Tamanho do Texto:
A+
A-

Homilia do XXIV Domingo do Tempo Comum - ano A / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 23/09/2017 - 14:59

Homilia do XXIV Domingo do Tempo Comum - ano A 

Então Pedro se aproximou dele e disse: Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes? Respondeu Jesus: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”.

- Não temos escolhas: a sadia convivência familiar, comunitária e entre nações passa pelo perdão. E o perdão passa pela descoberta e vivência de uma verdade: a verdade de que o Pai nos dá a “vida-perdão” e esta “vida-perdão” devemos passar aos demais.

23.Por isso, o Reino dos céus é comparado a um rei que quis ajustar contas com seus servos. 24.Quando começou a ajustá-las, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. 25.Como ele não tinha com que pagar, seu senhor ordenou que fosse vendido, ele, sua mulher, seus filhos e todos os seus bens para pagar a dívida. 26.Este servo, então, prostrou-se por terra diante dele e suplicava-lhe: Dá-me um prazo, e eu te pagarei tudo! 27.Cheio de compaixão, o senhor o deixou ir embora e perdoou-lhe a dívida. 28.Apenas saiu dali, encontrou um de seus companheiros de serviço que lhe devia cem denários. Agarrou-o na garganta e quase o estrangulou, dizendo: Paga o que me deves! 29.O outro caiu-lhe aos pés e pediu-lhe: Dá-me um prazo e eu te pagarei! 30.Mas, sem nada querer ouvir, este homem o fez lançar na prisão, até que tivesse pago sua dívida. 31.Vendo isto, os outros servos, profundamente tristes, vieram contar a seu senhor o que se tinha passado. 32.Então o senhor o chamou e lhe disse: Servo mau, eu te perdoei toda a dívida porque me suplicaste. 33.Não devias também tu compadecer-te de teu companheiro de serviço, como eu tive piedade de ti? 34.E o senhor, encolerizado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a sua dívida. 35.Assim vos tratará meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão, de todo seu coração." 

- Não esquecendo Lucas 17,3-4 (“Se teu irmão pecar ... sete vezes no dia contra ti e sete vezes no dia vier procurar-te, dizendo: Estou arrependido, perdoar-lhe-ás”), e como Mateus nos pede de perdoar setenta vezes sete, então, “a cada três minutos do dia” somos chamados ao perdão (isto é, sempre somos chamados ao perdão). Praticamente viveremos dentro dessa atmosfera, dando e recebendo perdão. O perdão, portanto, se torna o respiro do homem. Inspirando e expirando, recebendo e dando perdão, teremos saúde espiritual.

- “Por isso, o Reino dos céus é comparado a um rei que quis ajustar contas com seus servos. Quando começou a ajustá-las, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos” (vv. 23-24).

QUEM SOMOS?  E se de repente nos consideremos “servos” do grande “Rei”? E se de repente, como “servos”, o grande “Rei” nos confia todo o seu tesouro, toda a sua vida, todo o seu respiro - dez mil talentos? Não somos um mero fruto do “acaso”, temos em nós o “hálito” do Eterno, participamos, respiramos a Vida que é o próprio Deus, temos seus “dez mil talentos”. Na verdade, terminaremos por descobrir que somos mais do que “servos”, somos herdeiros, filhos. Dez mil talentos é uma enorme fortuna. Cada um de nós recebeu do Senhor essa enorme fortuna, a vida, o próprio “eu”, a pessoa que somos. O Senhor nos dá tal fortuna e nos perdoa quando “roubamos” tal fortuna, quando “abocanhamos” a vida sem nenhum reconhecimento e gratidão, quando de maneira imbecil nos constituímos o criador de nós mesmos.

A vida é um dom, é uma enorme fortuna, não podemos dar nada em troca, é impagável, se considerarmos um débito, uma “coisa” por comprar. Que fazer, então, com tal enorme fortuna? Procuremos viver, sempre agradecendo ao Senhor e passando adiante tal fortuna recebida: fiquemos, devemos, a todos o amor recíproco; porque aquele que ama o seu próximo cumpriu toda a lei, paga o “débito” (cf.Rm 13, 8).

- A parábola fala de 10.000 talentos. Para termos uma idéia do quanto isso seja, um trabalhador precisaria juntar os salários de 200.000 anos. Isso foge de um cálculo sensato. Mas a parábola quer que imaginemos isso mesmo: a vida foi nos dada, ninguém pode comprar tal dom: ou é um dom ou uma dívida impagável, pois é impossível pagá-la. Quem poderá pagar ao Criador o fato de ter sido criado à sua imagem e semelhança? O que se poderá dar em troca pelo dom que temos de cantar, sorrir, sonhar, chorar, querer bem, ter família, ansiar por coisas melhores, rezar, louvar, raciocinar, questionar, crer, esperar, enfim, viver a vida de humanos, a vida de filhos de Deus? Quem poderá pagar ao Criador o fato de nos ter dado o seu próprio Filho único mesmo sabendo que não teria boa recepção? A “enorme fortuna” só aumenta mais: não somente devo-lhe minha própria vida e o perdão dos meus pecados, mas também devo-lhe Ele próprio – no seu filho – que se doou a mim. Ele é feliz de me presentear tanto, e, neste sentido, a “enorme fortuna” não é um débito, mas expressão de um amor sem condições, incondicional. Não é um débito que tenho para com Ele, mas um dom infinito que me fez sem calcular, pois o amor não tem medidas. Não fiquemos, portanto, calculando como ficar “quites” com Deus, nem como os outros ficarão “quites” conosco. Na verdade, devemos a todos o amor recíproco; porque aquele que ama o seu próximo cumpriu toda a lei, paga o “débito” (cf. Rm 13, 8).

- Um dia Jesus revelou algo para nós: “… que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,21). Não basta boa vontade, não bastam direitos humanos, não bastam só desculpas! Sem o perdão não se tem a experiência de filhos do Pai e sem a experiência de filhos do Pai não se tem perdão. E sem estas duas realidades, a humanidade não tem chance de família, de fraternidade.

- O Evangelho nos narra a falta do perdão: “... Apenas saiu dali, encontrou um de seus companheiros de serviço que lhe devia cem denários. Agarrou-o na garganta e quase o estrangulou, dizendo: Paga o que me deves! O outro caiu-lhe aos pés e pediu-lhe: Dá-me um prazo e eu te pagarei! Mas, sem nada querer ouvir, este homem o fez lançar na prisão, até que tivesse pago sua dívida” (vv. 28-30).

É verdade, não devemos dar por descontado a dificuldade que existe no oferecer perdão. No processo de perdoar, por vezes, se faz presente sentimentos contraditórios, conflitos, ambivalência, medo, raiva, agressividade, mágoas, situaçoes penosas e antigas. É sensato, antes de oferecer o perdão, deixar bem claro a quem se perdoa e o quê se está perdoando. Lembremos de Natam que apontou ao rei Davi o crime de adultério e homicídio. Lembremos do livro dos Levíticos que nos ensina a acusar o mal e de amar o próximo: “Não odeies a teu irmão no coração. Repreende o próximo para não te tornares culpado de pecado por causa dele” (19,17). Ousaria até dizer que o servo errou quando não ouviu a súplica de perdão por parte do companheiro. Mas é compreensível que tenha pulado no pescoço do companheiro. Mas, não esqueçamos, a exortação é perdoar, e mesmo que demore é nosso objetivo, nosso ideal. De fato, Perdoar significa avanço psicológico e espiritual. Oferecendo ou liberando “perdão”, eu restauro o outro e  meu mundo interior. Ao perdoar o outro, estamos dando descanso a nós mesmos, nos tornamos menos cruéis e carrascos conosco. Nos tornamos mais livres e saudáveis. Cuidado com o Deus que cremos: Jesus nos revelou um Deus que perdoa: “... eu também não te condeno. Vai, levanta-te e não peques mais”, disse Jesus à adultera. Tratamos os outros conforme o que acreditamos. Crendo no Deus de Jesus terminaremos, mesmo que demore um pouco, por perdoar e perdoando, nos apaziguamos.

v. 28: Cem denários em comparação aos dez mil talentos não é quase nada. Além do mais, o companheiro se acusou, reconheceu o débito, a culpa. Mas, nos perguntamos, por que o servo mau fez tanto drama a tal ponto de se tornar cruel (“Agarrou-o na garganta e quase o estrangulou”)? A resposta é mesmo esta: porque esqueceu-se do fato de ser filho do grande “Rei”, de forma ingrata não mais reconheceu de tudo que recebra do Rei: vida, perdão e filiação. E, assim, aconteceu o que não deveria acontecer: passou a sufocar o companheiro. Terrível isso! Espírito farisaico: “Eu pago minhas contas a Deus praticando a lei e tu deves pagar a mim o que me deves”. Mas, pensando bem, isso é uma loucura religiosa, é entrar dentro de uma jaula de agonia, é a agonia de um Sísifo (Sísifo, por causa de um crime, recebeu como castigo passar a eternidade empurrando  para sempre uma pedra até o lugar mais alto da montanha, de onde ela rolava de volta, e infinitamente ficou na tentativa de conseguir. Mas tudo inultimente).

Agarrar e quase estrangular é não deixar o outro viver, respirar. É quando sempre o magoado e ressentido lembra ao outro do mal que se fez. É sempre “tocar” naquele assunto que envergonha o outro, com o intuito de fazê-lo pagar nem que seja abrindo a ferida. Que o mal deva ser acusado, estamos de acordo. Mas uma vez acusado, reconhecido... basta! "Se tiverdes em conta nossos pecados, Senhor, Senhor, quem poderá ainda respirar diante de vós?" (Sal 130,3).

- “Então o senhor o chamou e lhe disse: Servo mau, eu te perdoei toda a dívida porque me suplicaste. Não devias também tu compadecer-te de teu companheiro de serviço, como eu tive piedade de ti? (vv. 32-33)

- “Servo mau”, isto é, negar-se a perdoar destrói a minha condição de filho, pois entro dentro da lógica farisaica do débito e crédito. Na verdade, quando não perdôo, revelo que não aceitei nenhum perdão.

Trata-se de salvar a vida comum, fraterna, nossas famílias e comunidades. Trata-se de viver e atuar como filho do Pai. E o filho se assemelha ao Pai. A gravidade é que se não vivo como filho, estou morto. Por isso que se diz que perdoar é um milagre talvez maior do que ressucitar um morto.

- “E o senhor, encolerizado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a sua dívida. Assim vos tratará meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão, de todo seu coração” (vv. 34-35). O pecado dos pecados é matar a vida do Pai dentro de mim. Isso acontece quando não perdoamos. Perdoar não é uma potência minha, é oferta do amor do Pai que vive em mim. Perdoar é recordar o amor que o Pai sempre tem por mim e pelo outro. Mesmo que a tarefa seja árdua, vale a pena encetar tal caminho de perdão, pois será o aprendizado de construirmos comunidade, igreja, família; será a chance de reconstruirmos a própria vida e  fazermos as pazes com a prória história.

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.