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Salmo 46 - Ao som da harpa, ao toque da trombeta e por entre aclamações o Senhor subiu aos céus.

Publicado por Frei Ribamar Gomes | 07/05/2016 - 10:38

Salmo 46 - Ao som da harpa, ao toque da trombeta e por entre aclamações o Senhor subiu aos céus.

O salmo 46 leva-nos ao mundo cultural antigo, não só de Israel, como de regiões vizinhas (Egito, Mesopotâmia e Canaã). Percebemos claramente que o tema da realeza, em estas culturas não judaica, estava associada com alguma divindade. E esta forma de culto influenciou ao povo judeu em dar a Deus o atributo de Rei. Ao lado do templo se construía o palácio real, onde o rei escolhido por Deus senta no seu trono. O trono é identificado com a expressão mão/lado direito. A concepção do Senhor, como rei do mundo, uma idéia influenciada por vizinhos cananeus de Israel, levantou a trajetória de seu poder, pois de uma divindade de um grupo tribal que vagava pelo deserto passou a de rei do universo, sustentando o poder de domínio sobre a terra. Esta fé desenvolveu uma qualidade tão dinâmica que sua expressão deu origem a interpretações proféticas de ascensão e queda de impérios mundiais como o resultado da direção do Senhor sobre a humanidade. O salmo 46 é o primeiro dos sete salmos que celebram a entronização de Deus como rei.

O esplendor - a beleza da realeza - era manifestação da corte celeste. “Está sentado no seu trono (santo) glorioso,” somente aqui aparece a palavra trono relacionada com glorioso.  Este salmo nos leva a perceber que a oração do Credo tem uma linguagem cristologica imperial. “Subiu ao céu e está sentado à mão direita de Deus Pai Todo-Poderoso.”

 “Povos todos do universo, batei palmas, gritai a Deus aclamações de alegria” Duas palavras nos chamam atenção: palmas(II Reis 11,12) e grito (I Samuel 10,24). Eram dois atos de culto realizados pelos fieis, ambos desempenhados durante a coroação de um rei em Israel. Com as palmas, aclamava-se o novo rei; já o grito não expressa somente alegria, como também uma confissão de fé em um Deus que agia nos acontecimentos da historia. O salmo 46 faz parte do grupo dos chamados salmos escatológicos pós-exilio ou hinos de entronização. Expressam uma esperança na intervenção de Deus no futuro do seu povo.

            O salmo 46 tem um lugar especial na liturgia judaica, sendo recitado antes do toque do Shofar (é um dos mais antigos instrumentos de sopro, o primeiro que se tem noticias que era usado no serviço religioso e era usado somente em grandes e solenes ocasiões) antes do Rosh Hashanah (Ano novo judaico). Segundo a tradição judaica o Rosh Hashanah, celebra a soberania de Deus sobre todo o universo. 

            A Igreja sempre leu o salmo 46 como um anúncio profético, pois o que nele se apregoa nunca aconteceu humanamente, mas se tornou realidade misteriosa com Jesus Cristo. A imagem de ascender ao trono evoca a ascensão, pela qual Jesus começa a exercer a soberania sobre o mundo. A ascensão de Jesus é a alegria de toda a humanidade. Um dos nossos foi coroado e toda terra está feliz porque deu seu primeiro fruto de gloria, encontramos a mais profunda justificação da dignidade do homem. Em cada homem arruinado, despojado de seus bens, existe um “rei a ser coroado.” O comentário do Papa João Paulo II segue também a interpretação profética do salmo. “Em Cristo, a realeza de Deus, cantada pelo nosso Salmo, realizou-se na terra para todos os povos. Até à vinda do Messias, esperança das nações, os povos gentios não adoraram Deus e não conheceram quem Ele é. E enquanto o Messias não os resgatou, Deus não reinou sobre as nações por meio da sua obediência e do seu culto. Pelo contrário, agora Deus, com a sua Palavra e com o seu espírito, reina sobre eles, porque os salvou do engano e fez com que se tornassem amigos.”

            Participamos definitivamente da realeza de Cristo por meio de sua encarnação, morte-ressurreição e ascensão aos céus, assumindo nossa carne, concedeu-nos um lugar na Trindade, à direita de Deus.

Sobre o autor
Frei Ribamar Gomes

Frei Ribamar Gomes, Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo (MA-PA-AP-CUBA). Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Licenciado em Filologia Trilíngue: latim, grego e hebraico e Mestre em Teologia Bíblica, pela Pontifícia de Salamanca. Com experiências em diversas áreas como: pastoral, formação e professor. Atualmente mora em São Luís, na Fraternidade de Nossa Senhora dos Capuchinhos, onde é Guardião e Mestre do Pós Noviciado de Filosofia.