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No meio da morte somos abraçados pela vida (Sl 15) / Por Frei Ribamar Gomes

Publicado por Frei Ribamar Gomes | 25/06/2016 - 09:07

Salmo 15 – No meio da morte somos abraçados pela vida.

O salmo 15 é um hino de confiança que começa com uma oração pedindo proteção, como nas orações de lamento.  No entanto, prevalece em seguida um clima de paz, a feliz confiança em Deus se torna a fonte das maiores alegrias na vida. O salmo tem como conclusão uma enumeração de bênçãos na vida dos que tem fé em Deus: direção, estabilidade e a vida de frente com a morte na esperança. Em sua língua original, o hebraico, este salmo tem vários pontos de incertezas, entretanto, não obscurece sua mensagem central, “Somente vós sois meu Senhor: nenhum bem eu posso achar fora de vós!”. Neste salmo o poeta tem como preferência o uso de sinônimos, podemos também dizer que linguisticamente é compacto e difícil, pois chega a concentrar varias repetições em um único versículo, o ultimo, o único salmo do saltério que tem esta estrutura poética. Mesmo na tradução portuguesa podemos encontrar um dado interessante. O Salmista usa a palavra Deus só uma vez, no inicio do salmo, Deus aqui seria tradução de El em hebraico, que antes de ser usado por Israel era o nome de uma divindade Cananéia. Talvez o salmista deseja indicar que ele passou por um processo de conversão, da idolatria ao culto do verdadeiro Deus de Israel. 

Este salmo era rezado no Santuário de Jerusalém, pois o orante buscou um lugar de refugio no templo. Pelo o conteúdo do salmo podemos afirmar que as palavras brotam da boca de um sacerdote ou levita, já que claramente aqui se celebra a aliança. O cantor do salmo 15 expõe a importância da cercania de Deus que envolve toda a existência humana e faz esta exposição examinando os perigos concretos que ameaçam a vida do homem. A vida física está protegida pela presença de Deus. O Senhor livra a quem o ama até mesmo de uma morte indigna ou prematura: “pois não haveis de me deixar entregue à morte, nem vosso amigo conhecer a corrupção.” Este salmo foi apresentado por São Pedro como prefiguração da morte e ressurreição de Jesus Cristo (At 2, 24s). “Nem vosso amigo conhecer a corrupção...”, a palavra amigo aqui é a tradução do termo hebraico hassid, que dificilmente poderemos encontrar uma palavra que lhe seja correspondente em nossa língua, significa bem alguém que conheceu ou foi favorecido pela misericórdia (hassed) divina. O verdadeiro Hassid é Jesus, o único que pode recitar de forma verdadeira este salmo é Cristo ressuscitado, vencedor da morte. O salmista quando escreveu esta oração não pensava na doutrina da ressurreição, mas já era capaz de “prenunciar” que uma das exigências do amor é a não separação do ser amado. O Salmo é uma confidencia de uma alma que vive em intimidade com Deus.  

Quando nossa vida é realmente fundamentada na Palavra de Deus, o Senhor se torna nosso conselheiro. A palavra bíblica deixa de ser um vocabulário qualquer, genérico e distante para ser converter em um termo que compromete diretamente nossa vida. Supera a distancia histórica e se faz palavra pessoal. A vida deixa de ser um enigma escuro, aprendemos o que significa viver.  

“Os símbolos usados pelo orante são dois. Antes de tudo, o corpo é evocado: os exegetas dizem-nos que no original hebraico se fala de "rins", símbolo das paixões e da interioridade mais escondida, de "direita", sinal de força, de "coração", sede da consciência, até de "fígado", que exprime a emotividade, de "carne", que indica a existência frágil do homem, e enfim, de "sopro de vida". O segundo símbolo do Salmo 15, o do "caminho", é a estrada que conduz à "plena alegria na presença" divina, à "doçura sem fim, à direita" do Senhor.” (Papa João Paulo II).

Sobre o autor
Frei Ribamar Gomes

Frei Ribamar Gomes, Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo (MA-PA-AP-CUBA). Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Licenciado em Filologia Trilíngue: latim, grego e hebraico e Mestre em Teologia Bíblica, pela Pontifícia de Salamanca. Com experiências em diversas áreas como: pastoral, formação e professor. Atualmente mora em São Luís, na Fraternidade de Nossa Senhora dos Capuchinhos, onde é Guardião e Mestre do Pós Noviciado de Filosofia.