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Homilia do XVII Domingo do Tempo Comum - ano A - Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 29/07/2017 - 16:08

XVII Dom Comum

Mateus 13, 44-52

“Por você eu dançaria tango no teto. Eu limparia os trilhos do metrô. Eu iria a pé do Rio a Salvador.  Eu aceitaria a vida como ela é. ... Eu tomaria banho gelado no inverno. .... Eu mudaria até o meu nome. Eu viveria em greve de fome. ... Por você... Por você” (Frejat).

O Tesouro, a Pérola é o próprio Jesus, o Cristo Senhor! Não há maior felicidade, maior força, maior segurança do que se vê amado incondicionalmente por alguém; ainda mais quando esse alguém é o próprio Deus. Aqui está o tesouro buscado, a pérola preciosa tão sonhada: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a pela fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gal 2, 20).

Com o Espírito de Jesus – nosso Tesouro e Pérola - podemos dizer: “Não há maior alegria do que dá a vida por seus amigos”. Essa é a verdadeira alegria do Reino: quem encontrou o Tesouro, a Pérola, entrou no turbilhão do amor de Deus, que é a alegria e a sabedoria da Cruz, e entende que fazer-se serviço é ter encontrado o Tesouro.

As coisas da vida nos levam até ao Tesouro e à Pérola

Quando dois jovens se apaixonam, por exemplo, fazem tantas promessas de acudimento recíproco, fazem juras de amor, juras de sacrifícios; e também começam a sentir coisas belas em seus corações, tais como maior respeito, paz, harmonia e até mesmo mais amor a Deus e à própria vida que parece cheia de sentido. Mas.... aos poucos pode acontecer de caírem na busca do mero prazer egoísta que um pode buscar no outro. E, assim, perdem aquelas coisas belas sentidas no coração. O “Reino” é encontrar um tesouro e não negociar tal tesouro. O nosso viver, nossos encontros e desencontros, nos despertam, nos acordam, nos convidam, nos solicitam.... Sigamos o seu cheiro, suas pegadas: É o Reino nos abrindo as portas. E quando adentramos em tal Reino, permaneçamos nele, sejamos-lhe fiel.

Não é verdade que quando se descobre o Reino o resto se torna resto no sentido negativo. Só os fanáticos e obssessivos agem assim. A gravidade é não descobrir o Reino. Sem o Reino as coisas da vida, as pessoas, a própria vida e o próprio sujeito perdem o brilho, o interesse, o sentido. Não é por acaso tantos casos depressivos e outros casos de desprezo com a vida.

Não se pode dizer tudo do Reino, pois o Reino é o próprio Senhor Deus. No entanto, no Evangelho de hoje o Reino aparece como “tesouro”, como “pérola”, algo valoroso, algo de beleza. Imagine você quanta alegria e contentamento uma pessoa sente ao encontrar o tesouro da sua vida! Naquele dia terá encontrado a si mesma, feito as pazes consigo: o seu livro foi aberto, e ela leu até o fim, não pulou nenhuma página, pois todas foram viradas sem receio e medo. Imagine você quanta alegria e contentamento uma pessoa sente ao encontrar a pérola da sua vida! Naquele dia terá encontrado o amor da sua vida, feito as pazes com a humanidade, com todos os outros, tendo deixado mágoas e ressentimentos, tendo aceitado o amor de tantos, e passando a amar a todos.

O Reino também pode ser visto como ternura ou cuidado. Ternura como desejo “com-passivo” que é sempre capaz de sentir e comungar com o outro, com as coisas, que não se detém no gozo de seu próprio impulso, mas descansa no outro com carinho e amor. A ternura tem suas exigências: exigi dar atenção ao outro, estar atento à sua situação, mostrar solicitude. A ternura e cuidado implicam descentralização de si e concentração nos outros, e isto não é sentimentalismo: as pessoas são sentidas nelas mesmas.  A ternura e o cuidado fazem com que, na pessoa que encontrou o Reino, a vida ganhe mais sentido, encanto e significado quando sacrifica o tempo, o empenho e a própria vida. 

- Uma vez uns estrangeiros chegaram em certa região do planeta e viram os nativos jogando com pedrinhas que brilhavam. Eram diamantes e não sabiam. Moral da história: o Tesouro está ao nosso alcance.... mas....                  Por isso, importa procurar pelo Tesouro. Uma boa maneira de procurá-lo é fazer boas perguntas, levantar boas questões: “Por que e para que me levantei hoje?” “O que ando procurando pelas estradas da vida?” “Em quais lugares e com quais pessoas ando procurando?”

 44. "O Reino dos céus é também semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontra, mas o esconde de novo. E, cheio de alegria, vai, vende tudo o que tem para comprar aquele campo.

Cheio de alegria ou cheio por causa da alegria. De qualquer maneira, uma alegria que preenche. A alegria provoca no homem da parábola algumas ações: esconde o tesouro, vende os seus bens e compra o terreno onde se encontra o tesouro. O Reino dos Céus não é algo estranho ao coração humano, pois é alegria, e alegria é o que todos procuramos. Podemos até dizer até que o Reino é algo instintivo, natural ao humano. Aqui não há esforço, renúncias, mas um se deixar levar pela atração de uma alegria tremenda. É verdade que ele vende, deixa seus bens, mas, não esqueçamos, faz isso sem lamentações, sem titubeios, pois é levado pela alegria encontrada. Qual é o noivo que amando sua noiva vai ao altar se lamentando por não estar casando com outra, por ter deixado de casar com outra?

O que é alegria do Reino? É o próprio Deus reinando em nós, gerando contentamento e um dar e receber, uma entrega. Com a alegria do Reino usufruímos de uma “alegria” que se localiza também naquilo e naquela coisa precisa (numa música agradável, numa pessoa querida, num passeio com a família, numa graduação alcançada, etc.). Sob o domínio do Reino, a vida mesma se plasma, ganho um novo colorido. A “alegria do Reino”, porém, não se esgota nisto ou naquilo, não é pequena, não é mesquinha, toca o céu, se aproxima da lógica do inefável, é misteriosa (quando mais se dá a conhecer, mais tem por revelar): a linguagem não pode açambarcar, restando ao sujeito se deixar levar. Há no nordeste brasileiro a expressão “reinar”. Onde se reina? Geralmente a mãe tem vontade de reinar em seu bebê, isto é, vontade de apertar, beliscar... as bochechas rosadas. A alegria do Reino nos atrai: é algo que me desmancha porque não tenho como enquadrar, compreender. É siderante, promete, nos projeta para um “plus ultra”. É um estado sem “aperreio”: vive-se o momento presente; momento este não perturbado por nenhum objetivo. Jesus, na barca, em meio à tempestade, dormia.

A alegria do Reino é tremenda, fez um São Francisco deixar o sonho da nobreza, o conforta da casa familiar, a proteção paterna. E o esforço, as renúncias, os riscos? Não se comparam ao Tesouro encontrado, à alegria sentida.

... vai, vende tudo o que possui e a compra.

- Encontrar o Tesouro é uma coisa; apropriar-se do Tesouro, é outra, pois exige decisão pelo Tesouro encontrado. E se tal Tesouro é Jesus Cristo, urge abraçar suas palavras, seus ensinamentos, atitudes, escolhas e confiança no Pai.

- Encontrar o Tesouro da vida, o Reino é mudar de vida, é largar certas situações, é passar à uma vida nova, a um regozijo aqui e agora.

- Que nossas comunidades e rostos tenham a marca da alegria. Que nossas liturgias sejam de alegria, de um amor “visível”, palpável e sensível.

45.O Reino dos céus é ainda semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas. 46.Encontrando uma de grande valor, vai, vende tudo o que possui e a compra.

Alguém disse: “Tu, somente passarás a viver no dia que encontrares um tesouro pelo qual estarás disposto a morrer”. Não é difícil deixar situações, modo de ser, largar vícios, deixar de fazer o que a maioria faz: é fácil. Basta ter encontrado algo ou alguém tão amado que me leve a uma nova vida. Encontrastes algo pela qual darias tua vida? No dia que encontrardes o resto será só um detalhe.  Importa encontrar o Reino dos Céus, a Pérola que te faz feliz.

Um dia, o diretor espiritual de Santa Madre Teresa de Calcutá disse para ela: "Vejo que tens um grande coração. Por que ainda permaneces como professora dessa boa escola? Permanecendo assim certamente estás traindo a ti mesma, Teresa”. Depois de um tempo, Madre Teresa decidiu, seguindo um impulso maior, caminhar pelas estradas de Calcutá amparando os moribundos e leprosos. E, assim, encontrou sua Pérola tão sonhada. Não reprimiu sua busca, nem deixou de trocar tudo que possuía pela Pérola.

                         

Na parábola de hoje, o negociante “vai, vende tudo o que possui e compra”, isto é, toma decisões na vida. “Decisão” é tomar uma coisa e largar outra. O Evangelho de hoje é mesmo um “apelo” à decisão. A alegria é a força, é a atração que facilita a decisão. Não se trata de decidir por decidir, mas decidir por uma alegria. Evangelho significa “boa-notícia”: há uma alegria, sim, em deparar-se com o Reino.

O negociante reage ao que encontra (vai, vende, compra), é “responsável”, isto é, é capaz de dar conta do que acontece com a vida e na vida. Não deixemos, simplesmente, as coisas irem acontecendo, mas sejamos responsáveis, procuremos dar uma resposta. Qual o significado disso para mim? Com tais coisas acontecendo, qual o chamado do Senhor nesse momento da minha vida?

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.