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Homilia Dominical XXIX Domingo do Tempo Comum - ano A / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 21/10/2017 - 15:29

XXIX Dom Comum Mateus 22, 15-21

"Não terás outro Deus além de mim": nenhum outro! (Dt 5, 7).

15 Então os fariseus se retiraram e convocaram um conselho para ver como o poderiam pegar em alguma palavra. 16 Enviaram-lhe discípulos, juntamente com os herodianos, para lhe dizer: “Mestre, sabemos que és sincero, pois com franqueza ensinas o caminho de Deus, sem te comprometeres com ninguém, nem olhar a aparência de pessoas. 17 Dize-nos, pois, o que te parece: É justo pagar imposto a César ou não?”18 Conhecendo-lhes a malícia, Jesus falou: “Por que me testais, hipócritas? 19 Mostrai-me a moeda do imposto”. Eles lhe apresentaram um denário . 20 E Jesus lhes perguntou: “De quem é essa imagem e inscrição?”21 Responderam eles: “De César!”Então Jesus lhes disse: “Pois devolvei a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

E Jesus disse: “Devolvei a César o que é de Cesar e devolvei a Deus o que é de Deus”.

- Vivemos em um “Estado laico”.  E isso é bom!  A origem do “Estado laico” visa proporcionar a convivência de todos os cidadãos com suas diferenças religiosas e culturais, a fim de que um grupo religioso ou cultural não passe a perseguir outros grupos. O “Estado laico”, portanto, não existe para banir as culturas e as religiões da vida dos cidadãos e da vida comum de um povo. Neste sentido, podemos até afirmar que a semente do “Estado laico” encontra-se no próprio cristianismo que apregoa a tolerância também para com aqueles que pensam diferentemente de mim.

 - Este “César”, este “Estado laico” tem limites? Sim, tem!

Naquele moeda apresentada a Jesus havia a “gravura” do imperador Tibério César. Por isso Jesus diz aos herodianos de devolverem a César aquilo que é de César. Mas tem uma “gravura”, uma imagem, que pertence a Deus: o rosto de todo ser humano que vem a este mundo. Não somos imagens de César, não sirvamos a nenhum “César”. Somos a imagem de um original: Deus. Nossa origem está em Deus. Que não esqueçamos disso.

“Devolva, restitua à Deus aquilo que é de Deus, o que lhe pertence”. O “Estado” e os vários “César” não podem abocanhar os filhos de Deus, as pessoas. Por vezes, governos, constituições, leis, ideologias, líderes religiosos e políticos pretendem dominar de tal maneira as pessoas que sugam suas almas, fazem suas cabeças, mudam seus juízos, trocam suas opiniões, ludibriam suas mentes, dizem o que podem ouvir e não ouvir, forçam-nas a novos usos e costumes, alteram o sentido das palavras, manipulam nossas crianças e por ai vai. Então.... principalmente duas coisas não podemos negociar com os “César” de plantão desse mundo: a liberdade dos filhos de Deus e a comunhão, a amizade entre os irmãos, os filhos de Deus.

- Escolher por qualquer motivo é livre-arbítrio. Liberdade é outra coisa. Liberdade é “agarrar”, escolher, aderir e praticar o bem. Então... que a minha alma, a minha liberdade, o meu espírito fique livre para o “bem” fazer. No dia que um “César” dominar sobre a minha pessoa, naquele dia perderei a liberdade, viverei somente para abocanhar os outros, mesmo em nome de amor e carinho, jamais para fazer comunhão com os demais. Perdendo a liberdade, torno-me escravo. Escravo dos meus apetites ou escravo dos apetites de um outro que elegi como o “César” da minha vida.  E ainda escravo porque obrigado a servir aos apetites de um “César” opressor. Qualquer tipo de escravidão termina sempre impossibilitando o encontro com um outro humano. Quando sou aprisionado por mim mesmo ou por um “César” qualquer, deleto a quem não me agrada ou a quem não agrada ao “César” que me domina. O que se fará com o mais fraco, o idoso, o inválido, o enfermo, o pobre?

- Alguém diz que o “César Dinheiro” venceu: a maioria está possuída por tal demônio (o “César” dinheiro) e nem se apercebe. Um possuído por tal demônio bem que poderia num momento de exorcismo dizer: “Se o “César Dinheiro” se apossou de mim, eu sou ele, ele faz parte de mim e eu faço parte dele. Com ele me identifico e me lambuzo, e sem ele.... dá uma dor de cabeça...., passo mal, me desespero. Por causa dele estou disposto a vender tudo, todos os meus princípios e valores. Não é por acaso que se diz: ‘todo homem tem seu preço’. Na verdade, temos um pacto de amor e servidão com o ‘Cesar Dinheiro’ que se tornou para mim um fetiche, tomou o lugar de Deus, pois na verdade “César dinheiro” é uma alternativa à Deus. Afinal, é impossível viver sem um Deus por servir, e eu escolhi a este que traz o nome de ‘Cesar Dinheiro’. Mesmo que ele seja inescrupuloso, pois em nome dele mata-se, vilipendia-se, mente-se, corrompe-se, compra-se até corpos e órgãos, ele traz poder e glória, e com ele eu me autoafirmo, me sinto ‘o tal’, me sinto divino, feliz, realizado”.  (Não deixa de ser um grande drama perder, esquecer, a nossa verdadeira e mais profunda pertença, e viver sufocado e dominado pelo demônio “César dinheiro”).

- Quem poderá trazer um homem possuído assim de volta para sua saúde mental e espiritual? Como deixará a ilusão e o delírio que o demônio “César dinheiro” causa?  Jesus disse: “Devolvei a Deus o que é de Deus!” Com tais palavras Jesus intervém, avança, faz entrar em jogo a força e o poder de Deus a fim de libertar o homem do demônio “César dinheiro”. Obedecendo às palavras do Divino Mestre a pessoa volta a gozar de liberdade interior, volta a adorar somente a Deus, passar a se comprazer pelo fato de partilhar sua vida com os filhos de Deus, formando, assim, família humana, comunidade cristã, e procura, a partir dessa libertação, o bem comum e não mais só o dele.

- Cada vez mais vemos menos! O “César dinheiro” tem tirado de nós o horizonte maior de nossas vidas, nos reduzindo a uns anos de vida na terra, a um “ser” que compra, consome, come e dorme. Reduzindo-nos a não mais esperar nada mais do que aquilo que o “César dinheiro” possa oferecer.

- “‘Mostrai-me a moeda do imposto’. Eles lhe apresentaram um denário”. O Evangelho atesta que Jesus não trazia nenhuma moeda no bolso. Ora, na moeda havia a imagem do imperador Tibério que se tinha proclamado divino, senhor dos outros. Isso mesmo: um mero mortal metido a Deus. Trazer aquela moeda significaria que Jesus aceitava esse “divino”. Em outras palavras, Jesus, não trazendo moedas está dizendo que o imperador não governa sobre ele e nem nele. Pode até conviver com ele, mas como mero governante que não tem nenhum direito divino sobre ele. Jesus não lhe entrega sua alma, não traz aquela moeda no bolso, não vive daquela ar poluído que é o sistema de Tibério.  Jesus mantém sua liberdade de Filho. É, portanto, soberano. Aceitar aquela moeda significaria aceitar a ideologia da escravidão e da opressão que nega a liberdade dos filhos de Deus. A nossa liberdade é chamada a ser entregue a Deus, ao bem. Neste momento de nossa reflexão podemos nos perguntar: “Qual moeda trazemos em nossos bolsos?” “A quem servimos de verdade?” “Eu dou a Deus o que é dele?” “Faço-me oferenda a quê ou a quem neste mundo? Devolvo-me a Ele (‘Pai, seja feita a vossa vontade’)?”

“Devolvei a César o que é de César”

- Deus não está na moeda e naquilo que ela representa (glória mundana que aumenta enquanto esmaga). Deus está no rosto humano, na pessoa humana vemos o reflexo do Original. O Homem é a imagem de Deus. “Onde dois ou mais estiverem reunidos, eu estou no meio deles”: na comunidade dos filhos de Deus encontramos o Senhor.

- É bem verdade que queremos sentir-se bem em tantos aspectos. De fato, Deus ao nos criar “plantou” grandes desejos em nós. Tenhamos grandes desejos! Somente tenhamos cuidado para não buscar a grandeza maior num estilo de vida enganoso, aquele estilo de vida apregoado pelos “César” desse mundo.

- “Devolvei a Deus o que é de Deus”. Que nenhum filho de Deus seja apagado servindo aos “César” de plantão. Que cada filho de Deus possa, ao contrário, brilhar, resplandecer, sendo devolvido ao domínio do Senhor. Cuidado, portanto, a quê ou a quem nos damos!

- “Devolvei a Deus o que é de Deus”.    “E quem receber uma destas crianças em meu nome, é a mim que recebe” (Mt 18, 5). Trata-se de se devolver a Deus devolvendo-se ao menor dos irmãos, pois, afinal, a imagem perfeita de Deus na terra continua sendo os seus filhos.  

- “Devolvei a Deus o que é de Deus”. Acreditamos que nesta exortação exista também um pedido para que toda pessoa se torne um “glória a Deus”, isto é, que demos, com nossa vida, glória a Deus. Que nossa vida não seja apagada e mesquinha, mas que todos que nos vier a conhecer perceba que irradiamos solidariedade, partilha, esperança, fé, caridade, alegria verdadeira. Que o Senhor Deus brilhe em nossa face. “Devolver a Deus” significa, portanto, não reter a fonte de água viva que quer emergir e regar tudo que esteja ao nosso redor; significa não abafar o Sol Maior que quer brilhar e se fazer valer em nossa alma. Deixemos Deus ser Deus, como fez a Virgem Maria: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim a sua vontade”.

- “Devolvei a Deus o que é de Deus” casa com “... da árvore do conhecimento do bem e do mal não deves comer, porque no dia em que o fizeres serás condenado a morrer”.  O pecado que sussurra aos nossos ouvidos e campeia pelo mundo a fora nos leva a eliminar o Senhor Deus do nosso cotidiano, de nossas decisões, de nossas conversar, de nossos pensamentos e juízos sobre as pessoas e coisas. Não devolvendo nada a Deus, comendo da árvore do bem e do mal (eu como dessa árvore toda vez que uso e abuso de mim, do outro e da natureza), eu mesmo me proclamo senhor de mim, me faço o meu próprio Deus e tento eliminar tudo e todos (eu como da árvore). A glória para mim, nada para Deus. Por isso Jesus revida: “Devolvei a Deus o que é de Deus”. Não é por acaso que nosso mundo está doente: resistimos em não devolver a Deus e comendo o que não nos pertence...

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.