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II Domingo da Quaresma - ano A / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 11/03/2017 - 13:03

II Domingo da Quaresma –  A Transfiguração

O Evangelho deste domingo é Mateus 17, 1-9: “Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou a um lugar à parte, a uma alta montanha. E se transfigurou diante deles. ......   E saiu da nuvem uma voz que dizia: Este é o meu amado Filho; a ele ouvi...os discípulos tiveram medo...”.

Por vezes é preciso acalentar: “A dor vai passar”; “Depois da tempestade vem a bonança”; “O sucesso é só depois do suor, das lágrimas e do sangue”. Jesus tinha anunciado que seria preso e morto (cf. Mt 16, 21ss). Os discípulos temem. Jesus, para encorajá-los, mostra-lhes sua glória, seu poder, como que dizendo: “Não temam a cruz, pois nesta, na cruz, há uma glória, uma beleza”!

Numa alta montanha”. Muitas vezes um jovem não entende um idoso e tantas vezes um idoso não entende um jovem. Cada pessoa vê, julga e pensa de acordo com sua idade, seu tempo, seus interesses e seu cargo. A mãe pensa como uma mãe e o filho pensa como um filho. E se pudéssemos ver, julgar e pensar sobre as coisas, acontecimentos da vida e sobre pessoas segundo o ponto de vista de Deus? Jesus, neste domingo, nos convida a isso: que subamos a montanha, que deixemos nossa miopia espiritual e adentremos no mistério da cruz, no mistério da transfiguração, melhor, no mistério da metamorfose.

Lá se transfigurou na presença deles”. Transfigurou-se ou metamorfoseou-se é um convite a aprendermos a olhar e considerar as pessoas, a vida, para além da mera aparência. Jesus, naquele dia, mandou a seguinte mensagem a Pedro, Tiago e João: eu assumi a minha vida como uma prestação amorosa de serviço (a cruz) e por isso eu tenho o rosto iluminado como o sol e até as minhas vestes são resplandecentes.

Jesus, também, mandou outra mensagem: nem tudo que brilha é ouro. Há um brilho aparente marcado pela jactância, pelo esnobismo, pela força bruta que fere e mata. Ao transfigurar-se junto aos três apóstolos, Jesus pretende mostrar-lhes um verdadeiro brilho. Obviamente, como diz o poeta, nascemos para brilhar, e todos nós desejamos um rosto resplandecente, irradiante, realizado, brilhante. Jesus nos mostra o caminho para o brilho maior. A transfiguração é para isso, para mostra aos discípulos que o brilho maior e verdadeiro está da parte de quem assume a cruz, a vida como uma prestação amorosa de serviço. Tal tarefa não foi fácil, pois havia resistência (Pedro não aceitou - cf. Mt 16, 22). De fato disse: “Afasta-te Satanás! Tu me fazes tropeçar; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!”. Esperavam que Jesus fosse como Elias e como Moisés. Homens que levaram adiante um projeto justiceiro, procurando banir de Israel o infrator. Elias tinha matado 450 falsos sacerdotes (1 Re 18,20-46) e Moisés só de uma vez ordenou a morte de 3.000 homens (Ex. 32, 28).

- O caminho para a transfiguração, para o brilho maior é a fidelidade em viver a própria missão, a própria jornada em ser aquilo para o qual fomos criados. Abraçar a própria profecia dá uma vitalidade e uma força que não se pagam. A própria profecia, a felicidade de cada um, na verdade, é um dom e uma tarefa. É um dom, porque cada um recebeu um chamado. Então, sou chamado a me curvar a esse chamado. De outra lado, esse chamado irá provocar-me e assim, dando meu “sim”, poderei fazer emergir em mim uma coisa que não conheço: a minha originalidade, o meu rosto resplandecente. “Ao vencedor darei o maná escondido, bem como lhe darei uma pedra branca, e sobre essa pedra branca estará grafado um novo nome, o qual ninguém conhece, a não ser aquele que o recebe” (Ap 2, 17). Um dia Jesus falou de sua própria profecia: “Desde então, Jesus começou a manifestar a seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia” (Mt 16, 21).  Que todos nós, subindo a montanha, conhecendo o pensamento de Deus e realizando a nossa missão, a nossa cruz, possamos ir nos transfigurando, recebendo a nossa pedra branca.                         

- Jesus, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, abraçou a todos, bons e maus, judeus e pagãos, fazendo-se ele mesmo a expiação de todos. “Carregou sobre si a iniquidade de todos”. É o cordeiro no meio de lobos vorazes. A cruz é o símbolo disso. Os discípulos não conseguiram entender a cruz, pois esta parece significar puro fracasso e a vitória da maldade, do ódio e da injustiça nesse mundo. E quem vai querer dar a sua vida por um “mestre” que pede de carregar a cruz?

- Para entender a cruz se faz necessário subir ao monte e ali rezar e sofrer uma transfiguração (e ali saber que o amor é mais forte do que o ódio, e que a vida é mais forte que a morte). Só assim poder-se-á entrar no mundo do divino e chegar a inserir a cruz como parte do próprio cotidiano. A cruz é quando eu atado e sem poder fazer nada e sem entendimento do que está acontecendo, calo-me e espero confiantemente em Deus. A cruz é puro espaço do divino, e só “entende” quem sobe ao monte e lá reza. Pedro foge da cruz, Jesus afronta a cruz. De onde se foge quando se foge da cruz?

- Jesus aparece radiante, belo, todo transfigurado. Isso significa que o ser humano que faz de sua vida uma doação é isso mesmo: belo, radiante e transfigurado. O ato de amor nunca é feio. O gesto de uma enfermeira que cuida de um paciente com esmero jamais será considerado um gesto feio: o amor sempre é belo, radiante, luminoso. Por isso se diz que o segredo da morte de Cristo é a Transfiguração. Aquele morto ali na cruz era glorioso. Ali estava pendurado um homem verdadeiro: isso é belo e glorioso. Um mundo real brilhante se esconde ao nosso lado, dentro de nós também, e não vemos, pois fugimos.

- Enquanto o sangue circular não há infarto, não há morte. Infarto é sangue que não circula. Na transfiguração, saiu vida, luz, saiu glória do corpo de Jesus. No Getsêmani saiu sangue dos poros (do corpo) de Jesus. “O sangue a Deus pertence”. Sangue é vida divina, é a vida a nós doada e que é chamada a se doar, a continuar a ciranda da vida dando vida a quem precisar. Viver só para si é mortal, é “infartante”. Abraçar a cruz seria dar de volta o sangue a mim doado, seria viver. Quem assume a cruz, a vida como doação – assim como Jesus - assume porque se vê “dominado” pelo desejo de viver. Na verdade, tudo indica que não tememos a cruz, mas tememos, sim, o chamado, a voz divina, a Palavra, a vida, o amor, a entrega sem reservas. E fugindo dessa grandiosidade que seria viver, amar e brilhar, terminamos a vida como num labirinto de medos, medo de tudo, ou derrotados com em um “xeque-mate”. 

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.