Tamanho do Texto:
A+
A-

Homilia Dominical / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 03/06/2017 - 19:02

PENTECOSTES

João 20, 19-23

O sepulcro do medo, da culpa e da mágoa.

"Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-se no meio deles. Disse-lhes ele: A pazesteja convosco! 20.Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado.  Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor. 21.Disse-lhes outra vez: A paz esteja convosco! Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio a vós. 22.Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: Recebei o Espírito Santo. 23.Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos." 

O MEDO e a CULPA. Você lembra das “trancas”? Peça de ferro ou madeira que atravessada deixa as portas mais resistentes caso alguém tente arrombá-las. O Evangelho de hoje narra que os discípulos usaram “trancas” em busca de segurança. Estavam no mesmo local, mas cada um “na sua” e com medo. Comportavam-se como “vivo-mortos”. Estavam isolados em si mesmos, como que num sepulcro escuro. O medo pode ser a causa ou o motivo de repelimos os outros. O medo nos deixa na nossa zona de conforto. Os dias se tornam sombrios. Além do medo, os discípulos parecem viver também de culpa, do remorso de terem abandonado o Mestre, de terem traído a amizade e o amor. Neste misto de covardia, de abandono da vida e de conformismo, Jesus se faz presente, pois o medo os paralisara, nem mesmo buscavam mais ao Senhor (Madalena buscou). Não sabemos qual foi mais “difícil” para Jesus: se romper a pedra do sepulcro ou romper a pedra, o coração dos discípulos amedrontados e cheios de culpa. O certo é que o Ressuscitado “invade” o obstáculo que colocamos ao se fazer vivo e presente aos discípulos. É reconfortante verificar que Nosso Senhor vai ao encontro daqueles traidores, medrosos e os chama de irmãos.

- Jesus se põe no meio deles, melhor, dentro deles. Ele vem no nosso recôndito mais fechado para se fazer relação. Ilumina as trevas do coração. Rompe nossas resistências e couraças. E, ali, traz a paz. Dizer “eu acredito na ressurreição” é dizer: “o Senhor me deu a paz, iluminou as trevas, fez-me irmão, tirou-me o medo, tirou-me da morte. Ele é o Ressuscitado e vive em mim”.

- “Mostrou-lhes a mão e o lado”. “Eu sou o Crucificado. Eu tenho mãos feridas e o coração aberto”. Alguém se apresenta a outro declinado o próprio nome. Jesus, no Evangelho, se apresenta mostrando os sinais corporais de sua vitória sobre o mal e o pecado. Com seu corpo afagou os doentes e as crianças abandonadas, curou paralíticos e leprosos, matou a fome de multidões, curou a pobre mulher encurvada. Com seu corpo afrontou, padecendo, a maldade humana no alto da Cruz, e com seu amor aos pecadores transformou todo desamor. As marcas da vitória jamais se perderão. Quem vence? Quem ressuscita? É quem usa mãos, o poder, e coração para erguer o próximo. O que temos feito com nossas mãos? Nosso sangue é derramado para quem? O que construímos ao nosso redor?

- Eles reconheceram o Senhor olhando aquelas mãos e o lado aberto. Não nos iludamos! Olhemos as mãos e o lado aberto. Não é uma emoção, não é um falar bonito que diz que algo ou alguém seja de Deus. “Mãos” e “coração” que ajudam pessoas a recuperarem a dignidade, o respeito, a liberdade, a esperança, o sentido do viver.... são presenças do divino que Jesus nos indicou.

- PAZ e ALEGRIA. Quando lembro da história de Santa Gianna Beretta sempre fico imaginando sua filha. Como será que ela se sente quando imagina sua mãe grávida que disse ao marido antes de entrar na sala de cirurgia: “Não tenha dúvida. Se o médico lhe perguntar se deve salvar a mãe ou a filha, escolha a nossa filha”. Contemplando “mãos e o lado aberto”, descobrimos quem é Deus para nós. Aquela filha nasceu e vive daquele fato: “Minha mãe morreu por mim”. Nós cristãos nascemos e vivemos daquele fato: “Do seu lado saiu sangue e água para nós”. Eis o motivo maior para a Paz e a Alegria. “Paz” é o “Shalom” de Deus, é a soma de todas as bênçãos, a certeza de que há justiça, há perdão, há abundância e saúde. É a alegria de viver - aconteça o que acontecer - pois o Crucificado Senhor está vivo entre nós e o amor venceu o ódio, a vida venceu a morte, a esperança venceu o desespero. Alegria é um “proveito”, um saborear, um degustar, um contentamento e um dar e receber, uma entrega. A alegria nos promete, nos projeta para um “mais ainda” ou para um “muito mais”. Com a alegria reinando vive-se o momento presente; momento este não perturbado por nada nesse mundo. Tal “Alegria” e “Paz” provam a presença do Ressuscitado.

- “Como o Pai me enviou a revelar o amor do Pai para com os homens, assim também eu vos envio a vós”, ou seja, como eu vos amei, vós deveis também amar-vos uns aos outros, lavar os pés uns dos outros. Nós nos tornamos como Ele, somos filhos (Ele o Filho) que revelam o amor do Pai aos irmãos. GRANDE MISSÃO. Podemos dizer que não tem como a pessoa está envolvida neste “cenáculo” de amor onde Jesus se mostra vivo com mãos e lado amorosamente abertos e ao mesmo tempo não “partir” em missão. Missão é saída de si, é construir novas relações, é desatar “nós”, “amarras”, é instaurar “oásis” de reconciliação, abrir portas, fazer acontecer a confiança nas pessoas, constituir o sentido da família humana. No dia em que nos negarmos a isso teremos perdido nossa humanidade. ISSO É GRAVE!

- “Recebei o Espírito Santo....”. Para São João, o sentido da vida é perceber a cada dia um algo novo, é ter encontrado “algo” que mereça se “gastar” a cada dia. E se acolhêssemos esse dom, o Espírito? A filha de Santa Gianna vive desse amor que a mãe lhe deu ao ofertar a própria vida por ela. O cristão, contemplando as “feridas de amor” nas mãos e no lado aberto do Cristo, acolhe o Espírito.

- “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”. O mal só triunfa onde não há perdão. O mal não triunfa onde há perdão. O perdão,revela, portanto, algo mais forte do que o mal. Santa Bakita foi vilipendiada de maneira atroz por vários carrascos. Um dia ela decidiu acabar com o mal: perdoou-lhes. No dia que eu perdoo, eu nasço como filho de Deus, pois me torno como o Pai que perdoa sem limites, setenta vezes sete. No dia que o outro é perdoado, ele também, nasce como filho de Deus, pois foi perdoado pelo Pai. Trata-se de entrar nesta ciranda amorosa que é o nosso Deus Trindade: o Pai ama o Filho e o Filho ama o Pai, e o amor é o Espírito Santo. Sair da dinâmica do perdão é se retirar de tal “jogo” amoroso.

A ação do perdão é vigorosa, é procurar de muitas formas afastar a pessoa da estrada errada, é usar o poder de Deus para neutralizar o mal que quer avançar sobre nossas relações destruindo comunidades e famílias.

- “Àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos".  Imaginem alguém que depois de ter praticado o mal saia dizendo que “otário” ou “besta” é quem se deixou enganar ou roubar. Neste caso, a comunidade cristã pode, sim, declarar que o pecado não foi perdoado, mas permanece. Aqui temos uma denúncia que visa acordar a consciência do malfeitor, pois, afinal, não podemos confundir o mal com o bem, nem o bem com o mal. 

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.