideologias tendem a convidar o homem para um “além” deslocado do cotidiano da vida. O Cristianismo, não! Desde o “Natal”, desde o dia no qual o Verbo eterno de Deus se fez carne no ventre da Virgem Maria, a fé cristã nos exorta a encontrar o “todo” no “fragmento”, a Maravilha da vida nos gestos, atitudes e pessoas do cotidiano. Um dia perguntei a uma senhora como ela expressava o amor dela para com seus filhos. Ela respondeu-me: “Quando estou passando as roupas deles”. Quem já viu uma mãe, após o parto, recebendo sua criança pela primeira vez nos braços pode muito bem imaginar o que seja o “eterno” que acontece num momento e em pequenos gestos. O Verbo se fez carne e habitou entre nós para que os momentos de cada dia não sejam meros acontecimentos, mas eventos nos quais amorosamente o Sentido maior acontece.

“... achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura” (v. 12). A potência salvadora, a alegria do homem veio ficar entre nós. É tão gratificante ao humano buscar perdão e salvação junto a um Deus que se faz indefeso, criança: Jesus, alegria dos homens. Somente “Aquele” envolto em faixas e posto numa manjedoura nos pode salvar.  O poder divino sem humildade só nos esmaga, nos anula e amedronta. O Poder divino em humildade nos solicita, nos convida a ir até Ele para instaurar uma nova relação entre Deus e os homens. Relação esta marcada pelo amor, acima de tudo.

Manias de grandeza. Os homens criam deuses. Daniel 2, 31 (estátua imensa, esplendorosa e terrível) narra como tendemos a criar uma divindade, um poder. Fazer valer, vencer, ser vitorioso, vencedor significa ser grande tremendo e fascinante. Anseia-se por ser maior que todos e, assim, alargar o espaço de domínio, geralmente invadindo, anulando, sufocando. Não é por acaso que vemos tanta opressão, tanta agressividade e tanta violência nos lares, grupos, igrejas, cidades.... Manias de grandeza sempre geram um poder de morte. “César Augusto (ordenou) o recenseamento de toda a terra. ... Todos iam alistar-se, cada um na sua cidade” (1-3): “César Augusto” é a vontade de ter todas as pessoas em suas próprias mãos.

- A nossa fé católica revela e traz para este mundo uma verdade jamais imaginada pelas religiões, filosofias e ideologias deste mundo. A grandeza de Deus é se apresentar pequeno, envolto em faixas, posto numa manjedoura. Como um bebê deixar-se abraçar por qualquer um, põe-se nas mãos de qualquer um, e não como César Augusto que procurava ter nas mãos cada um. Celebrar o Natal é eficazmente contra-atacar a soberba nefasta existente dentro do coração do homem que se exalta e se incha e se explode como aquela rã que queria ser um boi. Deus, se fazendo pequeno, é como aquela ponta de alfinete que alfineta o balão cheio do mal. Celebrar o Natal é celebrar a vitória do Deus humilde. Vejamos.....

1 - A salvação acontece em nossa história, enquanto tecemos nossa vida. Enquanto os “César Augusto” da vida prescrevem recenseamentos com intuito de dominarem sobre todos e a todos terem nas próprias mãos, pois assim se sentem reis e donos dos demais, Deus prescreve outra coisa, se diz Rei amando, no alto de uma cruz (“Este é o rei dos judeus”). Uns se sentem reis porque têm nas mãos os pescoços alheios, já o Senhor é Rei porque serve e se oferta a todos.

2 - E enquanto acontece o recenseamento do mal (a marca do triunfo da dominação que tem o nome de cada um em seu caderno), acontece também a salvação. Não esperemos somente as coisas melhorarem para experimentar a salvação. Afinal, não é quando está escurecendo que começa imediatamente a raiar o dia, mas o raiar do dia, a luz, vem quando a máxima escuridão deixa sua marca. Quando a escuridão mostra seu maior poder, fiquemos certos de que seu fim está próximo, o alvorecer se aproxima.

3 - A ironia de Deus. Através do recenseamento o império do mal tinha cada pessoa em suas mãos. Obrigou José e Maria irem até Belém. E, desta maneira, se cumpriu a promessa que Deus havia feito a Davi em Miqueis 5, 2 (“... Belém ... embora pequena demais para figurar entre os milhares de Judá, sairá de ti para mim aquele que será o governante sobre todo Israel”). A ironia é que o mal, mesmo não querendo, se presta aos desígnios de Deus, até aos detalhes (Belém era só uma cidadezinha desconsiderada).

Maria e José, nos evangelhos, são mostrados como pessoas que ouviam a Palavra, obedeciam ao Senhor. No meio deste mundo tão conturbado, manter-se ouvinte e praticante da Palavra é a saída para que o mal seja derrotado em nossas vidas e que nada nos tire dos desígnios de Deus. Apesar do mal e da tribulação, sendo ouvinte e praticante da Palavra, tudo dará certo: “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8). Lembremos-nos de José do Egito: tantas maquinações para destruí-lo terminarão por levá-lo ao Egito, longe do seu pai e da sua terra. Triunfo do mal? Não! Será no Egito que ele salvará seu povo e família da fome.

- “Estando eles ali, completaram-se os dias dela (Maria). E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria” (6-7). Tais versículos nos fazem lembrar o sepultamento de Jesus, quando foi enfaixado, coberto com panos; e nos lembram também da última ceia quando se fez alimento por nós: ali estava bem à disposição, reclinado, quase deitado. A relação entre o nascimento, a cruz e a ultima ceia é forte: ao nascer Jesus foi colocado na manjedoura onde comem os animais (“O Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores”); na ultima ceia se faz alimentos para discípulos pecadores e traidores; na cruz onde foi tambem foi colocado, tal como na manjedoura, entrega corpo e alma que alimentam nossa salvação.

- “.... porque não havia lugar para eles na hospedaria”. Um lugar para repouso do Menino Deus. Onde Deus repousa, em qual lugar? Onde é o seu templo?

Não havendo lugar para ele na hospedaria, encontra repouso na manjedoura, lugar onde os animais comem (Será entregue nas mãos dos pecadores que se comportam como ferozes animais). Não esqueçamos que pensando na última ceia Jesus disse: “.... na sala de cima encontrareis um lugar onde cearemos”. Naquele lugar Jesus repousará enquanto dirá: “Tomai todos e comei, isto sou eu, minha carne entregue por vós, me faço alimento para vós”. No lugar Calvário também encontrará repouso salvando, perdoando: “Pai, perdoa-lhes....”. Deus, finalmente, alcança o seu repouso, o seu sétimo dia, depois de sua fadiga em procurar o homem que dele se afastou. E não descansa enquanto não o encontra. O templo do Senhor, seu lugar (repouso) é fazer-se alimento para o homem. Por isso se diz que a glória de Deus é o homem vivo.

O Natal e a Virgem. Maria dar à luz. Com o seu “sim” colabora com a obra de Deus, favorece o aparecimento de Deus ao mundo. Maria teve o Verbo eterno em suas mãos. Fez experiência de Deus encarnado, humanado. Que eu possa também encontrar o Sentido da vida pondo as mãos na realidade, neste mundo, nesta vida e nas coisas da vida. Depois da vinda do Senhor na carne não tem outro caminho: o caminho para encontrá-Lo passa sempre pelo encontro com o outro, com sua história de vida. Alguém diz que se amar é sempre não se reservar, mas uma entregar-se ao outro, então nosso Deus tinha que se deixar “pegar” pelas mãos: “... E deu à luz seu filho ... envolvendo-o em faixas...” (v. 7). Deixando-se pagar pelas mãos revela que o íntimo de Deus quer, sim, fazer aliança conosco, quer precisar de nós, pois nos ama e quer nossa amizade.

- Quem sou eu? Se sou imagem e semelhança dEle, então por que nos negamos? Por que nos reservamos dizendo “não” ao amor? Por que não passamos a ir ao encontro dEle? “Tive fome, tive sede, tive frio, fui peregrino, estive doente .....”. 

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.