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Homilia do XVIII Domingo do Tempo Comum - ano A / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 05/08/2017 - 14:29

XVIII Domingo do Tempo Comum - ano A

Mateus 17, 1-9

Onde encontro a Luz da vida?

- Moisés, quando viu o povo pecando ficou tão zangado que em um só dia matou três mil pessoas: a lei para ele era mais importante do que as pessoas. Elias venceu os sacerdotes pagãos. Mas não ficou satisfeito e matou a todos, isto é, quatrocentos mil e cinquenta deles: morte aos inimigos! Certa feita, o demônio transportou Jesus a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória. Glamour, glória, custe o que custar, pois importa que eu beba meu próprio cálice, meu próprio eu; importa que eu me torne meu deus.

- Um dia, Jesus expôs o seu programa de vida aos discípulos, isto é, revelou-lhes que andaria a Jerusalém e sofreria o martírio, daria sua vida, seria morto. Revelava, assim, a sua missão por cumprir. Pedro e os demais apóstolos reagiram fortemente: “Que isso não te aconteça”. Medo da morte ou não aceitação da missão de servo sofredor de Jesus? Queriam um novo Moisés, um novo Elias, o monte do Demônio?

- Um dia, uma mãe que não sabia nadar viu seu filho se afogando. Ela seguiu seu instinto materno: pulou na água e salvou seu filho. A força instintiva de salvar o filho salvou-a também: nem ele e nem ela morreram.

- Jesus decidiu, disse “sim” ao seu “instinto” maior, a vontade do Pai, ao tomar para si o destino de servo sofredor que dá conta dos pecados da humanidade e espera a justiça de Deus. Para Jesus, o mistério da vitória, da justiça, da melhoria de vida, o “potenciamento” da vida, o melhor de uma pessoa, a expressão máxima de uma pessoa passa pela oferta da vida. É verdade que no homem habita, como a Moisés e Elias, o desejo de fazer a própria justiça e até a vingança, mas é verdade também que existe uma possibilidade maior: servir a si e a todos, salvar a si e a todos, não reagindo ao mal com as armas da maldade. Quase sempre somos cegos. Jesus nos abre os olhos: "... se o grão de trigo ... morrer, produz muito fruto. Quem ama a sua vida, perdê-la-á; mas quem odeia a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna" (Jo 12, 24-25). Sigamos tal “instinto” divino. Infelizmente quase sempre somos abafados e reprimidos pelos “Moisés e Elias” que habitam dentro de nós.

- O grão, cada humano desta terra, expressa o que de mais bonito tem dentro de si, realiza a sua maior potencialidade quando se “desmancha” na terra, quando ama, se faz serviço. Não é por acaso que toda mãe é disposta a morrer pelo filho que ama.

- Não esqueçamos: toda borboleta – inseto tão bonito - provém de uma lagarta que se “desmanchou”.

- Para convencer Pedro, Tiago e João, Jesus se transfigura, mostra-se luminoso. De tal maneira anuncia o “destino” de todo aquele que se faz serviço, que ama, que combate o mal ofertando a própria vida. De fato, a vida que escolhemos levar nos traz consequências. Escolher envenenar-se com o mal significa perecer (“Embainha tua espada, porque todos aqueles que usarem espada, pela espada morrerão” Mt 26, 52). Lutar até o fim pela paz nos ilumina, nos faz radiante, nos transfigura.

O TEXTO

- "Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão ... “Seis dias” ou “sexto dia”: uma nova revelação será dada (como à Moisés), uma novo homem será criado (no sexto dia Deus criou o homem).

- " ... e conduziu-os à parte a uma alta montanha”. “Monte”, “Montanha”, lugar de encontro com a divindade. Mas, cuidado: o Demônio também tem o seu monte, levou Jesus até seu “Monte” (cf. Mt 4,8-9). Qual é a “divindade”, o “monte” mostrado por Jesus? Em qual “monte” estamos?

- “Lá se transfigurou na presença deles: seu rosto brilhou como o sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura”. Lembremos de outras passagens bíblicas: os 144.000 salvos e vestidos de roupas brancas (cf. Ap 7,9); os mártires se vestem de brancos (cf. Ap 6,11); os anciãos também são vestidos de brancos (cf. Ap 4,4); os não contaminados, os vencedores, andarão com vestidos de brancos (cf. Ap 3,4-5). O Senhor nos faz brilhar, respandecer (cf. Nm 6,25; Is 60,1).

Jesus, no monte, se transfigurou, mostrou aos três apóstolos a vida vindoura e também a vida de vivos e de ressuscitados, a vida daqueles que seguem o cordeiro, que se fazem também servo sofredo em vista da redenção do mundo, para que o mundo não se perca de uma vez por todas. Era como se dissesse aos três: “Vejam, a Vida, a Luz do Eterno reina em todo aquele que se desdobra e se desmancha para resgatar o mundo das trevas do pecado que tanto sofrimento traz ao mundo”.

- “E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com ele”. Moisés representa a Lei. Elias representa os profetas. Mas, Jesus, os supera, essa é a mensagem. No entanto, Pedro reage e diz: “Senhor, é bom estarmos aqui. Se queres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias”. Colocando Moisés no centro, entre Jesus e Elias, Pedro sugere que Jesus deva ser um novo Moisés (aquele que não tolerava e matava quem infligisse a “lei”). 

- Deus intervém, cala Pedro: “Falava ele ainda, quando veio uma nuvem luminosa e os envolveu. E daquela nuvem fez-se ouvir uma voz que dizia: Eis o meu Filho muito amado, em quem pus toda minha afeição;ouvi-o”.   A voz de uma nuvem, Deus mesmo, revela que em Jesus, não em Moisés ou Elias, a Verdade, o Caminho e a Vida se manifestam definitivamente. Cabe à nós, ouvi-Lo.

- “Ouvindo esta voz, os discípulos caíram com a face por terra e tiveram medo”. Derrotados e aterrorizados ficaram. Teciam suas vidas sobre uma falsidade, uma fantasia, uma inutilidade. O chão da vida de Pedro, Tiago e João foi tirado. Pautavam suas vidas em certas idéias e em certas expectativas de ilusão. A verdade foi revelada: a vitória está no seguir as palavras de Jesus: trata-se de se entregar, beber o cálice do Pai, e não mais o cálice do próprio “eu” cheio de amargura e desejo de revanche. A verdade lhes foi por demais pesada: “caíram por terra”. O “monte” do Demônio com sua promessa de glória e poder mundanos não resiste, pois a Vida, a Luz, a vitória da vida passa pelo suportar o irmão, não por aniquilá-lo. As promessas demoníacas de glória e poder mundanos não resistem à realidade da vida: o humano só encontra a felicidade quando se faz “grão”, alimento. O Messias não é do modo que pensavam. Entram em parafusos, ficam desnorteados, aniquilados. Terão que mudar completamente a concepção do Messias esperado, a concepção de Deus.

- Impressionante como mantemos ao longo da vida o mesmo estilo, o mesmo padrão mental. Parece até que a Palavra não seja viva e eficaz como uma faca de dois gumes e que penetre até a medula e junções.

- “Mas Jesus aproximou-se deles e tocou-os, dizendo: ‘Levantai-vos e não temais’”.  Jesus tocou em muitos enfermos, seus discípulos também estavam doentes, isto é, não sadios em seus pensamentos, juízos e idéias acerca de Deus. Enfermos no espírito e tapados mentalmente não conseguimos entrar na verdade de que no dom de amar, servir e se desmanchar como grão na terra encontra-se “a Luz da vida” que ilumina corpo e alma.

- Jesus dizendo “Levantai-vos e não temais” estava dizendo: “Não tenhais medo de mudar; reconheceis que aquilo que pensáveis não era Deus, mas uma fantasia de vossa cabeça. Está na hora de acordar e acolher o Deus-Amor que eu vos anuncio e trago.

E assim seremos transfigurados.......

.......... Se há coisas, pessoas e sentimentos que exercem deslumbramento, poder de fascínio e encanto sobre nós, significa que buscamos algo para além de nós mesmos. Quem ou o quê vai me resolver, me iluminar, me fazer feliz? A nossa fé cristã nos diz que aquilo que buscamos enquanto vamos nos fascinando neste mundo, chama-se “divinização”. A “transfiguração” de Jesus no Evangelho de hoje nos fala disso, nos fala da “divinização”: a figura meramente humana de Jesus deixou reluzir a “Luz” que havia nele. A “transfiguração” de Jesus revela a quê somos chamados: somos chamados a viver dessa “Luz”, a sermos divinizado (cf. Col 1,16.12; 2Cor 3,18; cf. Rm 8,29), a sermos revestido de luz, a própria luz: “Levanta-te, sê radiosa, eia a tua luz! A glória – o brilho- do Senhor te cobre” (Is 60,1).

- Sofrer sobre nós o brilho do Senhor é bom, faz bem: “Pedro tomou então a palavra e disse-lhe: ‘Senhor, é bom estarmos aqui’”. Pedro experimenta que a vida amorosa, a beleza do Filho de Deus que se doa, é boa, é agradável. Descobre que o fazer da vida um serviço não é derrota, mas vitória, lugar de Luz, de Ressurreição que vence a morte. Infelizmente poucas vezes vamos a este “monte”. Infelizmente ainda teimamos em ser como Moisés, Elias e em andar ao monte de Satanás.

- Importa permanecer no Monte que é Cristo, lugar de repouso. Que as contradições e labutas do dia-a-dia com seu corre-corre não nos roube esse Monte no qual Pedro chegou a dizer: “Senhor, é bom estarmos aqui”. Que cheguemos a conformar nossa mente, nossa concepção religiosa e olhar o “Homem Jesus Crucificado e Amante” como o mais belo dentre os filhos dos homens, como a Beleza encarnada, como o vitorioso e que irradia Luz e o poder de Deus.

- Não sabemos bem o motivo, mas é fato. O humano tem uma tendência de usar tudo, manipular e usar pessoas para que ele fique ao centro e seja obedecido, reconhecido, temido e reverenciado. Vive disso. Segura-se nisso. E se a casa cair? E se Deus e a própria vida mostrar que toda essa segurança não passa de uma ficção, uma fantasia e ilusão? Chegam as decepções da vida. Chega a idade com seus limites. Chegam os mais fortes, belos e melhores do que nós. Chega a morte. Não é por acaso que Pedro, Tiago e João caem por terra aterrorizados. A voz do alto disse: “escutai-o”. Tratava de escutar Jesus e seu anúncio da paixão, morte e ressurreição. A novidade é: A ressurreição, a vitória, a pujança, a glória são presentes palpitantes quando me faço grão, quando o outro rosto humano se torna o centro, não eu.

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.