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Salmo 116 – Para sempre Ele é fiel

Publicado por Frei Ribamar Gomes | 28/05/2016 - 11:58

Salmo 116 – Para sempre Ele é fiel

Às vezes, tudo o que sabemos deste salmo se resume em que é o mais breve do saltério e está formado por apenas 17 palavras em hebraico. Podemos afirmar que é o mais conhecido e, ao mesmo tempo, o menos conhecido, já que as reflexões teológicas sobre ele são bem escassas. O salmo 116, em alguns manuscritos hebraicos, aparece junto com o 115 ou como o começo do 117. Numa leitura atenta, percebemos que o salmo 115 termina afirmando que o Senhor foi louvado e o salmo 116 começa com um convite ao louvor, com o hallel  que são as mesma palavras ou conteúdo com o qual se começa o salmo 117. Numa leitura mais atenta do salmo 117, iremos perceber que existe uma diferença de conteúdo em relação ao 116 que fala da fidelidade de Deus que perdura para sempre, no 117 é o amor (hesed – “indica a rede dos sentimentos profundos que existem entre duas pessoas, ligadas por um vínculo autêntico e constante. Por isso, abraça valores como o amor, a fidelidade, a misericórdia, a bondade, a ternura.”) de Deus, que é imutável. Comparação aqui feita entre um salmo e outro tem como finalidade afirmar que o salmo 116 por mais breve que seja é um texto individual, próprio, não depende e nem faz parte de outro texto. Podemos classificar o salmo aqui estudado como um hino ao Senhor, onde até as nações estrangeiras são convidadas a louvá-Lo.  

É perceptível nos intérpretes bíblicos uma atitude relutante  quando se tem que situar este salmo em um contexto histórico, devido as poucas informações que encontramos no próprio salmo. “Cantai louvores ao Senhor, todas as gentes, povos todos, festejai-o”. Este convite atodas as nações,leva-nos a entrever este salmo num contexto de exílio, pois foi no exílio que o povo de Israel teve contato com outras nações de forma direta. Geralmente, os salmos que surgiram no exílio da Babilônia tinham um conteúdo de lamentos, o salmo 116 é um convite ao louvor, ou seja, o que podemos dizer é que o salmo faz parte de um período em que o povo já vislumbra uma libertação bem próxima.  O convite feito a todas as nações para louvarem ao Senhor é também uma recordação do monoteísmo israelitas frente a idolatria do povo pagão.

Pois, 'comprovado é o seu amor para conosco, para sempre ele é fiel!'. Este apelo a fidelidade de Deus é esperado em um tempo, no qual haverá alguma dúvida sobre se o amor e a fidelidade do Senhor são, de fato, ainda presentes na vida das pessoas e se o exílio foi um momento de grandes dúvidas. A fidelidade de Deus é uma recordação dos eventos no monte Sinai (Ex 34,6), pois ali foi fundado o pacto entre o Senhor e o seu povo.

            Neste salmo duas trajetórias distintas são reunidas: por um lado, o Senhor como Deus de seu povo e, por outro, o Senhor como Deus de todos os povos. Esta dupla trajetória é bem presente em quase toda a Bíblia hebraica. Um exemplo bem claro: à Abraão é prometido muitos descendentes, mas, ao mesmo tempo, Abraão e seus descendentes devem ser uma benção para todas as nações.  Em Romanos 15, 11, São Paulo cita o salmo 116 e compartilha com o salmista o pressuposto de que Deus é o Senhor supremo, a quem todo o mundo está sujeito e que, a inclusão dos gentios na salvação, não é uma reflexão divina tardia. 

            São João Crisóstomo afirma que este salmo contém a profecia de que a Igreja e a pregação do Evangelho alcançariam o mundo inteiro. O papa João Paulo II resume a grandeza teológica do salmo 116 com as seguintes palavras: “Apesar da sua brevidade e essencialidade, o Salmo realça o núcleo da oração, que consiste no encontro e no diálogo vivo e pessoal com Deus. Neste acontecimento, o mistério da Divindade revela-se como fidelidade e amor. O Salmista acrescenta um aspecto particular da oração: a experiência orante deve irradiar-se no mundo, transformando-se em testemunho junto de quem não compartilha a nossa fé. Com efeito, no início, o horizonte alarga-se a "todos os povos" e a "todas as nações" (cf. Sl 116, 1) para que, diante da beleza e da alegria da fé, também eles sejam conquistados pelo desejo de conhecer, encontrar e louvar a Deus.

Sobre o autor
Frei Ribamar Gomes

Frei Ribamar Gomes, Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo (MA-PA-AP-CUBA). Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Licenciado em Filologia Trilíngue: latim, grego e hebraico e Mestre em Teologia Bíblica, pela Pontifícia de Salamanca. Com experiências em diversas áreas como: pastoral, formação e professor. Atualmente mora em São Luís, na Fraternidade de Nossa Senhora dos Capuchinhos, onde é Guardião e Mestre do Pós Noviciado de Filosofia.