Tamanho do Texto:
A+
A-

I Domingo da Quaresma - ano A / Frei João Santiago

Publicado por Frei João de Araújo Santiago | 11/03/2017 - 12:59

I Dom Quaresma

Mateus 4, 1-11

Lembras do caminho que o Senhor teu Deus te fez percorrer nestes quarenta anos no deserto, para abater tua jactância e pôr-te a prova, para saber aquilo que estava no teu coração, se guardaria os seus mandamentos, ou não” (Dt 8, 2).

Quarenta dias significa um tempo necessário para que algo realmente aconteça.  Quaresma é tempo de caminhar, crescer, fatigar, trabalhar, chorar, suar... até alcançar uma nova meta. É tempo de superação. Se tu cumpres a tua quaresma a Páscoa se fará. Quanto tempo será necessário para que eu entre numa nova fase da vida? Não se pode prever. No entanto, importa entrar no deserto, se deixar levar pelo Espírito, fazer a própria quaresma.

 

Há tantas formas de entrar numa QuaresmaDescobrir um dia que o próprio filho não é perfeito é uma tentação a reagir com raiva ou é um chamado a reconhecer que não se é um educador perfeito. Proclamar de ter fé e depois abandonar a comunidade cristã porque lá nem tudo é perfeito é cair na tentação, e a imperfeição do irmão provou a minha fé.

Uma boa e santa Quaresma me levará:

admitir que não basto a mim mesmo (preciso da mão amiga);

- a dizer o que me engasga e também a procurar um novo equilíbrio com meu cônjuge;

- reconhecer que carrego comigo mágoas, raivas, ódios, desejos tenebrosos de vingança;

- entender que todo sintoma, todo mal-estar físico e emocional é uma oportunidade que a vida oferece para crescer;

- a descobrir o meu real valor; e que valho não porque sou útil, mas porque tenho um nome, porque existo;

- a progredir no conhecimento de Deus e de seu mistério;

- de chamar as coisas pelo nome; de aceitar ajuda quando precisar.

E você, diga a si mesmo aonde uma boa e santa Quaresma lhe levará.........

Na quaresma somos chamados ao combate espiritual. O jejum é exemplo disso. Jejum é parar de se alimentar com alimentos que disfarçam o verdadeiro alimento que a verdadeira fome pede. Exemplos de falsos alimentos: comilanças e bebedeiras para aplacar nossas carências; anestésicos em demasia para disfarçar o verdadeiro mal-estar; tagarelices que escondem um vazio tremendo; mil ocupações para evitar uma conversa franca; dispersos entre tantas informações (tv, radio, zap, face, etc.) só para não escutar a voz do coração; etc.  É um grande dom de Deus descobrir o que temos dentro de nós. Maior dom, porém, é tolerar o que vemos. O jejum, a caridade e a oração podem nos ajudar nesse caminho de salvação.

Em seguida, Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois, teve fome. O tentador aproximou-se dele e lhe disse: ‘Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães’”.

“Se eu posso isso ou aquilo, por que não fazê-lo? Se todos fazem, por que não fazê-lo? Importa tirar vantagem, assim pensa o demoníaco. A insinuação do demoníaco é que o homem “abrace” seus poucos ou muitos anos de vida como se nada houvesse de mais importante do que satisfação desenfreada e sem limites. Não é por acaso que assistimos os malefícios causados à natureza e ao nosso meio ambiente com tanta poluição seja ela sonora, visual e química que ofende a qualidade do ar, da água, dos alimentos, da terra. Não é por acaso que ainda vemos o tráfico de pessoas para prostituição e para retirada de órgãos. Não é por acaso que há tantos conflitos nas nações, acidente nas estradas e tanta mortandade em nossas cidades. O demônio tenta a Jesus para que leve uma vida que busque só a auto-satisfação não se importando com quem quer que seja.

Jesus respondeu: “Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (Dt 8,3)”. É como se Jesus nos dissesse: “Na vida, não terás tudo e tudo o que terás não te bastará. Para viver é preciso mais do que “pão”. Não se vive só de pão: há momentos na vida que precisamos mais do que isso. Como conseguirá viver alguém que perdeu seu grande amor? Com que nos consolamos quando perdemos um ente querido? Um pai só alimenta ao seu filho com pão? E o amor? E o carinho? E a companhia? Da boca de Deus, de dentro dEle, sai para nós a Palavra, a Vida, seu Espírito que nos dá a força de afrontar aquilo que se deve afrontar. Na vida, há perdas, há injustiças, há derrocadas e tombos que nenhum “pão” pode consolar. “Não só de pão vive o homem”! E você vive do quê?

 

O demônio transportou-o à Cidade Santa, colocou-o no ponto mais alto do templo e disse-lhe: ‘Se és Filho de Deus, lança-te abaixo, pois está escrito: Ele deu a seus anjos ordens a teu respeito; proteger-te-ão com as mãos, com cuidado, para não machucares o teu pé em alguma pedra’” (Sl 90,11s).

Já que Jesus tinha se saído tão bem na primeira tentação, tinha mostrado tanta confiança e espera em Deus, o diabo, então, diz-lhe de confiantemente se jogar. E mais: induz a Jesus de se apresentar como um Messias ao gosto popular: milagreiro, prodigioso, fantástico, pois, afinal, o povo gosta de eventos maravilhosos, espetaculares. O povo gosta de admirar quem promete mundos e fundos.

Jesus se recusa. Sabia ele que quando somos o que os outros querem, perdemos a nós mesmos.

- muitas vezes para agradar ou para receber aplausos ou vantagens, alguém pode calar a própria consciência;

- quando se procura sempre a aprovação do superior ou do chefe certamente se perderá a própria liberdade;

- quando se evita o diálogo mantendo-se sempre calado perante os pais a tendência é ficar para sempre uma criança que não cresceu;

- Caso Jesus cedesse e agradasse à multidão, certamente teria perdido a própria missão e a própria estrada.

Disse-lhe Jesus: ‘Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus (Dt 6,16)’”. Infelizmente pode acontecer: quando o desespero cai sobre nós somos tentados a tentar a Deus, isto é, pedi uma prova de que Ele realmente está presente, é eficaz, nos ama e nos acompanha. Não coloquemos Deus à prova (vou me jogar para ver se Deus é Deus mesmo e me ampara), basta-nos a certeza de seu amor por nós. O Demoníaco insinua essa dúvida. O Diabo insinua na mente das pessoas que se as coisas não acontecem como foram pedidas a Deus, Deus não existe. Ora, se tu pensas de ensinar a Deus, não deixas de cair na velha tentação: “vós sereis como deuses” (Gn 3, 5).

O demônio transportou-o uma vez mais, a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória, e disse-lhe: ‘Dar-te-ei tudo isto se, prostrando-te diante de mim, me adorares’. Respondeu-lhe Jesus: “Para trás, Satanás, pois está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (Dt 6,13).

Na terceira tentação, o diabo propõe a Jesus um reino por conquistar e dominar. Só que Nosso Senhor entende que a vida de um homem é para a felicidade e que o caminho da felicidade é lavar aos pés daquela outra pessoa que se está diante (Jo 13). Viver sugando, não promovendo o outro, é atitude demoníaca. É demoníaco o líder que se presta a querer tomar nas suas mãos a vida do outro; e é demoníaco a pessoa se deixar dominar por figuras assim.

 

A Serpente: retrato do demoníaco. As cobras em geral mudam a sua pele periodicamente (em um processo conhecido como ecdise ou muda). Por isso se tornaram símbolo de saúde e é presente no brasão da medicina (o bastão de Esculápio). Mudança de pele, símbolo de renovação, juventude, vitória sobre o mal, sobre a doença, sobre a enfermidade e a velhice. Símbolo do poder e de toda vitalidade. Não é isso o que os homens desejam e querem? Pois é.... a serpente insinua tudo isso e depois.... te mata. Portanto, a “serpente” ficou como símbolo do Maligno, pois mente, insinua dar a vida e dar a morte. Insinua a felicidade e gera a tristeza.  

 

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.