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Homilia Dominical / Frei João Santiago

Publicado por Frei João de Araújo Santiago | 01/10/2016 - 11:20

XXVII Dom Comum Lucas 17, 5-10

“Tende sal em vós mesmos” (Mc 9, 50).

“Assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: somos servos como quaisquer outros; fizemos o que devíamos fazer: servimos”. E Eva comeu o fruto. E Adão comeu o fruto. Devorados que foram pelo desejo de serem como deuses, “sugadores” dos outros, e não servos. E Caim matou, não serviu, Abel. Diante da satânica vontade de usufruir do outro que domina o coração do homem, Jesus se declara o eterno servidor ao lavar os pés aos discípulos (cf. Jo 13).

O Evangelho de hoje nos convida a descobrir que novas relações são possíveis: relações de serviço ao próximo. O Evangelho também nos atesta que a vida não é um fracasso, pois não estamos sós, Deus é nosso rochedo e nos incita a ter fé, descobrir a força do nosso sonho:

“Tende Sal em vós mesmos”.

Os Evangelhos nos narram situações. Os discípulos escutam que é grave escandalizar os pequenos, pois a eles se deve servir; os discípulos são chamados a perdoar o irmão arrependido, servindo-o com a paz do perdão; os discípulos se veem incapazes de curar, servir, um epilético, etc. Podemos imaginá-los provocados: de um lado sentem atração a realizarem ações maravilhosas, e de outro lado se veem “incapazes”. E, assim, pode ser a nossa vida com as dificuldades no emprego, de saúde e de relacionamento. Diante de tais impossibilidades, os apóstolos disseram ao Senhor: “Aumenta-nos a fé!”, como se dissessem: “queremos, sonhamos, desejamos, mas não conseguimos servir, superar certas dificuldades”.

E Disse o Senhor: “Se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta amoreira: ‘Arranca-te e transplanta-te no mar’, e ela vos obedecerá”. O confronto é entre o grãozinho de mostarda e a amoreira. A amoreira é “forte”, suas raízes dificilmente eram retiradas e a

amoreira pode ficar plantada até por 600 anos. Jesus nos ensina que a fé, mesmo pequena, pode abalar e derrotar uma dificuldade medonha, pode abater o poder maléfico, pode fazer renascer a alegria e a esperança, pode nos capacitar. É como se Jesus dissesse: “Que queres?

Coragem, eu venci. Tu podes. Tende sal”. Fé, aqui, é aceitação de um projeto entregue nas mãos de Deus, e não nas nossas.

 

A humanidade, eu, você, nós já tentamos muitas formas a melhoria de nossas relações. E se ousássemos apostar nas Palavras do Senhor? Nas Palavras que nos estimulam a apostar no serviço? Realizaríamos o maior dos milagres: o mundo novo. Mas, infelizmente, as notícias cotidianas nos mostram que a humanidade insiste em se agredir, em se matar, etc. Um casal diante da traição por parte de um dos cônjuges jamais será o mesmo. Mas com fé pode se superar e até mesmo viver melhor que antes.

A fé fez com que aquele sacerdote que perdera a visão se tornasse um exímio confessor.

A fé levou o papa João Paulo II a perdoar seu agressor. Os focolarinos, com fé, testemunham que é possível economia de comunhão.

Ter fé é crer e crer significa pôr, colocar o Senhor no coração, fazer-se amigo dEle. É como um noivo apaixonado que traz no seu coração a sua amada. Ter fé, portanto, é trazer sempre presente a Deus. Ele passa a fazer parte de mim e dou-me conta que só com ele posso ser feliz. Ter fé é acatar, contemplar e se envolver com aquele rosto que nos enamorou.

A fé é produtiva, faz diferença na vida de uma pessoa. O efeito da fé sempre será grande, pois Deus e o homem estão empenhados, cada um faz a sua parte. Santa Teresinha, antes de morrer, afirmou: “todos os meus desejos foram realizados”. E Santa Teresa d´Avila dizia: “Deus escreve sempre certo: por linhas tortas”. Então: quem crê sabe que terá tudo aquilo que deseja, mas como Deus quiser.

Imagine alguém solitário. A quem se dirigirá quando precisar? Essa saída de si em buscando apoio pode-se chamar “fé”. Apoio em Deus exige fé, apoiar-se nEle. O grave é que entregar-se, apoiar-se significa também complicar toda a vida na realidade pessoal de Deus. É como quando a noiva se vê “obrigada”, para casar, de ter que deixar amigas, irmãos, pai e mãe, trocar faculdade, mudar de emprego, de cidade e até de país. Tudo isso exige um engajamento e uma mudança de vida em relação ao noivo. E nessas mudanças todas, ela conta sempre com o noivo, pois confia que ele seja fiel, não trai e sabe que com ele se pode contar.

A fé vai acontecendo porque vamos se entregando, acatando, suplicando e se refugiando em Deus. E nesse processo vai acontecendo algo: a realização da minha vida. Será que há pessoas com mais fé que outras? Quanto mais uma pessoa se entrega, acata, suplica e se refugia em Deus, mais ela se vê firme, segura e fiel a si mesma. Torna-se mais segura, e nessa segurança

pessoal mais energicamente adere a Deus.

- Em 1956 na cidade de Pádua, um bispo de nome Francesco Frasson construía um instituto para pessoas com graves formas de deficiência. O certo é que não havia o dinheiro necessário para concluí-lo. Um seu colaborador disse-lhe: “Francisco, não temos o dinheiro”. E ele respondeu: “Se tivéssemos o dinheiro, o que faríamos com a fé? Fica tranquilo e vai dormir em paz. Tenha fé”. E, de fato, concluiu a obra iniciada.

- Uma senhora que não sabia nadar diante do filho que se afogava jogou-se no lago e retirou o seu filho. Como? Com fé, pois nadar não sabia.

Com estes exemplos vimos que a fé é adesão à outro, a Deus. Eles não sabiam como, mas confiaram agindo e tomando atitudes. A Virgem Maria é um grande modelo de fé. Como uma mulher pode-se imaginar mãe do divino Deus? Ela disse ao anjo: “Não sei como, mas confio, que aconteça como dizes e aquilo que tu me dirás, eu o farei”.

Algumas perguntas:

“Qual o grande serviço da minha vida?”

“Cadê meu sal, minha fé?”

“Qual amoreira já lancei ao mar?”

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.