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Homilia do XXXIII Domingo do Tempo Comum - ano A / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 18/11/2017 - 10:22

XXXIII Dom Comum Mateus 25, 14-30.

O juízo final já estamos fazendo aqui e agora. O Senhor, no final, irá ler aquilo que nós estamos escrevendo agora.

“ (O Reino dos Céus) Será também como um homem que, tendo de viajar para o exterior, chamou os seus servos e lhes confiou os bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e ao terceiro um, segundo a capacidade de cada um. Depois partiu. Imediatamente, o que recebeu cinco talentos saiu e negociou com eles, ganhando outros cinco. .... Mas o que recebeu um, saiu, cavou um buraco na terra e escondeu o dinheiro de seu senhor. Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e lhes pediu as contas. O que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e apresentou outros cinco: ‘Senhor, disse, confiaste-me cinco talentos; aqui tens outros cinco que ganhei’. O senhor disse-lhe: ‘Muito bem, escravo bom e fiel; foste fiel no pouco, eu te confiarei muito; vem alegrar-te com teu senhor’. ... Aproximou-se também o que tinha recebido apenas um talento, e disse: ‘Senhor, sei que és homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso tive medo e fui esconder teu talento na terra; aqui tens o que é teu’. Respondeu o senhor: ‘Escravo mau e preguiçoso, sabias que colho onde não semeei e recolho onde não espalhei. Devias, pois, depositar meu dinheiro em banco para, na volta, eu receber com juros o que é meu. Tirai-lhe o talento e dai-o ao que tem dez. Pois ao que tem muito, mais lhe será dado e ele terá em abundância. Mas ao que não tem, até mesmo o que tem lhe será tirado. Quanto a este escravo inútil, jogai-o lá fora na escuridão. Ali haverá choro e ranger de dentes’”.

- O Evangelho desse domingo nos apresenta a vida como um prestar contas da própria vida, e nos fala acerca do definitivo: “o Reino dos céus será também como um homem que, tendo de viajar para o exterior, chamou os seus servos e lhes confiou os bens.... Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e lhes pediu as contas”.

- A parábola fala de “talentos”. “Talento” é a possibilidade que tu tens, que tens dentro de ti, que Deus semeou na tua interioridade. É feito de dons, dotes, sensibilidade, talentos, capacidades, emoções, ideais, amor, confiança, liberdade, desejos de vida. Talento é a herança que o Ressuscitado nos deixou, é o Espírito Santo, é participar do projeto grande do Pai. Quando eu pergunto quais são os “talentos” que recebi do Senhor, estou me perguntando, afinal, quem sou eu, qual minha peculiaridade, a minha essência. Lembra-te de não te comparares com os outros, pois cada um recebe os próprios talentos. Não tem porque invejar talentos de ninguém.

- Mesmo que seja um talento que recebemos, sempre teremos recebido muito e abundantemente. Com um talento uma família poderia passar muito bem e viver sossegada por 30 anos. Portanto, mesmo que tenhamos recebido um só talento, somos plenos e ricos. Trata-se de multiplicar os talentos. Mas tudo tem seu preço e um preço bom. Um dia, depois de um aplaudidíssimo concerto, Andrés Segovia, considerado o maior violonista de todos os tempos, recebeu um fã que lhe disse: "Mestre, darei a vida para tocar como você!”. Andrés Segovia respondeu: "É exatamente o preço que eu paguei (pagou com a vida). Estás, meu jovem, disposto a fazer tudo o que eu fiz (estudos, dedicação, renúncias, lutas, lidar com invejas, solidão, etc.) para pôr para fora teu talento?

- Um dia vi uma criança muito feliz. Estava radiante e exultante. Estavam ele e seu pai lavando o carro do pai. Mas para a criança o carro também era dele. Importava, para ele, está com o pai se dedicando a uma causa comum: lavar o carro. Assim, multiplicar os talentos é participar do projeto do Pai. Tem seu preço e um preço bom, gratificante.

Multiplicar os talentos. Jesus, Nosso Senhor, nos revela que há, sim, uma história que não tem futuro. É a historia que os homens insistem em criar através de um egoísmo feroz que sempre termina em matança (dos outros homens, da natureza e dos animais), em ânsia de lucro a qualquer custo, em promoção de guerras, em semear ódios, intrigas e discórdias.  Há, no entanto, uma história que tem futuro, pois o Ressuscitado viveu tal historia vitoriosa. É a história que pode impregnar nosso dia-a-dia quando o novo mandamento é posto em prática.

- Não estamos “órfãos”. O senhor nos deixou talentos, sua herança, seu Espírito Santo, sua força que se transforma em obras e práticas que promovem nossas famílias e comunidades. É só se deixar guiar pelo Espírito tal como uma árvore frutífera que recebendo luz e água sempre dá frutos. Que a Palavra seja eficaz, que nossos sacramentos nos santifiquem, que nossa caridade seja operosa.

Servo mau e preguiçoso” - O Evangelho desse domingo nos desafia a viver e multiplicar, a não perder os talentos. O que esperamos para entrar em campo? O risco é viver no banco de reservas: estão por ai, mas não entrar em campo, não fazer a escolha que dá uma direção rumo àquela direção que faz com que a vida se encha de cores, de intensidade. Como dizia Bernanos: “Só há uma tristeza: aquela de não sermos santos.

Servo mau e preguiçoso”  - Os navios que estão no porto estão seguros (talentos enterrados). Mas não foram construídos para estarem ali.

Servo mau e preguiçoso” - Já dizia S. Irineu: “A glória de Deus é o homem vivo”. A vida é o dom que Deus nos faz: se vivemos a vida estamos glorificando a Deus, “devolvendo-lhe” o dom maior, multiplicando os talentos. Se enterrarmos aquilo que podemos ser, teremos, então, inutilizado o dom de Deus, a nossa própria vida.

“Servo mau e preguiçoso”. Os primitivos tinham medo de tudo, os fariseus de infligirem a lei do sábado, o fanático de duvidar. O “servo mau e preguiçoso” padecia do medo que lhe impedia de tentar frutificar o talento recebido do Senhor. Há ainda outro medo: acatando o Espírito de Cristo, o cristão não poderá mais “dialogar” com outros espíritos ( orgulho, vingança, ganância desmedida, idolatria). Infelizmente, por vezes, teme-se “largar”, deixar o velho mundo.

Notas exegéticas:

v. 14: Os dois primeiros servos receberam em dobro porque tinham multiplicado os talentos, tinham promovidos as pessoas encontradas ao longo da vida. E, assim, se tornaram filhos, isto é, semelhantes ao Pai, pois responderam: “Imediatamente, o que recebeu cinco talentos saiu e negociou com eles, ganhando outros cinco. Do mesmo modo, o escravo que recebeu dois talentos ganhou outros dois”. “Quem trata bem os pobres empresta ao Senhor, e ele o recompensará” (Pro 19,17).

 

- O que são os talentos? Recebemos a “Graça” e o perdão (cf. Mt 18, 23ss), a vida do Pai. Que tais “talentos” não se tornem inúteis, mas atuantes em nós e naqueles que nos rodeiam.

 

v. 17: “Do mesmo modo, o escravo que recebeu dois talentos ganhou outros dois”. Não recebeu cinco talentos como o primeiro, mas entrou no regojizo da casa do Pai. Isso porque não quem tem ou oferta a mais se realiza, mas quem simplesmente oferta a si mesmo.

 

v. 18: “Mas o que recebeu um, saiu, cavou um buraco na terra e escondeu o dinheiro de seu senhor”. Mesmo tendo entendido que a vida lhe foi dada, acha que isso seja um débito, uma vergonha até (não aceita não ser o dono da vida). Não entende que a vida é um dom a ser doada, pois é no dom da vida que a vida se torna abundante. Não basta viver, não basta estar vivo, importa multiplicá-la, fazer outros vivos (“Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundancia”) .

v. 24: “‘Senhor, sei que és homem duro, que colhes onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso tive medo e fui esconder teu talento na terra; aqui tens o que é teu’”.  Este servo tem uma falsa ideia do Senhor, pois o Senhor sempre semeia o bem.  Não consegue visualizar no Senhor qualquer gesto de amor, nem visualiza em si qualquer presença de um dom. Conclusão? Vida enterrada!

Diante de tais palavras vemos o quanto seja proveitosa e saudável uma sã imagem de Deus. Quem nos pode ofertar tal imagem saudável? Jesus crucificado enquanto mostra a potência divina e amorosa vencedora do mal, do pecado e da morte que campeiam no mundo.

v. 28: “Tirai-lhe o talento e dai-o ao que tem dez”: quem quiser prender o respiro para não perder o ar que se tem, morre sufocado.

v. 29: “Pois ao que tem muito, mais lhe será dado e ele terá em abundância. Mas ao que não tem, até mesmo o que tem lhe será tirado”: abismo chama abismo, sorriso chama sorriso, abraço chama abraço, fazer o bem e amar geram alegria, regojizo e satisfação. Do outra lado, quem não responde, quem não dá nem um sinal de retorno a quem lhe ama (o Senhor nos amou por primeiro), não aceita o amor oferecido, torna-se vazio, oco por dentro.

v. 30: “Quanto a este escravo inútil, jogai-o lá fora na escuridão.  Ali haverá choro e ranger de dentes”. Não participar do projeto do Pai significa pertencer a este mundo marcado por choro e ranger de dentes.

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.