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III Domingo da Quaresma - ano A / Frei João Santiago

Publicado por Frei José Lázaro Oliveira Nunes | 18/03/2017 - 17:44

III Dom Quaresma João 4, 5-42

O cântaro ou a Água viva.

Jesus chegou a uma localidade chamada Sicar. Ali havia o poço de Jacó. E Jesus, fatigado da viagem, sentou-se à beira do poço. Era por volta do meio-dia.  Veio uma mulher da Samaria tirar água. Pediu-lhe Jesus: “Dá-me de beber”. Aquela samaritana lhe disse: “Sendo tu judeu, como pedes de beber a mim, que sou samaritana!”  Respondeu-lhe Jesus: “Se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e ele te daria uma água viva”. E a Mulher disse: “És, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu e também os seus filhos e os seus rebanhos? Respondeu-lhe Jesus: “Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede, mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna”.  A mulher suplicou: “Senhor, dá-me desta água, para eu já não ter sede nem vir aqui tirá-la!”. Disse-lhe Jesus: “Vai, chama teu marido e volta cá”. A mulher respondeu: “Não tenho marido”. Disse Jesus: “Tens razão em dizer que não tens marido. Tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu. Nisto disseste a verdade”. Jesus disse: “Vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, e são esses adoradores que o Pai deseja”. A mulher deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens: “Vinde e vede um homem que me contou tudo o que tenho feito. Não seria ele, porventura, o Cristo?” Entretanto, os discípulos lhe pediam: “Mestre, come”. Mas ele lhes disse: “Tenho um alimento para comer que vós não conheceis”.  Disse-lhes Jesus: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra”.

Jesus, pedindo água à mulher, revela que tinha sede, tinha sede dela, sede da precisão, da necessidade dela, sede de nós. Jesus, a revelação de Deus para nós, revela, nessa passagem, que nosso Deus tem sede de nossa sede, quer nossa carência, quer ser nosso Deus, quer brilhar em nossa escuridão. Afinal, Deus, tem desejo do nosso desejo, quer nossa aspiração e respiração. “Quer ser nosso Deus”: aqui entendemos a frase de São Francisco “Meu Deus e Tudo”. Quem é seu Deus? Em um outro momento Jesus dirá “tenho sede”: no alto da cruz terá sede de nos amar, de nos salvar, de beber nossa humanidade, delitos e pecados.

- O encontro entre Jesus e a Samaritana aconteceu diante do poço. O poço na Bíblia é lugar de encontros de amores: Rebeca encontra o chefe dos servos de Abraão e é indicada como esposa de Isac; Jacó encontra Raquel; Moisés encontra Séfora. Deus, em Jesus Cristo, apresenta-se como o verdadeiro esposo que quer amar e ser amado pela sua esposa (cada rosto humano), quer fazer aliança, entrar em núpcias e “juras” de amor eterno. Apresentar Deus como “esposo” da humanidade é uma grande profecia para nosso tempo, pois cada vez mais se mercantiliza “Deus”, o sagrado se torna um produto oferecido nas igrejas. De um lado temos os funcionários do sagrado (os ministros religiosos) e de outro lado temos multidões querem esse serviço, tentando, assim, um “deus” ao próprio gosto e ao próprio dispor. Amar a Deus é outra coisa!“Ainda que a figueira não floresça, nem haja uvas nas videiras; mesmo falhando toda a safra de olivas, e as lavouras não produzam mantimento; as ovelhas sejam seqüestradas do aprisco, e o gado morra nos currais, eu, todavia, me alegrarei no SENHOR, e exultarei no Deus da minha salvação!” (Habacuc 3, 17).

- “Se conhecesses o dom de Deus para ti, e quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente pedirias tu mesma e ele te daria uma água viva. Lembro de um monge budista que ao saber que Deus tinha vindo entre nós em Jesus de Nazaré, disse a um cristão: “Mas por que vocês cristãos não disseram isso antes! Lá se vão mais de 2.000 anos que isso aconteceu e vocês negando tal maravilha para nós....”. Que eu e você, pelos menos, saibamos que há, sim, uma delícia “por aí”; há “algo no ar” que não tivemos ainda acesso. No dia que tivermos acesso, diremos: “Ah! Eu não sabia que...”; Ah! Se eu soubesse antes....”.

Certamente tais palavras de Jesus atiçou e despertou o coração daquela mulher. Jesus não ficou apontando o dedo para seus pecados, mas convidou-a para águas mais profundas, falou de uma beleza ainda escondida e desconhecida para ela: “Se conhecesses o dom de Deus para ti.....”.

  - A troca. Jesus pede água à mulher, pois tem sede. A criatura humana mata a sede de Deus, pois a sede maior de Deus somos nós mesmos, pois Deus é amor e é próprio do amor amar, sair de si para ir ao encontro. Deus se satisfaz, isto é, o amor entre criatura e criador acontece. O maior amor do mundo (uma água viva, o Espírito que flui eternamente e irresistivelmente, pois o amor é vivo, é Deus pulsando) é dado à criatura. Jesus promete o contato com a vida, com o eterno.

- “Vai, chama teu marido e volta cá”. A mulher respondeu: “Não tenho marido”. Disse Jesus: “Tens razão em dizer que não tens marido. Tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu”.  Para se viver neste mundo, e não meramente sobreviver, se faz necessário fortes razões. A quê te dedicas? A quem amas?  Idolos? Coisas? És uma “esposa” perdida? Alguém no deserto do amor? A mulher deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens: “Vinde e vede um homem que me contou tudo o que tenho feito”. Deixar o cântaro, deixar os arranjos de sobrevivência. Quais teus arranhos de sobrevivência? Um Deus – o verdadeiro amante – que “me contou tudo”, que acampou em mim. Aquela mulher, naquele dia, tornou-se uma fonte, o coração de pedra escondia uma fonte, escondia Deus, não precisou mais de cântaro nenhum.

Umberto Eco, na obra “O nome da rosa”, apresenta uma cena instigante. Uma moça pobre e miserável que se vendia em troca de algo por comer, um dia encontra alguém que ama. Em uma cena, após encontrar com aquele que verdadeiramente amava, a moça vai embora “esquecendo” um pacote. No pacote havia carne bovina. Moral da história: deixou o cântaro. “O amor é forte como a morte” (Cântico dos Cânticos).

Beber água viva: quem pode tolerar tal tipo de água? Que grande sede se deve haver para beber tanta água. Que tanta sofreguidão se deve provar para sorver tanta água viva. Pesado sono e grandes sonhos só um grande amor para acordá-los. Certamente a sede – amor - de Jesus não é pouca (sentirá sede de novo no alto da cruz e beberá até a amargura da humanidade - vinagre). Vamos à sede de Jesus e não estacionemos nos pequenos goles que a vida cômoda oferece.

- É verdade que os cônjuges se amam, que os amigos se amam, que há amor entre pais e filhos. Que tais amores sejam assim tão sadios que não se tornem idolátricos, mas nos estimulem cada vez mais ao amor do nosso Deus, Fonte de todo amor.

As regras e proibições servem, mas não mudam uma vida. A mulher conhecia a lei e o pecado do adultério. A mulher com o cântaro – ensinamentos, práticas, devoções, jejuns – buscava remediar a vida. Ora, só um encontro muda uma vida. Ela encontrou alguém que falou-lhe como ninguém: “disse tudo de mim”, “acampou em mim”. Ela encontrou alguém que tinha sede da sede dela por ele; alguém que deseja nosso desejo.


Os verdadeiros adoradores que o Pai deseja: cristãos que tenham sede dEle, que se sentam na mureta do poço e bebam tudo que ele tenha a oferecer, toda sua palavra. “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito; abre bem a tua boca, e te sacio”(Salmo 80); “Como uma corça suspira pelas correntes das águas, assim a minha alma suspira por ti, ó Deus” (Salmo 42).

- Jesus cansado, faminto e sedento vai até o poço. Aqui temos a fadiga de Deus por encontrar o homem. É próprio do Amor a saída de si e a busca de comunhão. Por isso o Criador plasmou o universo, a terra, os animais e os seres espirituais. Ao pedir água, Jesus expressa a encarnação, o quanto nosso Deus quis experimentar o mundo humano, as relações humanas; o quanto quis olhar, ouvir, conversar com os humanos. Não desprezemos os nossos encontros e nossas relações interpessoais. Até Deus quis ser humano, encontrar pessoas. Por que tanta agressão, violência, inveja, difamação, desprezo e indiferença?     Foi encontrando, entrando em diálogo e em simpatia com aquela mulher que Jesus encontrou uma fé medonha em terra de idolatria e adultério (Samaria)Já a Samaritana foi capaz de deixa o cântaro e de se tornar uma anunciadora dEle. Foi entrando em conversas com Jesus que aquela mulher encontrou o Esperado de todo coração.

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.