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Homilia Dominical / Frei João Santiago XIX Domingo do Tempo Comum - Ano C

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 15/10/2016 - 10:47

XIX Dom Comum

Lucas 18, 1-8

A oração e fé como armas de transformação e instauradoras do Reino

“Propôs-lhes Jesus uma parábola para mostrar que é necessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo.  2.Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus... 3.Na mesma cidade vivia também uma viúva que vinha com freqüência à sua presença para dizer-lhe: Faze-me justiça contra o meu adversário. .... porque esta viúva me importuna, far-lhe-ei justiça, senão ela não cessará de me molestar.6.Prosseguiu o Senhor: Ouvis o que diz este juiz injusto? 7.Por acaso não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que estão clamando por ele dia e noite? Porventura tardará em socorrê-los?  8.Digo-vos que em breve lhes fará justiça. Mas, quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a terra?

Símbolo da pessoa sem amparo neste mundo e símbolo da pessoa desprovida, indefesa, frágil, pobre, maltratada, a viúva representa os pobres e oprimidos que em geral pedem justiça, e ao mesmo tempo são tratados como malfeitores.

A viúva deste Evangelho aparece como uma mulher marcadamente cheia de um forte desejo de justiça.  Obstinada nos seus propósitos, sabendo muito bem o que quer e focada no objetivo. Mulher centrada e concentrada no seu alvo, não permite que abafem sua voz, mas, não se abatendo, reivindica seus direitos, mostra-se presente, atuante. Faz valer sua voz e quer ter vez.

Por quê ela não esmorecia? Certamente porque tinha fé Naquele: “É o pai dos órfãos e o protetor das viúvas, esse Deus que habita num templo santo” (Sl 68,6).

O cínico juiz. A parábola fala de um juiz injusto e de injustiças. Jesus falou dos escândalos e das consequências dos escândalos. De fato, quando o injusto se dá bem, a tentação é perder toda a esperança no triunfo do bem, e aí nasce um perigo: acreditar que não vale a pena ser bom, justo e fazer o bem. Quantos casos, por exemplo, de pessoas que traem o cônjuge depois de saber que foram traídas. Diante da aparente vitória da injustiça e do mal, a tentação é grande, isto é, a tentação de não mais acreditar no ser humano e nem na bondade e nem em Deus. Daí que énecessário orar sempre sem jamais deixar de fazê-lo.

O Evangelho também nos assegura que certamente Deus fará justiça, fará valer sua vontade, seu desejo. Ele é o Senhor da história. Este é o sentido da frase: “...em breve lhes fará justiça”. Não é agendamento, não se trata de marcar o dia da justiça, mas certeza de que mais cedo ou mais tarde a necessidade será satisfeita.  Ainda mais quando, como no caso da viúva, e não se trata de um pedido qualquer, mas de um pedido válido, evangélico e importante: “Faze-me justiça contra o meu adversário”. O Evangelho nos mostra que a batalha da fé envolve completamente o ser humano. Não se trata de fazer de Deus uma vareta mágica. Não se trata de convencer a Deus, mas o juiz injusto. A batalha não é pequena perante os desmandos do nosso mundo, a maldade de tantos corações, os sofrimentos existentes, etc. Uma menina procurava mudar de lugar o seu armário. Foi até ao pai e disse: “papai, já tentei de todas as maneiras e não consigo”. O pai respondeu: “você não pode desistir”. “Mas, papai, já tentei de todas as formas”, disse ela. E o pai: “já pediu ajuda para alguém?” A melhoria do ser humano, a paz diante de adversidades, o advento de uma família e cidades melhores, será sempre um trabalho conjunto de Deus e o homem. Um dia, diante de tantas cenas brutais vistas na televisão, um homem meio revoltado elevou esta oração a Deus: “Não fazes nada, ó Deus?”. Deus respondeu: “Sim, fiz você!”.

A parábola que a Igreja lê para nós hoje quer responder ao mal-estar dos bons que, por vezes, tem a impressão que Deus demora em fazer justiça. E afronta o problema acenando ao verdadeiro problema: a falta de adesão, por parte da humanidade: “...quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a terra?” Jesus recrimina nossa preguiça espiritual. Como é difícil mudar! Ter fé nas palavras de Jesus exige mudança. Uma mulher rezava todos os dias para que Deus lhe fizesse justiça e o marido parasse de espancá-la. Deus respondeu, no caso dela: “vai-te embora desta casa”. Será que ela terá fé e irá embora ou vai ficar rezando para que Deus mude o homem?

viúva tinha fé na justiça apesar de jamais ter ouvido que um cínico juiz tenha escutado uma pobre viúva. O verdadeiro milagre já tinha acontecido: dentro dela havia uma fome de justiça que não se esmorecia diante dos adversários e dificuldades. Rezar aqui é lutar sem baixar as armas. Que não sejamos desertores. Essa viúva nos chama a atenção pela sua beleza, força e dignidade. Nenhuma derrota parece abatê-la. Sem amparo de ninguém e indômita, mestra de oração, todo dia bate aquela porta fechada.

Bonhoeffer tem uma interessante interpretação sobre esta passagem quando diz: “Deus sempre cumpre suas promessas (e nem sempre nossos pedidos)”. Promessas tais como: “Eu vim para que tenhais vida em abundância. Não vos deixarei órfãos. Estarei convosco todos os dias até o final dos tempos. O Pai sabe do que precisais”. Deus está presente na nossa história, não estamos abandonados.

Buscai em primeiro lugar o Reino e tudo será consequência”. A oração é não se conformar de como estão as coisas. É o primeiro balbuciar de uma nova história que Deus gera em nós.
A oração alimenta a fé, a esperança e a caridade. A oração escava o meu interior e dá acesso à uma fonte desconhecida, se torna prazerosa e é navegando nessa fonte que nasce a certeza que se cumprirá o sonhado e o prometido.

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.