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Homilia Dominical / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 17/12/2016 - 13:39

IV Domingo Advento  Mateus 1, 18-25.

“Eis como nasceu Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava desposada com José. Antes de coabitarem, aconteceu que ela concebeu por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, que era homem de bem, não querendo difamá-la, resolveu rejeitá-la secretamente. Enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo de seus pecados....”.

- O Senhor não se cansa do seu sonho, o sonho de vir até nós. Apesar de Tamar (estrangeira que se uniu ao sogro. Cf. Gen 38; Mt 1,3), apesar de Racab (chefe de um bordel. Cf. Js 2; Mt 1,5), apesar de Rute (que astuciosamente se deitou com Booz. Cf. Rt 3-4; Mt 1,5), apesar de Betsabea (que traiu o esposo com Davi. Cf. 2 Sam 11, 1-2; Mt 1,6), o Senhor “usou” dessa linhagem para nos dar o Salvador. 

- Num mundo agitado e em convulsão Deus se faz presente, ativo e silencioso. Como no princípio o Espírito pairava sobre as águas (cf. Gn 1,1-2), igualmente o Espírito Criador intervem para uma nova criação no ventre de Maria. Jesus é o verdadeiro homem criado por Deus, o homem divino capaz de superar a morte.

- A grande missão de São José, modelo de pai e intérprete do Pai eterno. Todo pai é chamado a colaborar com o Senhor da vida a trazer a este mundo um novo ser humano e também a transmitir sua concepção de vida e de fé a este novo ser.

- São José, criado na tradição bíblica do Antigo Testamento conhecia a lei que diz: “Se, porém, o fato for verídico e não se tiverem comprovado as marcas de virgindade da jovem, esta será conduzida ao limiar da casa paterna, e os habitantes de sua cidade apedrejarão até que morra, porque cometeu uma infâmia em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai. Assim, tirarás o mal do meio de ti” (Dt 22,20-21).  No entanto, o Evangelho de hoje nos narra: "José, que era justo não queria rejeitar Maria”(Mt 1,19). 

- De um lado, enquanto justo, obediente à lei de Moises, José tem o direito de denunciar a sua esposa para ser lapidada. De outro lado, José, também como justo, escuta o seu coração e o seu amor por Maria.

- José, o homem silencioso, o homem justo, pai e esposo ao exemplo do Pai eterno, decide pelo amor que aperfeiçoa a lei: E por isso decide rejeitar Maria em segredo.

- Talvez não tenhamos ainda considerado o bastante o quanto José foi importante para Jesus e para nós. Como verdadeiro Homem, Jesus aprendeu, como homem, de São José, o rosto de Deus. São José interpretou a passagem de Deuteronômio a partir de uma nova lei, a lei amor. Lei esta que freia a nossa agressão, a nossa vontade de apedrejar e nos chama a olhar o rosto do humano que aí está diante de nós. Acreditamos que São José ajudou a Jesus dizer aquelas palavras: “Toda lei e os profetas (referia-se a uma parte da Bíblia) consiste em amar a Deus e ao próximo”. Qual mentalidade os pais estão formando seus filhos?

- "Ela dará à luz um filho e tu o chamarás Jesus: ele salvará o seu povo de seus pecados ... será chamado Emmanuel" (Mt 1,21.23). 

- Ioshuá, Jesus, significa Javé salva... de nossos inimigos. Daí no tempo de Jesus tantas crianças recebiam tal nome. Havia uma sede de vencer os inimigos. E Jesus acata esta sede direcionando-a para uma verdade maior: quais os maiores inimigos? São pessoas? Não! Desesperança, vícios, taras hereditárias, paixões desmedidas, ódio e indiferença. São estas coisas os verdadeiros inimigos. Tais inimigos desfiguram os filhos de Deus, deixando-os com caras de feras, de bestas, selvagens, trogloditas, impiedosos, arrogantes, briguentos. Os inimigos não são estes ou aqueles, mas estas e aquelas realidades que habitam, infelizmente, o coração de tantos. Nosso Senhor, Ioshuá, vem ajudar-nos a vencer tais inimigos.

- A raiz do nome Jesus, Ioshuá, tem o significado de alargar, dilatar. Jesus veio para expandir tua vida, teu coração, teu íntimo, tua alma. 

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu (Fernando Pessoa).

- O anjo disse que Ele salva-nos do pecado. Um dia Jesus disse: “Vamos para águas mais profundas”. O pecado, de fato, nos diminui, nos deixa mesquinhos, reduzidos, mínimos, pois nos atrofia. O “Javé salva”, o Ioshuá, nos expande, nos leva para a vastidão (águas mais profundas). Que nosso coração, salvo por Jesus, se torne uma vastidão, tenha espaço para muitas pessoas.

- Enquanto Emmanuel, Deus-conosco, a provocaçao é à nós feita. Deixemos de lado nossos fantasmas de como seja Deus, pois Deus é e se mostrou conosco, portanto, a atitude agora é acolher, acatar, recepcioná-Lo assim como Ele veio. “Deus-conosco”: só o encontramos aonde ele se encontra, isto é, em meio a nós, na comunhão com os demais. Porém, insistimos em encontrá-Lo segundo nossos pensamentos, juízos, opiniões, caprichos. A Palavra, porém, deste domingo nos percuta, nos “fere” e nos convida a uma conversão: encontrá-Lo como Emmanuel, como “Deus-conosco”, em meio a nós, na comunidade, aonde estiver um ser humano nesta terra não importando em qual estado físico ou moral se encontre. 

Para os cristãos, acolher o olhar semelhante é acolher o “Deus-conosco”. Imaginemos Jesus olhando o malfeitor Pilatos, fazendo silêncio diante de Herodes e diante do ladrão que blasfemava ao seu lado no alto da cruz, abaixando-se para conversar com a mulher pega em fragrante adultério, tocando em leprosos purulentos.... “Deus-conosco!”. Deus será sempre conosco e enquanto estivermos entre nós. Que nossas comunidades possam “atraversar” hospitais, cárceres, lares, ruas, etc., encontrando, assim, o “Deus-conosco”. 

- Deus assumiu nossa carne. O que se esconde nessa carne? Deve ter algo grandioso escondido. Deus assumiu nossa carne. O que se esconde? O Emmanuel, o “Deus-conosco”. 

- E não te esqueças de ti: “Deus-conosco” também na tua história e vida. Acolhe Deus em ti.

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.