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Salmo 31 - Tu perdoaste as infidelidades do meu coração

Publicado por Frei Ribamar Gomes | 11/06/2016 - 15:45

O Salmo 31 é o segundo dos chamados sete salmos penitenciais e tem características de um hino de agradecimento, de ação de graças. É um salmo sapiencial, pois o cantor do salmo 31 conhece perfeitamente a retórica poético-didatico deste gênero literário. O salmo salienta a importância crucial da confissão do pecado e a restauração que provoca o perdão divino. Fala do peso que tem uma consciência culpada, da liberdade e da alegria do perdão quando se tem realizado a confissão. A natureza da verdadeira confissão é compartilhar com os outros a fonte da vida e da esperança. Salmo 31 combina a oração de arrependimento com a instrução pública sobre a obediência. Este salmista não só relata suas experiências, além disso, ele quer ajudar o pecador voltar para caminho certo. 

Conforme o título que aparece no texto bíblico, este é um salmo de Davi. Os autores que mantém a paternidade davídica, afirmam que Davi escreveu este salmo depois que tinha cometido o pecado de adultério com Betsabeia e o assassinato de Urías, já que levou muito tempo para reconhecer seu pecado. No título também encontramos a misteriosa palavra hebraica maskil, que geralmente se traduz por ensinamentos, indicando que o salmo é uma instrução do tipo sapiencial com arrebato lírico.    

O salmo começa com duas bem-aventuranças - feliz o homem... - pronunciadas por pessoas que receberam o perdão como um dom de Deus.  A tradução da palavra hebraica ’ašrê deveria ser sorte, fortuna, mais do que feliz ou bem-aventurado. “sorte do homem que foi perdoado”.  Encontramos também três palavras em hebraico para pecado: peša‘ desobediencia deliberada; hata´a, errando o alvo ou a meta e ‘awôn desonestidade, distorção. Contra estes termos, também temos três palavras que significam a manifestação do perdão de Deus: nasa´ diminuindo a distancia; kasah  ocultar, ocultar por Deus e não pelo homem, quando o homem oculta encobre, quando Deus oculta, na verdade perdoa, apaga toda culpa;  hašab cancelamento de uma dívida. O relacionamento com Deus só é possível quando se tem como base a verdade. 

Na carta ao Romanos, São Paulo cita este salmo como exemplo de que Deus salva, restabelece e reabilita ao homem independente de suas obras. O perdão foi concedido não por sua boa conduta, não por seus méritos, mas simplesmente porque o pecador pediu perdão.

Com a oração dos salmos, os santos mostravam seu coração. O salmo 31 tem sido um dos salmos mais populares da tradição cristã. Seu foco na liberdade que recebemos através da graça do perdão de Deus o tornou favorito para Santo Agostinho. A Igreja grega usa no rito do batismo, pois o padre repete por três vezes: Feliz o homem que foi perdoado/ e cuja falta já foi encoberta! Feliz o homem a quem o Senhor  não olha mais como sendo culpado.

Em resumo, esta é a reflexão teológica que apresenta o Papa João Paulo II sobre o salmo 31. “Antes de mais o orante descreve a sua penosíssima situação de consciência quando se calava:  tendo cometido graves culpas, ele não tinha a coragem de confessar a Deus os seus pecados. Era um tormento interior terrível, descrito com imagens impressionantes. Os seus ossos quase definhavam sob uma febre abaladora, o calor consumia o seu vigor dissolvendo-o, o seu gemido era contínuo. O pecador sentia pesar sobre si a mão de Deus, consciente de que Deus não é indiferente ao mal perpetrado pela sua criatura, porque Ele é o guardião da justiça e da verdade. Não podendo resistir mais, o pecador decidiu confessar a sua culpa com uma declaração corajosa, que parece antecipar a do filho pródigo da parábola de Jesus. De fato, disse com sinceridade de coração:  Confessarei ao Senhor as minhas culpas. São poucas  palavras,  mas  surgem  da consciência;  Deus  responde-lhe  imediatamente  com  um  generoso  perdão. Abre-se assim diante de cada fiel arrependido e perdoado um horizonte de segurança, de confiança, de paz, apesar das provas da vida. Ainda pode vir o tempo da angústia mas a maré progressiva do receio não prevalecerá, porque o Senhor guiará o seu fiel para um lugar seguro: “Tu és o meu refúgio, livras-me da angústia e me envolves em cânticos de libertação.”

Sobre o autor
Frei Ribamar Gomes

Frei Ribamar Gomes, Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo (MA-PA-AP-CUBA). Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Licenciado em Filologia Trilíngue: latim, grego e hebraico e Mestre em Teologia Bíblica, pela Pontifícia de Salamanca. Com experiências em diversas áreas como: pastoral, formação e professor. Atualmente mora em São Luís, na Fraternidade de Nossa Senhora dos Capuchinhos, onde é Guardião e Mestre do Pós Noviciado de Filosofia.