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Salmo Dominical: a benevolência de Deus é melhor do que a vida (Sl 62)

Publicado por Frei Ribamar Gomes | 18/06/2016 - 13:09

Salmo 62 – A benevolência de Deus é melhor do que a vida

O salmo 62, segundo a tradição rabínica, foi escrito por Davi no deserto de Judéia quando fugia de Saul, que queria matá-lo.  O salmo apresenta as experiências difíceis vividas por Davi, principalmente as que estão relacionadas com as privações físicas. No entanto, ao invés de reclamar de suas condições difíceis, eleva os sentimentos de sofrimentos em direção a Deus. O tema fascinante deste salmo 62 é a maneira como David transforma seu desconforto em um anseio por Deus. Este Salmo tem uma poderosíssima metáfora, a sede, que não pode ser reduzida a um fato histórico. O ambiente físico, o deserto, deve ser transformado em um símbolo para o anseio da alma.

O salmista, perseguido e afastado do centro teocrático da nação, sente saudade da companhia de Deus, que habitava no templo de Jerusalém. As lembranças do santuário apertavam a alma do levita exilado, que não podia participar das celebrações litúrgicas. Expressões efusivas repetem-se e mostram a profundidade de uma alma religiosa que encontra sua única felicidade na comunicação afetiva com o Senhor dentro de sua casa, o templo de Jerusalém. O salmo tem um estilo sentimental e sem uma ordem lógica, já que brota da efusão afetiva do coração mais do que das considerações racionais. O poeta deseja viver à sombra das asas de Deus e seguro de que, com Sua proteção, triunfará frente a todos os perigos. Para mim fostes sempre um socorro; de vossas asas à sombra eu exulto!/ Minha alma se agarra em vós; com poder vossa mão me sustenta.

O salmo 62 é um lamento dominado pela confiança. Logo, podemos vê-lo como um hino de ação de graças. As imagens dilacerantes, como sede e terra resseca sem água, vai conduzindo o orante ao centro da oração que é constatar que a benevolência de Deus é melhor do que a vida e é a expressão de comunhão dentro do abraço de Deus. Os israelitas consideravam a vida como o bem maior, no entanto, desfrutar do amor de Deus no Templo é melhor do que a própria sobrevivência no deserto. Ter ou estar em comunhão com Deus é o melhor beneficio para um judeu. Viver da certeza do amor de Deus, mesmo no tempo de aridez espiritual permite que os lábios se abram em louvor ao Senhor. Para ver vossa glória e poder. Vosso amor vale mais do que a vida: e por isso meus lábios vos louvam. O poder refrescante da presença de Deus é comparado a uma festa: A minh’alma será saciada, como em grande banquete de festa.

Sede, numa terra seca e cansada, é uma metáfora clássica para a saudade espiritual e expressa a necessidade que a alma tem da presença de Deus, indispensável para sua sobrevivência. Os órgãos dos sentidos aqui funcionam com uma autonomia que transcende o puramente sensível e funcionam como símbolos da experiência espiritual que comprometa pessoa por inteiro. Os olhos vêem o templo, mas na verdade contemplam a gloria de Deus - venho, assim, contemplar-vos no templo, para ver vossa glória e poder -  a garganta tem sede de Deus, a carne desfalece por Deus. Não estamos diante de uma espiritualidade desencarnada.

Desde o século IV que este salmo faz parte da oração da manhã da Igreja. O papa João Paulo II define este salmo 62 como o salmo do amor místico “que celebra a adesão total a Deus, partindo de um anseio quase físico e chegando a sua plenitude num abraço íntimo e perene. A oração faz-se desejo, sede e fome, porque envolve a alma e o corpo. A partir de uma leitura do Salmo à luz do mistério pascal, a sede e a fome que nos impelem para Deus encontram a sua satisfação em Cristo crucificado e ressuscitado, de que chega até nós, mediante o dom do Espírito e dos Sacramentos, a vida nova e o alimento que a sustém”.

Sobre o autor
Frei Ribamar Gomes

Frei Ribamar Gomes, Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo (MA-PA-AP-CUBA). Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Licenciado em Filologia Trilíngue: latim, grego e hebraico e Mestre em Teologia Bíblica, pela Pontifícia de Salamanca. Com experiências em diversas áreas como: pastoral, formação e professor. Atualmente mora em São Luís, na Fraternidade de Nossa Senhora dos Capuchinhos, onde é Guardião e Mestre do Pós Noviciado de Filosofia.