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Salmo 29 – A solidão, sombra de Deus

Publicado por Frei Ribamar Gomes | 04/06/2016 - 08:39

O salmo 29 que meditamos neste 10º domingo do tempo comum é um hino de ação de graças ou, como tradicionalmente conhecido no mundo judaico, sacrifício de louvor. A Oração de lamento dirigida ao Senhor foi escutada. É normal neste gênero literário recordar a situação de perigo, citar a suplica realizada, mencionar a cura ou a libertação obtida e concluir com o cântico de ação de graças, ou seja, o salmo tem uma ordem poética e lógica: enfermidade, suplica, libertação e ação de graças.O salmista revela sua confiança em Deus mostrando as limitações da vida. Podemos perceber que no salmo 29 existe um movimento de alternância, que é próprio da vida humana: sofrimento e alegria, baixar e subir, tarde e manhã, pranto e festa. Todas estas antíteses podem ser resumidas naquela que é primordial  e decisiva: morte e vida.

“O mundo interior aqui conta mais que o exterior; os impulsos e emoções mais que a razão calculista; o espontâneo e o sensível mais que o lógico e abstrato. O salmo não se submete a uma lógica racional, mas possui coerência poética - é o que pela análise conseguimos descobrir.” (A.G.Nunes). Alguns exegetas acusam ao salmista de uma certa falta de critério, pois está contando a Deus o que Deus realizou por ele. Na verdade, o salmista não conta, não narra, mas confessa o poder de Deus no mais escabroso de sua vida, onde somente Deus podia chegar.

Quem rezou este salmo está voltando da fronteira entre a vida e a morte. Com o temor da última ameaça - a morte - deixa brotar este poema impetuoso.  “A morte tem neste salmo uma projeção espacial realista e simbólica - Vós tirastes minha alma dos abismos e me salvastes, quando estava já morrendo! -  o cadáver é deposto na cova. Da terra dos vivos o cadáver desce fisicamente a tumba. A morte derruba a verticalidade do homem, a morte é queda, descida”(L.A.Schoekel).

 Se à tarde vem o pranto visitar-nos, de manhã vem saudar-nos a alegria. Santo Agostinho comentado este salmo afirma que tarde aqui representa o pecado de Adão e manhã a ressurreição de Cristo. “... Nosso Senhor teve uma tarde em que foi enterrado e uma manhã em que ressuscitou. Tu também foste enterrado numa tarde no paraíso e ressuscitastes no terceiro dia.” Transformastes o meu pranto em uma festa -  as lágrimas dos homens são mais preciosas ao olhos de Deus que qualquer outra realidade. Deus não deixa cair no pó do nada nenhuma lágrima, nenhum passo desesperado do homem.

“O Salmo demonstra que nunca nos devemos deixar seduzir pelo enredo obscuro do desespero, quando parece que tudo já se perdeu. Sem dúvida, é preciso evitar cair na ilusão de salvar-se sozinho, com os próprios recursos. De fato, o Salmista é tentado pela soberba e pela auto-suficiência. Também os Padres da Igreja refletiram sobre esta tentação que se insinua no tempo da prosperidade e viram na prova uma chamada divina à humildade. O Antigo Testamento exprimia assim o intenso desejo humano de uma vitória de Deus sobre a morte e referia diversos casos em que esta vitória tinha sido obtida:  pessoas ameaçadas de morrer de fome no deserto, presos que se livraram da pena de morte, doentes que se curaram, marinheiros salvos do naufrágio. Tratava-se, contudo de vitórias não definitivas. Cedo ou tarde, a morte conseguia prevalecer sempre. Contudo, a aspiração pela vitória manteve-se sempre e tornou-se, no final, uma esperança de ressurreição. A satisfação desta poderosa aspiração foi plenamente garantida com a ressurreição de Cristo, pela qual o nosso agradecimento nunca será demasiado” (Papa J. Paulo II).

Sobre o autor
Frei Ribamar Gomes

Frei Ribamar Gomes, Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo (MA-PA-AP-CUBA). Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Licenciado em Filologia Trilíngue: latim, grego e hebraico e Mestre em Teologia Bíblica, pela Pontifícia de Salamanca. Com experiências em diversas áreas como: pastoral, formação e professor. Atualmente mora em São Luís, na Fraternidade de Nossa Senhora dos Capuchinhos, onde é Guardião e Mestre do Pós Noviciado de Filosofia.