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XII Domingo do Tempo Comum – Ano C

Publicado por Frei João de Araújo Santiago | 18/06/2016 - 13:05

XII Domingo do Tempo Comum – Ano C (Evangelho – Lc 9,18-24)

Um dia, Jesus orava sozinho. A essência da oração de Jesus temos em Mc 14, 36: “Abba, Pai! Faça-se tua vontade”. A essência é a confiança total e sem reservas em Deus, seu Pai.  Quando diante das contradições, Jesus rezava, não para se livrar, mas para fazer a vontade do Pai. Dag Hammarskjold dizia: rezar é dizer “obrigado” por tudo que houve, e dizer “sim” ao que virá. Os discípulos de dois mestres famosos encontraram-se juntos. Então os discípulos de um dos dois mestres começaram a listar a incrível série de milagres, prodígios e curas que seu mestre fazia. No final eles perguntaram: "E o seu mestre quais milagres realiza?". E o outro grupo respondeu: "Para vocês é milagre se Deus faz a vontade de um homem; para nós é milagre se um homem faz a vontade de Deus”.

Certa feita Jesus disse de entrar no quarto, fechar a porta, para pôr-se em oração. A melhor tradução seria entrar em uma espécie de dispensa. A dispensa da época, depois de fechada a porta, ficava completamente às escuras e silenciosa. Ali só haveria uma luz: a luz do alto. E só uma voz: a do Senhor. Jesus nos convida a uma radicalidade tremenda em busca de ouvir a voz do Alto e a Luz do Céu. Façamos um sério exame e por certo daremos conta que na verdade vivemos de outras luzes e de outras vozes (vozes e luzes da vaidade, do glamour, da ostentação, da saúde, da honra, da própria justiça, do poder, do dinheiro, do prazer, da própria agressão). Jesus nos convida a acessar a vida do Eterno em nós, a vida verdadeira. Certamente que uma vida de oração tal como nos indica Jesus mudaria muito a cada um de nós.

Quem dizem as multidões que Eu sou?

Jesus se diferencia de Elias e outros. Primeiro porque a reação de Jesus perante o mal não teve nenhuma marca de agressão como teve Elias e outros. Segundo porque Jesus é o esperado e não o precursor do esperado (havia a lenda de que Elias viria antes do Messias e Jesus identificado como Elias não passaria de um precursor).

E vós, quem dizeis que Eu sou?

Ao proibir que Pedro anuncie que ele seja o Messias, Jesus usa o mesmo verbo que usava para expulsar demônios. Significa que em Pedro e na comunidade havia uma concepção do Messias que não provinha de Deus. Basicamente era a ideia de um Messias do triunfo esmagador sobre os inimigos. Um triunfo baseado na vingança sobre os injustos e poderosos.

Quem é Deus para mim? O que Deus fez por mim?

Podemos imaginar alguns personagens respondendo.

Zaqueu (19,1-10): Ele curou meu complexo de inferioridade e preencheu meu o coração vazio de tantos bens;

O cego de Jericó (18, 35-43): Ele curou aquele meu fechamento ao amor, à alegria, à compaixão. Agora vejo que a vida é bonita;

A mulher encurvada (13,10-17): Ele me livrou daquele mal que me fazia carregar os problemas alheios. Ele me livrou do complexo de culpa, dos escrúpulos. Eu não vivia, só vegetava;

A hemorroísa (9,43-48): Ele curou minha identidade feminina;

A filha de Jairo (9,40-56): Com Ele perdi o medo de crescer. Com Ele deixei de sentir ódio aos meus pais;

Maria Madalena (8.2):  Ele me acolheu e o encontrei um amparo neste mudo. Ele curou minha loucura, meu desespero.

E a você o que Senhor fez?

O Filho do homem sofrerá muito ... e ressuscitará ao terceiro dia». Depois, dirigindo-Se a todos, disse: “Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-Me. Pois quem quiser salvar a sua vida, há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, salvá-la-á”.

Cruz. A “cruz” era a pena capital para quem ousava afrontar um mundo marcado pela escravidão e pela força das armas. Ora, o Filho do Homem pregando valores como acolhida, igualdade, mansidão, partilha, etc. desmontava toda a mentalidade mundana que mantinha e sustentava aquele mundo. Jesus anuncia um mundo alternativo ao mundo do pecado. Inexoravelmente o cristão assumirá a cruz, pois é contrário ao mundo pecador marcado pelo “toma-lá-da-cá”, pela mentira, pela calúnia, etc. Temos a cruz de cada dia quando a cada dia procuramos ser fiel ao cônjuge, à família; quando procuramos ser honestos, verdadeiros, etc. Por vezes também é a solidão quando preferimos a fidelidade a Deus mais do que ao mal, ao pecado.

Caso você julgue que alguém seja importante para você. Isso é só um parecer. Mas a prova virá quando você souber até quanto poderá sofrer por ele ou ela. Em outras palavras, o sofrimento prova o quanto algo ou alguém vale para você. Escolhendo a verdade e o bem pode ser que venham adversidades (cruz) e neste momento a pessoa será chamada a decidir se prefere deixar o bem e a verdade de lado ou se ...

O sofrimento pode ter sentido. Veja-se o sofrimento advindo pelas vezes nas quais você teve que aceitar incompreensões por ter tomado a decisão justa e correta. Veja-se o sofrimento advindo quando tentaram destruir a você por inveja do bem que você fez. O sofrimento pode vir também quando você precisa mudar o modo de pensar e deixar certas atitudes e assumir outras.

Jesus se diz “Filho do Homem”. Um Messias “Filho do Homem”, isto é, um Messias servidor da humanidade. “Filho do Homem” é o modelo do verdadeiro humano, do verdadeiro ser humano. O mundo tem a marca de seus habitantes, homens que formam um mundo marcadamente agressivo, impiedoso, nacionalista, corporativista, etc. Diante de um ser humano que mais parece uma fera selvagem (O homem é o lobo do homem) temos o Filho do Homem. Tal Filho será atacado pelas feras selvagens, pois tal Filho mostra uma humanidade nova.

Jesus lança a proposta: “Se alguém quiser vir comigo...”. Em outras palavras, qual ser humano você quer ser? Um “Homo Fera” ou um “Filho do Homem”?

Jesus também fala do retorno que se tem quando se leva a vida pautando o modelo do Filho do Homem: não perderá a vida, ressurgirá. Isto é: o melhor investimento a fazer com os anos que se passam de nossas vidas é usá-los em serviço. Neste sentido podemos nos perguntar se as pessoas que passaram por nós saíram enriquecidas por terem convivido conosco? Qual legado deixo por onde passo?

Jesus também fala de um fracasso, de uma vida falida: a vida que se acomoda. Temos que fazer um bom investimento com a vida. O Evangelho de hoje diz que podemos investir na vida procurando salvá-la (economizá-la). Tal investimento não trará muito lucro, terá investido em coisas sem futuro; a vida que traiu a si mesma quando traiu o bem, a verdade, o seguimento de Jesus.

Renunciar é reagir a algo que nos leva à morte interna.  Por vezes faz bem renunciar à pressa, à agitação e encarar o silêncio que falará tanto. Fazer uma renúncia, combatendo o gosto da fofoca e do juízo sobre o outro.

A lei do comodismo nos atola em nossa própria “mente” (a própria vida significa a própria psique, mente). Você nunca pensou que pode estar redondamente errado? Quando nos fazemos tal pergunta, estamos querendo acordar, sair da própria escravidão mental, renunciar a uma vida mesquinha, a uma mente míope. Trata-se de pôr-se em questão. "Que lucro o homem terá se ganhar o mundo inteiro e depois perde a si mesmo?" (cf. 9,25). “Deixa quieto” é uma frase terrível. Podemos preferir morrer por dentro do que mudar:

- A um homem foi ensinado que não deveria jamais chorar e nem mesmo pedir ajuda a ninguém. Um dia ele se negou a esse ensinamento e.... chorou e pediu ajuda;

- O seu chefe ou o seu colega de trabalho se aproveita de você. É difícil dizer: “agora basta”. Jesus pede isso também. 

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.