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XIII Semana do Tempo Comum – Ano C / Por Frei João Santiago

Publicado por Frei João de Araújo Santiago | 25/06/2016 - 09:13

XIII Semana do Tempo Comum – Ano C

A Palavra de Jesus nos alerta a não largar o nosso sonho maior. O prazer quase sempre é uma barreira ao êxtase da vida. O sonho maior é esse êxtase, o arrebatamento: sofrer a ação de Deus, ser glorificado. (Lc 9, 51-62)

51. Aproximando-se o tempo em que Jesus devia ser arrebatado deste mundo, ele resolveu dirigir-se a Jerusalém.  52.Enviou diante de si mensageiros que, tendo partido, entraram em uma povoação dos samaritanos para lhe arranjar pousada. 53.Mas não o receberam, por ele dar mostras de que ia para Jerusalém.  54.Vendo isto, Tiago e João disseram: Senhor, queres que mandemos que desça fogo do céu e os consuma?  55.Jesus voltou-se e repreendeu-os severamente. [Não sabeis de que espírito sois animados.  56.O Filho do Homem não veio para perder as vidas dos homens, mas para salvá-las.]  57.Enquanto caminhavam, um homem lhe disse: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que vás.  58.Jesus replicou-lhe: As raposas têm covas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.  59.A outro disse: Segue-me. Mas ele pediu: Senhor, permite-me ir primeiro enterrar meu pai.  60.Mas Jesus disse-lhe: Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, porém, vai e anuncia o Reino de Deus.  61.Um outro ainda lhe falou: Senhor, seguir-te-ei, mas permite primeiro que me despeça dos que estão em casa.  62.Mas Jesus disse-lhe: Aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus.

            O Evangelho de hoje nos fala de “arrebatamento”, de elevação, de êxtase:  “Aproximando-se o tempo em que Jesus devia ser arrebatado deste mundo, ele resolveu dirigir-se a Jerusalém”.

            Jesus poderia se ater muito mais no que poderia acontecer com ele em Jerusalém. Mas, não! Ele considerou maior o que palpitava em seu coração, isto é, o desejo de fazer acontecer o seu sonho, o chamado do Pai, o ofertar a vida até as últimas consequências. Sabia ele dos desafios a afrontar e por isso “fechou a cara, endureceu o rosto, tomou a firme decisão”. Afinal, tratava de uma decisão espinhosa que lembra Ezequiel: “Pois bem!, tornarei o teu semblante tão endurecido quanto o deles; vou dar a teu rosto a rigidez do diamante, que é mais resistente que a rocha. Não os temas, pois, e não te deixes amedrontar por causa deles, pois são uma raça de recalcitrantes” (Ez 3, 8-9). O atleta, antes da competição, precisa se concentrar, reunir suas forças. Assim também nós, antes de uma decisão importante. Já Jesus dizia: “A carne é fraca ... orai para não cairdes em tentação”.

            A Palavra nos convoca para irmos à Jerusalém. Direta ou indiretamente buscamos momentos de êxtase, de alegria intensa, de júbilo, de regozijo e de uma paz que não seja deste mundo. Mas, também é verdade, por vezes não temos a tenacidade necessária para alcançar Jerusalém, a cidade do grande Rei, o reino da Paz.

            Jesus não se deteve. Quando os samaritanos não quiseram aceitá-lo, os discípulos lembraram-se de Elias e de como esse profeta fulminou os enviados do rei Acaz. Mas Jesus não se deteve: “Jesus voltou-se e repreendeu-os severamente. ‘Não sabeis de que espírito sois animados. O Filho do Homem não veio para perder a vida dos homens, mas para salvá-las’. Foram então para outra povoação”.

            É ilusão pensar que em nosso caminho sempre seremos compreendidos. Amar, por vezes, é aceitar que não nos querem. Não te querem? Prossiga o teu caminho! Jesus não se deteve: não caiu na armadilha do orgulho ferido diante de uma recusa.

Enquanto caminhavam, um homem lhe disse: Senhor, seguir-te-ei para onde quer que vás. Jesus replicou-lhe: As raposas têm covas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. A raposa e pássaro, símbolos da insignificância e inutilidade. Jesus aqui revela que quem quiser segui-lo deve evitar as ilusões de um prestígio mundano, de um reconhecimento nefasto, de uma glória pervertida, de um repouso criminoso. Aqui parece que Jesus, desesperadamente, luta para manter-se humano, muito humano, muito frágil, sem ninho e sem nenhuma proteção. Jesus se protege, não tendo nada, para não perder o seu Pai que desde Jerusalém o chama. Se Jesus se protegesse com alguma coisa, por certo ficaria protegido e assim ficaria acuado vendo-se protegido. Importa não se contentar e nem se proteger com nada que não seja o Pai Celeste. Jesus se protege sem nenhuma proteção (ninho, toca). É como quando um apaixonado não deixa ninguém ocupar o espaço da pessoa amada. Jesus nos convida, para o desejo se manter vivo, a ter cuidado com as complacências deletérias. Quanta falta de afeto trocada por drogas! Prefere-se mais a droga do que ir em busca do afeto perdido. Quanta falta de amor trocada por prostituição! Prefere-se mais o fácil contato carnal do que o encontro verdadeiro entre pessoas. Quanta falta de segurança trocada por dinheiro! Prefere-se mais a ilusão de que tudo irá bem bastando ter dinheiro do que a confiança em Deus Senhor do céu e da terra. Quanta falta de sentido trocado por poder! Prefere-se mais preencher um coração vazio com o poder do que passar de coração vazio para coração amante e misericordioso.

            Seguir a Jesus, segundo Lucas, é fugir das falsas expectativas: nada de tocas, de subterfúgios, de ninho, de complacências mesquinhas. Um casal cristão, por exemplo, não pode pensar que baste somente o amor entre eles para tudo dar certo. O casal precisa se abrir à comunidade e contar com as bênçãos de Deus.  É ilusão pensar que o que acontecem com os outros não possam acontecer conosco. É Ilusão pensar que baste trocar de pessoa e de lugar para a felicidade acontecer. A ilusão nos detém e nos afoga, mais cedo ou mais tarde. Urge, portanto, não reclinar a cabeça, mas de cabeça erguida continuar o caminho desconhecido por nós e conhecido pelo Pai.

            Jesus, a outro disse: “Segue-me”. Mas ele pediu: “Senhor, permite-me ir primeiro enterrar meu pai”. Mas Jesus disse-lhe: “Deixa que os mortos enterrem seus mortos; tu, porém, vai e anuncia o Reino de Deus”.   Esta resposta de Jesus causa perplexidade, é para deixar o ouvinte de boca aberta sem nada entender. Ora, enterrar o pai era a obrigação mais importante e sagrada de um filho em relação ao seu pai. Naquela ocasião o filho passava a ser o herdeiro, o continuador do nome do pai. Ali se honrava o pai.  Jesus com estas palavras convidava os seus ouvintes ao inaudito, a começarem a fazer algo na vida que nenhum outro faria. Somos únicos e cada um de nós tem uma profecia a realizar.

Quando um rabino morreu, seu filho assumiu o seu lugar. Depois de alguns dias os senhores da sinagoga disseram a ele: “tu não parece com teu pai”. E ele respondeu: “Ao contrário, meu pai não imitava a ninguém e eu também não”.

            Vamos à Jerusalém, lá tem a nossa cruz e tem a nossa gloria, a tua única cruz e a tua única gloria. Infelizmente por preguiça espiritual ficamos enterrando os mortos...., vivendo como mortos, repetindo a história do passado, reagindo ao passado, incapazes de reagir às provocações do presente e sem dar ouvidos à voz do Senhor que clama: vinde para águas mais profundas!!!

            Um outro ainda lhe falou: Senhor, seguir-te-ei, mas permite primeiro que me despeça dos que estão em casa. Claro que a igreja doméstica é a família. Mas atenção! O Reino de Deus é mais. Somos, acima de tudo, filhos do Pai do Céu. Que a família se renda ao chamado e não se torne um ambiente de ar sufocante.        Jesus disse-lhe: Aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus.    Para os que conheciam o trabalho agrícola a mensagem era clara. Corria-se risco arar a terra olhando para trás.  Olhar para trás não é boa ideia. Não faz bem! É estagnação, é parar de aspirar, é a morte interior, é a luxúria da alma, é ostracismo.

            Uma senhora de sessenta anos encontrava-se deprimida já fazia tempo. O padre a viu chorando e perguntou-lhe: “o que se passa senhora?” E ela: “choro a morte de minha mãe. Sabe, padre, ela morreu quando eu tinha 10 anos de idade”. Moral da história: essa senhora não tinha presente, não tinha futuro... parece que só tinha a ela mesma. Jesus nos convoca a dispor-se para o Reino e tomara que ele nos acorde para isso...

Sobre o autor
Frei João de Araújo Santiago

Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo. Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia e Mestre em Teologia Espiritual. Tem longa experiência como professor, seja no Brasil, como na África, quando esteve como missionário. Por vários anos foi formador seja no Postulantado, como no Pós Noviciado de Filosofia. Atualmente mora em Açailândia-MA. Já escreveu vários livros e muitos artigos.