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Homilia Dominical - XVI Domingo do tempo comum - ano A / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 25/07/2017 - 08:40

XVI Dom Comum Mateus 13, 24-43

"Jesus propôs-lhes outra parábola: O Reino dos céus é semelhante a um homem que tinha semeado boa semente em seu campo. 25.Na hora, porém, em que os homens repousavam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e partiu. 26.O trigo cresceu e deu fruto, mas apareceu também o joio. 27.Os servidores do pai de família vieram e disseram-lhe: - Senhor, não semeaste bom trigo em teu campo? Donde vem, pois, o joio? 28.Disse-lhes ele: - Foi um inimigo que fez isto! Replicaram-lhe: - Queres que vamos e o arranquemos? 29.- Não, disse ele; arrancando o joio, arriscais a tirar também o trigo. 30.Deixai-os crescer juntos até a colheita. No tempo da colheita, direi aos ceifadores: arrancai primeiro o joio e atai-o em feixes para o queimar. Recolhei depois o trigo no meu celeiro.

31.Em seguida, propôs-lhes outra parábola: O Reino dos céus é comparado a um grão de mostarda que um homem toma e semeia em seu campo. 32.É esta a menor de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se um arbusto maior que todas as hortaliças, de sorte que os pássaros vêm aninhar-se em seus ramos.

33.Disse-lhes, por fim, esta outra parábola. O Reino dos céus é comparado ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha e que faz fermentar toda a massa.

 

Se Deus é bom, de onde vem o mal, o joio, a má semente, a cupidez do ter, a ânsia de dominar sobre os outros, a busca do prazer a qualquer custo, o egoísmo que descarta o outro? Infelizmente o Inimigo da vida trabalha: “Na hora, porém, em que os homens repousavam, veio o seu inimigo, semeou joio no meio do trigo e partiu”. Na hora do sono é que o joio foi semeado. Importa não dormir, não vacilar, permanecer vigilante. Somos responsáveis pelo jardim externo e interno. Focados no Pai, em oração, é que não cairemos no sono, não nos decepcionaremos com a vida (pois a vida também apronta e todo tipo de joio aparece!). A parábola ensina que o mal é um fato, e que na sua maioria das vezes acontece pelo mau uso da liberdade e pela não adesão à Palavra.

Neste mundo querer reunir só os puros e eleitos certamente só dá em desastre. Nada de destruir esse mundo ou acabar com uns e salvar outros, mas ter a tolerância, a paciência consigo e com os demais. Há o perigo de querendo destruir o mal terminar por destruir a semente do bem. Por isso o Senhor disse: “... arrancando o joio, arriscais a tirar também o trigo”. Lembro muito bem de um jovem que trabalhava conosco na pastoral carcerária. Ele mesmo tinha sido um presidiário: com paciência conseguiu tirar de si tantas sementes de joio.

- E quando virá a justiça se o joio é tolerado? Serão queimados no fogo da Palavra, no fogo do Espírito Santo: "Se aquilo que alguém construiu não resistir ao fogo no dia do juízo, claro que sofrerá; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo" (1 Cor 3,15): o fogo amoroso transforma aquele que foi joio.

A vida não pára; não tem como parar a vida!

A semente, o grão e o fermento geram, produzem, “crescem”, se desenvolvem. Quer você queira ou não, a vida lhe cobra, cobra atitudes, pois tantas coisas acontecem, tantas pessoas aparecem, tantos encontros e desencontros. A vida também é uma tarefa. Imagine você a vida de um casal. Jamais é “parada”, mas, sim, em constante mudança que exige de cada um novas respostas, novas atitudes: sementes lançadas, grão semeado, fermento na massa.

A semente, o grão e o fermento, todos eles, tem o seu próprio tempo. Paciência com a vida que tem seu próprio tempo; tolerância que significa carregar, responsavelmente, a si e os outros com seus retardos, limites, defeitos, lacunas.  Não se pode tirar a flor do seu botão, não se pode puxar o pescoço de uma criança para fazê-lo crescer depressa. Tudo que é grande um dia foi pequeno. Tudo tem seu tempo!

A parábola do joio.

- Facilmente dizemos “Pai nosso”! Facilmente esquecemos-nos dos outros filhos do nosso Pai, isto é, esquecemos dos irmãos. Importa conviver, é tempo de conviver. Que exista o filho da luz e o filho das trevas, tudo bem. O problema é que não sabemos se é aquele ali ou este aqui. Disse Jesus: “... arrancando o joio, arriscais a tirar também o trigo. Deixai-os crescer juntos até a colheita”.

- Todos os dias vivemos com pessoas ao nosso redor, familiares ou não. Não cabe a nós eliminar a ninguém, não sabemos da vida de ninguém. Não existem pessoas por eliminar, por deletar, mas pessoas por conviver e recuperar. Também outros são chamados a conviver conosco, a recuperar-nos. Vamos excluir ou incluir? Um dia um menino levava nas próprias costas o irmão menor. Perguntaram-lhe: “É pesado?” Ele respondeu: “Não! É meu irmão!”

- Não nos alimentemos de nossos fantasmas. Fantasmas tais como: “Eu sou mais do que você”; “Eu não sou como você”; “Você é mais do que eu”. Perigoso! Se me deixo levar por tais pensamentos certamente excluirei tantos, inclusive eu mesmo. Em outras palavras, não digamos: “Aquele é má semente, este é boa semente”. O julgamento cabe ao Senhor!

A parábola do grão de mostarda

“Nem tudo que reluz é ouro!” O Reino dos Céus: buscamos algo que nos dê vida em abundância, segurança, certeza, pujança, grandeza, força, saber e poder, buscamos sentido, buscamos a Deus. A ilusão é confundir tudo isso com uma dessas grandezas mundanas que São João fala: a pessoa se autocria, se faz o deus de si mesmo e se alimenta do que deseja, não se importando de mais nada e ninguém (“"...  a concupiscência da carne, dos olhos e a soberba da vida não procede do Pai” (1Jo 2, 16).

- O Reino cresce, a Igreja cresce por atração, não por imposição, não por prepotência, não denegrindo ninguém. É como um grão de mostarda! O Reino, a Igreja cresce pela Cruz, pela força do Amor que se faz serviço e acolhida.

- O Reino é como um grão de mostarda colocado embaixo da terra (se o grão de trigo não morre, não pode dar frutos: cruz) e não como um cedro sobre um monte (cf. Ez 17, 19-24). Infelizmente, porém, continuamos fascinados pelo “cedro” que com sua grandeza, força, maravilha, potência, imobilidade, brio, valentia e longa duração, nos faz buscar o Reino junto daqueles que prometem “céus e terra”. Os milagreiros, os gurus, os poderosos, os glamourosos, as instituições e igrejas que convém ao meu orgulho continuam fazendo sucesso e semeando joio, o espírito de discórdia e de soberba.

- O grão de mostarda, o menor de todos. Somos convidados por este Evangelho a sermos filhos. O Reino se mostra real quando somos filhos. E se somos filhos, temos o Pai e muitos irmãos. Seremos sempre filhos, sempre pequenos, sempre grãos que se entregam para gerarem vida.

- Mostarda é uma hortaliça, plantada no jardim, não no monte. Deve dar frutos na casa, no cotidiano, no ordinário. Quanta construção do Reino de Deus acontece quando alguém pára para escutar o outro, para fazer um curativo, para oferecer um sorriso, para visitar um enfermo. É bem verdade que o Reino acontece também quando nos indignamos contra uma injustiça. O importante é que se mantenha a força nEle, não na nossa própria força ou justiça.

- Grão de mostarda também é docilidade, abandono, não resistência e mansidão à vontade de Deus. Ser grão lançado à terra é deixar-se ir e adentrar no mistério profundo e abissal do pai. Ser grão de mostarda significa disponibilidade alegre em partilhar aos demais o próprio segredo da felicidade, partilhar suas riquezas internas e capacidades. Ser grão lançado à terra é exercer o amor que se sacrifica, ama e alivia. Como o próprio Senhor que subiu ao Calvário, assim o “grão” cheio de mansidão se torna lugar de repouso: os pássaros vêm aninhar-se em seus ramos. Ser grão jogado na terra é não envenenar a vida, pois não se retém pessoas e coisas, mas agradece e oferta, tal como o coração que não retendo sangue, a vida, é o único órgão no qual o câncer não se aloja.

- Que a nossa esperteza e interesses mesquinhos, que a “força do nosso querer” não nos tire a “infância espiritual”, a capacidade de dizer “Abba, ó Pai!”. “Abba” é dito quando a criança tem o foco no pai e na mãe. Não há outros interesses, outros desejos, outras preocupações: é um grão jogado na terra. Que um dia o nosso foco seja o “Pai”. Naquele dia nossas comunidades, famílias, nossa humanidade, realmente, serão de irmãos.

 

A parábola do fermento e a tentação do desânimo.

- Será que consigo? O bom fermento vem em meu socorro, transforma uma vida, nos livra da morte, nos converte, nos oferta a verdade. Tal bom fermento gera algo de imprevisto, “impossível”, grandioso, exuberante, pródigo. A graça de Deus é mais do que se pensa ou planeja. Santa Teresinha na sua adolescência tinha um defeito que lhe impossibilitaria tornar-se uma pessoa adulta e corajosa: chorava por tudo e depois chorava por ter chorado. Numa noite de Natal, escutou uma repreenda do seu pai. Ao invés de chorar, “engoliu o choro”. Disse ela sobre a graça recebida no dia de Natal: “No dia que o Senhor se fez criança, Teresa se fez adulta”.

- A uma certa etapa da vida corremos seriamente o risco de parar e dizer: “Pronto! Não aprendo mais, não consigo mais, meu tempo já passou”.  Fermento na massa significa que podemos cantar com Nossa Senhora: “O Senhor fez em mim maravilhas, Santo é o seu nome”. Quantas pessoas de fé conhecemos que podem nos narrar tantas superações, tantas boas novidades jamais imaginadas.

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.