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Homilia Dominical / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 17/07/2017 - 16:56

XV Domindo do Tempo Comum - ano A

Mateus 13, 1-23


Navegar é preciso, semear é fundamental: ser terra boa!
Cansar de semear também é uma tentação. Melhoria de si mesmo, buscar
superação, começar novos projetos, apostar ainda na bondade dos
corações, dedicar o próprio tempo em semear o bem. Tudo isso é semear.
A Palavra de Deus, sua ação, traz e gera frutos. O Evangelho de hoje
foi escrito para quando a tentação de desistir do bem vier.
Parafraseando Santa Madre Teresa diria: "Os seres humanos são o que
são (por vezes egoístas), ama-os assim mesmo. Quando tu fazes o bem,
alguns podem dizer que tu o fazes por segundas intenções, mas não
desista, continue fazendo. Quando o sucesso bater à tua porta, muitos
falsos amigos e muitos inimigos aparecerão, mas tu não desista do
sucesso. A sinceridade e a franqueza te fazem vulnerável, mas tu não
desista de ser sincero e franco. Aquilo que construístes depois de
muitos anos de sacrifício pode ser destruído em um só dia, mas tu
continue a construir. Mesmo aqueles que recebem tua ajuda podem te
atacar, mas tu continue a ajudá-los. Oferece ao mundo o melhor de ti,
e, quem sabe, não te tratarão com desprezo! Mas, tu continue a dar o
melhor de ti”.
Sabemos que nem tudo o que se semeia é bem aceito, e nem sempre dá
frutos. Mas, sabemos também, que nossa dedicação e nosso amor não
serão totalmente perdidos, pois conhecemos pessoas e projetos que
nasceram como frutos da dedicação, da Palavra, do sacrifício e do amor
dispensados.
O Senhor semeia: tantas Palavras em nossa vida; quantas histórias de
fé em nossas casas, lares e famílias; tantas “pessoas autênticas e de
testemunho” temos conhecido; tantas luzes e verdades ficam em nossa
consciência; tantas promessas de felicidade vislumbramos; tantos
gestos e ensinamentos de Jesus sabemos; tantos acontecimentos nos
provocam a uma melhoria. Em nossos anos de vida, quantos “quadros
belos” temos visto, quantos santos e santas conhecemos (alguns
reconhecidos oficialmente, e outros, não), pois o Senhor semeia.
Diante de tantas “sementes” lançadas sobre nós, fica a pergunta: “qual
nossa reação?”
- Importa “abraçar” a Palavra semeada, senão o Maligno arranca o
semeado. Por vezes é útil fugir do senso comum, não continuar com os
mesmos pensamentos e julgamentos de sempre. Mudemos certos juízos,
conceitos e formas de encarar a vida. Pessoas rígidas, que não dão o
braço a torcer correm o perigo de não germinarem, de nunca passarem a
uma nova vida. Terra dura, terra batida, coração petrificado, desejo
de revanche: aqui a semente se perde.....
- Solo pedregoso! Viver só de “emoções” e sensações não constrói nada.
Como é bela uma cerimônia de matrimônio. Mas sabemos que não basta
para manter o casal unido. Chegará o momento da tribulação, do
sacrifício e do cansaço. Importa decidir-se de uma vez por todas e não
perder a atração pela “Palavra”, afinal existe um maná escondido para
quem persevera no bem mostrado por Deus e sua Palavra: "Ao vencedor
darei o maná escondido e lhe entregarei uma pedra branca, na qual está
escrito um nome novo que ninguém conhece, senão aquele que o receber"
(Apocalipse 2, 17).
Atenção! Diz-se que nossa época marcada por tantas informações,
solicitações midiáticas, facilidades, conforto e justificativas para
todo tipo de atitudes, seja uma época que torna difícil o nosso
envolvimento real com uma causa, com pessoas, com Deus e conosco
mesmo. Solicitados por inúmeras emoções e tantos prazeres, nos
tornamos terreno pedregoso, reativos aos apelos da Palavra e
perdedores. Isso mesmo: perdedores! Perdedores daquilo que realmente
nos convém.
- Espinhos sufocam a semente, a Palavra. Nós, cristãos, vivemos em
“exílio”: “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas
concidadãos dos santos, e sois da família de Deus” (Ef 2, 19-22).
Não é por acaso que há tantas guerras, contendas, ciúmes, traições,
inveja e ganância entre nós. Tudo isso acontece quando o homem se
identifica completamente com esse mundo sem nenhuma abertura para tudo
o que é santo e vem de Deus: a honestidade de vida, a beleza, a
verdade, a pureza, o respeito, a ternura, o cuidado consigo e com os
demais. Jesus fala da terra cheia de espinhos como “os cuidados do
mundo e a sedução e enganos das riquezas”. Mesmo que a Palavra esteja
presente, não dá frutos, está sufocada por um poder, está dominada por
um poder mortal, pelo poder de “Mamona”, o ídolo do dinheiro. Rezemos,
irmãos e irmãs, para não cairmos sob o domínio desse espírito mau. De
fato, Jesus nos ensinou: “...livrai-nos do mal”.
- Terra boa, terra de bons frutos. Terra vicejante, viva e
ressuscitada. Terra que diz “sim”, que abraça fortemente tudo aquilo
que é bom e verdadeiro, que não se trai, que não mente para si
própria. Lembremos de São Mateus. Sentado recebendo e cobrando
impostos. De repente apresenta-se à ele a pessoa magnífica de Jesus de
Nazaré que lhe faz um convite: “Vem, segue-me!”. Duas opções: viver
para sempre sentado e servindo a um mundo corrupto (era funcionário do
Império) ou “abraçar” aquela Palavra encarnada, Jesus que não
prometida coisas, mas promessas maiores: “Farei de ti pescador de
homens”; Farás obras maiores do que aqueles que eu fiz”. A terra boa
aceitou o maior bem, Mateus o seguiu.
Quem ouve a Palavra e põe em prática jamais será o mesmo! A Palavra é
eficaz e faz germinar e crescer pessoas novas, magníficas, estupendas.
São aquelas pessoas que quando as encontramos passamos a pensar que
afinal a criação de Deus não foi em vão, que ainda temos esperança no
ser humano.
Todos nós sabemos que a Palavra abraçada gera, cria e faz germinar e
nascer pessoas estupendas e maravilhosas. Pensemos na Virgem Maria e
sua fé. Pensemos num São Francisco e sua herança de fraternidade
universal. Lembremos de irmã Dulce da Bahia e seu cuidado para com os
“perdidos” da vida. Pensemos em tantos outros.
- Onde eu vivo, estudo e trabalho é um bom terreno? A boa semente, a
Palavra, já meu tornou um belo fruto? Quais sonhos, desejos, perguntas
e questões da vida me dominam? Perguntas importante que revelam qual o
terreno que tenho dentro de mim.
- Eu também sou um projeto, sou uma semente. Dará frutos ou será em vão?
- Qual é a tua característica, aquela que é somente tua? Em que te
distingue dos demais? Pergunta importante, porque uma pessoa que não
se distingue das demais é só uma fotocópia. Não sejamos fotocópia,
sejamos boa semente em terra boa que geram frutos únicos.

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.