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Homilia Dominical / XXVIII Domingo do Tempo Comum - Ano C

Publicado por Frei João de Araújo Santiago | 08/10/2016 - 11:06

XXVIII Domingo do Tempo Comum - Ano C

Lucas 19, 11-19

Dez encontraram a saúde, um só encontrou Alguém.

Você pode reconhecer que deve um favor a alguém. Você pode até mesmo dar um presente em sinal de gratidão. Mas outra coisa é sentir-se envolvido, impelido a este alguém, vinculado.

 11. Ao entrar numa aldeia, vieram-lhe ao encontro dez leprosos, que pararam ao longe e elevaram a voz, clamando:       13. Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!    14. Jesus viu-os e disse-lhes: Ide, mostrai-vos ao sacerdote. E quando eles iam andando, ficaram curados.   15. Um deles, vendo-se curado, voltou, glorificando a Deus em alta voz.  16. Prostrou-se aos pés de Jesus e lhe agradecia. E era um samaritano. 17. Jesus lhe disse: Não ficaram curados todos os dez? Onde estão os outros nove?   18. Não se achou senão este estrangeiro que voltasse para agradecer a Deus?!  19. E acrescentou: Levanta-te e vai, tua fé te salvou.

Novamente o Evangelho nos apresenta uma Boa Notícia. A fé que afronta uma situação limite: pessoas com lepra, doença incurável, contagiosa e que segregava e rebaixava a pessoa à situação de impura e condenada. Os leprosos pedem misericórdia (eleyson) como que pedindo que Jesus tirasse deles a dor e a vergonha. O certo é que Jesus entra com sua presença magnânima e forte em nossos espaços e lugares, e entra com seu desejo de nos sanar, com sua Palavra. Não busquemos culpados, mas o fato é que os leprosos estão na aldeia: lugar que produz leprosos (bastaram sair da aldeia, ficaram curados). A lepra só estava expondo a putrefação do meio no qual vivemos. É por isso que hoje em dia dificilmente um psicólogo trata uma pessoa individualmente, mas procura envolver sempre os parentes mais próximos, pois o enfermo de alguma maneira também foi influenciado por aqueles com os quais convive.

Uma vez uma senhora me disse: “Como é ruim está falando com alguém e perceber que não nos entende ou não nos quer entender!”.  Os leprosos veem em Jesus um líder forte, alguém que os entende, uma força benfazeja que atrai os enfermos e diante do qual os enfermos sentem necessidade de serem curados. Jesus no versículo 14 apenas vendo a eles, manda-os aos sacerdotes. Parece ansioso por curá-los. “Apressemo-nos por amar, pois as pessoas passam rapidamente” (Twardow­ski).

Causou admiração a Jesus o fato de que só um dentre os dez tenha entendido o sentido do milagre. O milagre não é o máximo da religião. O máximo é agradecer e descobrir que a Palavra de Salvação (o desejo de salvar) vem desse mestre Jesus. Isso o samaritano descobriu. Salvação é deixar-se livrar da lepra acolhendo a Palavra.

“Levanta-te e vai, tua fé te salvou”, disse Jesus ao samaritano. Uma fé que salva. Que fé é essa?

Os outros seguiram as ordens e continuaram o seu caminho, a sua vida. O samaritano se deixou tocar e se envolver. A fé muda, o samaritano volta, muda de caminho e passa a louvar e agradecer a Deus aos pés de Jesus.  O Samaritano volta porque descobriu que a saúde não vem do reconhecimento legal por parte dos sacerdotes (a vigilância sanitária da época), não vem da observação da lei e dos ritos. A maior “saúde” advém quando abraçamos a fonte da vida que nos faz vivos e quando descobrimos que essa fonte é uma pessoa viva e que se pode amar tal pessoa: Jesus de Nazaré, o nosso Deus.  

A lepra, doença de pele que revela uma alma em dificuldade de relacionamento, de toque, de proximidade. Os dez foram curados, mas só um foi salvo, pois em Jesus encontrou um abraço, uma relação, uma reciprocidade, um retorno. Trata-se de ter uma relação viva com alguém. Quando uma pessoa livremente e como dom de si e como gratidão coloca à disposição de outra a própria vida, os sonhos, e o futuro, é porque encontrou alguém. O samaritano viveu tudo isso quando “... vendo-se curado, voltou, glorificando a Deus em alta voz. Prostrou-se aos pés de Jesus e lhe agradecia”. O samaritano ainda sentiu que fé é sentir-se importante e amado gratuitamente, e daqui deslindar um objetivo na vida.

Todos receberam o dom, mas um só apercebeu-se do movimento que nascia em sua alma. O olhar e o amor de Jesus (“Jesus viu-os”) pareciam-lhe renascer e ele deu o retorno, deu atenção a esse movimento da alma. Fé é a livre resposta do homem às cortesias de Deus. É entrar com contato com a mãe de todas as palavras religiosas “obrigado”. Dizer obrigado é um tipo de gratidão: é sentir-se vinculado, comprometido, envolvido em um sério relacionamento. É um não poder mais ficar indiferente. A fé é a resposta do homem a um encontro: ele me viu, ele me amou, ele me encontrou.

Agradecer é louvar. Talvez não percebemos imediatamente, mas se formos prestar atenção, louvar é também sentir que há um projeto, uma direção, um motivo e uma razão pela qual as coisas não acontecem por acaso. Dar graças a Deus no salmo 136 (bíblia hebraica) é despertar para o fato de que recebemos os bens, que Deus guia nosso destino, e assim, a vida tem um sentido. Tudo há um sentido e um destino. Só o ser humano é chamado a reconhecer as obras de Deus e saber o sentido do viver e do fazer. Portanto, saboreemos as dádivas e reconheçamos sua origem.

 

Mas por quê Jesus os envia aos sacerdotes?

A Palavra de Jesus é desafiadora e exige confiança. Naquelas condições ir aos sacerdotes que representavam a máxima autoridade do tempo, o juízo publico e social, era ir ao encontro do horror, do que maiormente temiam. Em outras palavras Jesus está dizendo: “Tenham confiança em si mesmos, não vos escondais”. Que injeção de confiança transmitia Jesus! Somos convidados a entrar no olho do furacão, afrontar o que tememos.

Jesus nos chama à ação, ao fazer. Os dez leprosos acreditaram que podiam ser curados e mudaram de situação.  Se tu não acreditas em algo melhor para ti... não te podes suceder nada de melhor. Quando eu digo que acredito, eu acredito de tal forma que me disponho a pagar o preço da minha fé, isto é: estou disposto a mudar?

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.