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Homilia Dominical / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 29/05/2017 - 09:38

Ascensão do Senhor

Mateus 28, 16-20

"Os onze discípulos foram para a Galiléia, para a montanha que Jesus lhes tinha designado. 17.Quando o viram, adoraram-no ... Jesus lhes disse: Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo". 

 “Naquele tempo!” Hoje? Amanhã? Quando vai acontecer? Quando algo maravilhoso e mais do que eu irá acontecer? Quando e onde no corriqueiro e comum da vida encontrarei uma Montanha, um Monte? Um Monte é mais do que a terra plana de cada dia, fica a um passo do Céu. O Evangelho de hoje narra que os discípulos foram à Montanha e lá adoraram. O que tinha acontecido naquela Montanha? Palavras de felicidades (lembre-se das Bem-aventuranças, Mt 5):

 No Monte para adorar: Marcello Candia, grande industrial, decidiu destinar parte do lucro de sua empresa em vista de uma “Fundação”. Tal Fundação, hoje em dia, socorre inúmeros pobres, idosos abandonados e leprosos em vários países, inclusive no Brasil. Mais do que esmola o convite é mesmo para se partilhar os recursos a fim de tornar o outro “meu irmão”, isto é, em igual condição de dignidade.

No Monte para adorar: Perante tanta melhoria possível e tanta chance de eliminar o sofrimento de tantas pessoas, resta ao cristão se afligir. A aflição, neste contexto, significa uma força interior, uma resistência contra o descaso e a indiferença. A nível pessoal significa nossa capacidade de reconhecer nossa carência, nosso pedido de ajuda. Não sejamos autossuficientes, encontremos o consolo na família, na comunidade.

No Monte para adorar: “Não te irrites contra os que praticam o mal e nem invejes os que praticam iniquidades” (salmo 37). É difícil resistir a tentação, e é fácil ceder ao mal quando você se vê injustiçado, traído, enganado. Temos que nos empenhar, nos defender, mas com a disposição do homem que já viu quem vence (o crucificado venceu). E Jesus promete, ao manso, vencer, ser gente de sucesso, possuir a terra, a dignidade, a honra.  Ser manso também é um convite a não ludibriar e não passar a rasteira no próximo.

No Monte para adorar:  O que mais nos dá apetite do que matar a fome e a sede? Por isso Nosso Senhor pede que tenhamos esse mesmo penar e gana por instaurar a justiça. Um mundo onde todos são irmãos e partilham do que se tem.

No Monte para adorar:  Como se atua a misericórdia? 1. Dando-se conta da necessidade do outro tal como o bom samaritano. 2. Provando compaixão com o outro. 3. Intervindo concretamente como o bom samaritano. Aos misericordiosos foi dada uma promessa: serão “tragados”, fisgados pela filiação divina, serão filhos de Deus, pois terão entrados em sintonia com “O Misericordioso”.

No Monte para adorar: Prossigamos em nossa vida sendo guiados somente por Deus, sem mistura, sem ídolos, puros. Que no nosso coração haja retas decisões e intenções e não segundas intenções.

No Monte para adorar: Os pacíficos promovem a paz. A paz combate a ignorância, as doenças, a fome, o desamparo, as drogas, os desajustes em família. A paz que vem de Cristo não é proveniente de acordos, mas o bálsamo para os nossos conflitos. A quem assim se empenha, ao pacífico, Deus considera filho seu, pois realmente é semelhantes a Deus. Imaginemos Deus dizendo ao pacífico: “Você se parece comigo, você é meu filho”.

No Monte para adorar: Madre Teresa dizia: "No dia que você fizer o bem pode ser que alguém lhe recrimine. Mas continue a fazer o bem. Tudo aquilo que você levou anos para construir alguém pode vir e destruir em uma hora. Mas continue a fazer o bem”. O Reino precisa de pessoas que iluminem e que não perdem a coragem diante de críticas destrutivas e diante do ódio das trevas.

Entrando em sintonia com as “Bem-aventuranças”, eles viram a Jesus. Quem me dera ver!!! Só um olhar bondoso sobre meu rosto pode fazer com que eu me olhe e me veja como bom. Rosto para um outro rosto. Face para outra face. Somos, vivemos e sobrevivemos em relações (Sozinho ninguém nasceu nem tomou seu primeiro banho. Ninguem aprendeu falar sozinho nem escolheu o próprio nome. O último banho será dado por outro e outros me carregarão na última viagem). “Ver” é dizer que um rosto se apresenta diante de mim, que um olhar me olha, que uma face me procura. A “palavra” sai de uma boca em um rosto. E, assim, entro em comunicação, saio de minha miséria e solidão e entro em relação. A “palavra” sempre me levará a ver.... um rosto, uma pessoa. E, então, o “ver” aquele rosto me levará a adorar. Você sabia que a palavra “adorar” significa “beijar”? O beijo, aqui, é comunhão de vida, é quando os que se beijam respiraram o mesmo ar. Passam a viver de um mesmo respiro, de um mesmo ar e hálito. Eu me encontro no teu rosto, meu rosto se encontra no teu rosto.... então.... adoro, beijo. O Evangelho de hoje diz que os discípulos “viram” a Jesus e adoraram – beijaram - à Ele (ajoelharam-se).

- “Todo poder me foi dado ...Ide, ensinai e fazei que todas as nações se tornem discípulas, batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo ... Eis que estou convosco todos dos dias, até o fim dos tempos”.

Creio firmemente que você já tenha encontrado um grupo, uma comunidade cristã, pessoas que fazem você pensar: “Realmente é verdade; aquele mundo inaugurado por Jesus persiste”. Isso acontece quando vemos nessas comunidades e pessoas o “Monte das bem-aventuranças” e verdadeiros adoradores. É o poder de Nosso Senhor, poder de construir algo novo nesse mundo ainda marcado pela ferocidade.

Aderindo ao Cordeiro (não à uma fera) vitorioso somos chamados a fazerem outros aderirem. Recebemos do Ressuscitado a tarefa de tornar as “nações” acolhedoras daquela proposta do Monte das Bem-aventuranças. Jesus ao dizer-nos “Ide e ensinai” revela o nosso verdadeiro nome. O nosso nome é uma ida, é ir ao encontro de outros. Testemunhar a fraternidade. Isso mesmo! Mais do que doutrina, a missão é fazer acreditar que somos “irmãos”, que só a prática das “Bem-aventuranças” pode nos salvar, salvar nossas famílias, salvar nossas vidas, nossos dias, salvar o tecido social.

Apregoar um cristianismo sem a prática da vida comunitária não passa de “lavagem cerebral”. Tal missão dirá que a vida é sensata, tem sentido, não é absurda.

Testemunhar! Com nosso testemunho estaremos dizendo com a própria vida que a vida tem um desabrochar de sentido, tem um cumprimento, não um final. Lembro daquela mãe que agradeceu à nossa comunidade católica porque ajudou na recuperação do seu filho que se encontrava escravo das drogas.

Batizar significa imergir, banhar-se: que a comunidade cristã leva tantos irmãos e irmãs a banharem-se naquelaVida comunitária do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Era uma vez um homem que se lamentava:  - “Meus Deus por que permites que crianças morram de fome, que guerras existam, que injustiças sejam cometidas, etc.?”  Uma noite o Senhor apareceu e disse que faria algo, tomaria uma atitude. No dia seguinte o homem falou:

- “E então Senhor, farás algo?”

- “Sim”, respondeu o Senhor.

E o homem: - “E o que fizeste para acabar com tudo isso?”

Deus disse: - “Eu fiz você”

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.