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Homilia Dominical/Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 24/06/2017 - 21:42

XII Domingo Comum

Mateus 10, 26-33

26. "Não os temais, pois; porque nada há de escondido que não venha à luz, nada de secreto que não se venha a saber. 27.O que vos digo na escuridão, dizei-o às claras. O que vos é dito ao ouvido, publicai-o de cima dos telhados. 28.Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena. 29.Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de vosso Pai. 30.Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados ....

..... 32. “Portanto, quem der testemunho de mim, me reconhecer, me pertencer com sentimentos e ações, diante dos homens, também eu reconhecerei diante de meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar, não me reconhecer, diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus."  Julgamento terrível.  

Não nos esqueçamos da máxima evangélica: reconhecemos e temos a Jesus e ao Pai como importantes e decisivos em nossa vida quando reconhecemos e temos o irmão mais frágil como importante e decisivo em nossa vida (cf. Mt 18,5;25,40.45; Mc 9,35).  O tremendo juízo de Deus (na verdade a única coisa que ficará dessa nossa historia humana nessa terra) está em minhas mãos, na minha responsabilidade: eu sou o meu juiz: “Quem acolher o menor a mim acolhe; tive sede e me reconheceste, me deste de beber”.

Podemos “desconhecer” e traí-Lo? Qual o preço de um homem? Alguém diz que cada um tem seu preço. Judas Iscariotes teve o seu. Nosso Senhor hoje nos fala dessa realidade dramática que é dar testemunho dele ou negá-lo. Ele, o Senhor, se reconhece naquele que não tem medo de cumprir a Palavra. A traição, a negação ao Senhor pode acontecer por ilusão, por medo, por covardia, por preguiça espiritual. O ser humano teme perder reconhecimento, bens, poder. Mas o verdadeiro bem só teremos na fidelidade a nós mesmos e ao Pai. Não nos vendemos, não nos traímos, não traímos ao Senhor, temos o verdadeiro bem quando nos fazemos filhos do Pai e servidores dos demais (Estava doente e me foste visitar....). Gostaria de lembrar aqui tantos voluntários no mundo a fora que prestam serviço caritativo aos necessitados. Geralmente testemunham, dizendo que aquilo que fazem não tem preço.

"Não temais. Que todos venham a saber. Publicai. Deem testemunho”.

Uma vez o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso queixou-se ao Papa João Paulo II das posições dos bispos no Brasil. Quando o Papa Bento XVI veio ao Brasil, o ex-presidente Lula fez questão de lembrar ao Papa sobre a laicidade do Estado. Sempre interpretei tais atitudes como incômodos: os presidentes se sentiam incomodados quando a fé era proclamada e “mexia”. Tem uma canção que sempre me vinha em mente ao lembrar esses dois episódios. Eis um resumo: “... Nós gostamos de tudo, nós queremos é mais.  Do alto da cidade até a beira do cais ... Nós queremos estar do seu lado.... Nós vamos chacoalhar a sua aldeia... Agora nós vamos invadir sua praia... Agora se você vai se incomodar. Então é melhor se mudar...Não adianta nem nos desprezar....Se a gente acostumar a gente vai ficar....Não precisa ficar nervoso. Pode ser que você ache gostoso. Ficar em companhia tão saudável. Pode até lhe ser bastante recomendável” (Ultraje a Rigor).

A fé, meus irmãos, tem que se tornar cultura, nossa vida, tem que chacoalhar minha pessoa, a vida de sociedade, a vida comunitária. A fé nos lança no “olho do furacão”. “O Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam”.

Imagine-se em um lugar, situação, contexto. Imagine-se cercado de pessoas. O discípulo de Jesus tem suas convicções que, de repente, não podem ser bem-vindas. “Em meio aos lobos”. Posso buscar refúgio por medo. Posso me omitir por medo. Mas que vida levarei com medo? Se os discípulos de Jesus tivessem buscado o refúgio e “escolhido” o medo não estaríamos nós, hoje, “falando” de Jesus. Com medo não dá para viver! Só a confiança no Bem pode nos tirar do atoleiro que é o medo. Tolido pelo medo e sem confiança no Bem o ser humano tem dois destinos: viver paralizado e viver em desespero.

A potência da vida nova de “ressuscitados” fez com que os discípulos enveredassem por um “Caminho” de Verdade que leva à Vida. Não temiam: 1) superar o egoísmo, pois “quem quiser ser meu discipulo tome a sua cruz....” ; 2) oferecer, liberar perdão; 3) partilhar o que eram e o que tinham; 4) “gastar” a vida em serviço; 5) ser verdadeiros (que o teu “sim” seja “sim” e o “não” seja “não”). E, assim, vemos o quanto a fé cristã é um fazer frente à...., é um afrontar, é um ir contra-corrente.

- O Senhor veio até nós para “libertar aqueles que, pelo medo da morte, estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão" (Hb 2, 15).  O nosso limite biológico (morte biológica) não significa nosso fim. Alguém diz que seja um tal de “egoísmo” que nos faz identificar o nosso limite biológico com o nosso fim. Aqui nasce o medo da perseguição que pode levar à morte.

Na verdade, o nosso limite é o início do Outro e da nossa comunhão com Ele. No princípio e “fim” de nossa vida temos o Pai que nos ama e que amamos. Se vencermos o tal do “egoísmo” não mais temeremos: “O perfeito amor elimina todo medo” (1Jo 4, 18).

Se pudéssemos adentrar na consciência de Jesus saberíamos o que era, para Ele, viver, qual era a sua vida. Uma vida que não se traiu, que afrontou a Cruz. A vida de Jesus era a confiança no Pai. Ele, Jesus, quer nos comunicar tal confiança que nos possibilita ser missionários (as) sem medo e em total entrega.

10,26 Não temais.

Será que valeu a pena minha dedicação a tais pessoas? Será que não vou, lá na frente, chorar por ter dedicado minha vida pela família, em fazer o bem?  Por vezes tememos nos ver como perdedores, como fracassados, solitários. Eis as tentações do discípulo. Na verdade, Jesus, ao dizer-nos “Não temais” está nos assegurando que somos os verdadeiros construtores de uma família, de uma comunidade, de um mundo mais semelhantes ao Reino. Todo discípulo se torna “semente” que dará fruto. E mais: o discípulo pode perder muitas coisas, até mesmo a vida biológica, mas a Vida que recebeu do Pai não será “tocada”, a paz e a alegria não serão tiradas.

... nada há de escondido que não venha à luz, nada de secreto que não se venha a saber.

A vida mesma nos mostrará que o bem, o amor e a verdade que parecem falidos, escondidos e segregados neste mundo se farão valer.... Uma boa ação, uma palavra de esperança, por mais escondidas que sejam, salvam vidas, salvam o mundo. Um dia daremos conta que o que foi “abafado” foi o que salvou o mundo. Um dia reconheceremos que “aquilo” que nos salvou nessa vida foi uma amizade sincera, um cuidado gratuito. E, assim, o bem triunfará. Triunfará também tudo aquilo que semeamos de bem, veremos o fruto do nosso labor, entrega e amor. Nosso desejo se realizará.

O que vos digo na escuridão, dizei-o às claras. O que vos é dito ao ouvido, publicai-o de cima dos telhados. Que a nossa Igreja esteja em saída, seja uma luz para tantas situações. Não temamos viver em meio a lobos vorazes e que a Boa-Nova avance em ordem de batalha. Que o Evangelho chegue ao centro do poder, configure nossas leis, nosso projeto de familia, de educação, de identidade sexual, etc.

Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. O que fazer com o corpo? Fazer dele um “manequin”? Façamos dele lugar onde o amor ao Pai e aos irmãos aconteça. Um corpo que não se torne lugar de encontro com o Pai e com os irmãos já está morto, é só um mero “manequin”.

Temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na Geena. Conheci uma senhora que era muito atormentada pelo marido usuário de drogas. Ela temia, temia a ela mesma. Temia feri-lo mortalmente. Há uma força negativa dentro de nós que pode estragar nossa vida. Tal parte nos afasta da alegria de viver e nos faz tirar a alegria dos demais. Por isso Jesus disse: “Se teu olho, se tua mão, se teus pés te levam a pecar, arranca-o, corta-os”. E São Paulo: “Quem me livrará desse corpo de morte. Sinto-me dividido e não faço o bem que quero, e faço o mal que não desejo”. Tomemos cuidado, portanto, com a força negativa que habita em nós e que insiste em nos precipitar na Geena.

Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de vosso Pai. Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós.

Os pássaros não eram benquistos, pois estragavam os grãos. Não gozavam de apreço e também não valiam muito no mercado. Aquele que mesmo não sendo “Pai” de pássaros cuida tanto destas aves tão sem valor, quanto mais não cuidará de nós, de quem é Pai. E um fio de cabelo? Que valor tem? A cada dia tantos caem e nem percebemos. Que valor tem? Até daquilo que julgamos insignificante o Senhor cuida. Tais palavras de Jesus soam como uma injeção de ânimo para nós que por vezes nos consideramos “pouco” e em baixa-estima. Estamos nas mãos do Pai. Procuremos de viver aquela vida que é o amor do Pai. 

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.