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SALMO DOMINICAL / FREI RIBAMAR GOMES

Publicado por Frei Ribamar Gomes | 14/05/2016 - 17:44

Salmo 103 - Harmonia da criação

Em seu contexto original, este salmo 103 era um hino ao deus sol, escrito por Amenofis IV, também conhecido como Akenatón, foi faraó no século XIV a. C. tinha como idéia implantar uma religião monoteísta, a crença num único deus criador do universo, este deus tinha como representação visível um disco solar. Amenofis era esposo de Nefertiti. Escreveu um grande hino de louvor ao criador e ao papel benéfico exercido por Aton (disco solar em egípcio).  O poeta hebraico se encarregou de fazer uma purificação de toda idolatria egípcia que continha a linguagem do seu conteúdo. Colocou um otimismo na relação do homem com a natureza, fazendo do mesmo uma constante sentinela frente ao mal que sua liberdade pode provocar.  É um dos salmos más antigo do saltério e também mais estudado no decorrer da historia da interpretação bíblica.

O salmo 103 é um hino de louvor a criação, onde o salmista exulta com o céu e a terra, reconhecendo que cada coisa criada é um vestígio da grandeza, da sabedoria e gloria de Deus. Quem reza este salmo se sente em “casa” (οἱκεω), no espaço e tempo criados e ordenados por Deus.  O orante é movido pela admiração  e reverencia, pois sabe que esperando receberá e saboreará da bondade de Deus no mundo.  O salmista nos diz que temos tempo para admirar a criação, mesmo sendo consciente de nossa transitoriedade e fragilidade existencial, podemos celebrar a confiança em Deus. Contemplar, segundo o salmista, é um ato gratuito e amoroso, é um descobrir sem interesses utilitários, é um partilhar sem perder é viver um descanso sem preguiça tendo uma atenção desperta.  

Muitos exegetas relacionaram este salmo 103 com Genesis 1, sendo que no primeiro livro da bíblia a criação é definida pelo adjetivo “bom”, não aparece no salmo, mas todo o seu conteúdo está de acordo com a avaliação que Deus fez de sua criação, ou seja, encontramos no salmo 103 uma descrição poética do que Deus vê em suas criaturas. Olhar o mundo com os olhos de Deus é viver justamente como ele nos pede.

O Salmo 103 apresenta uma imagem de Deus como rei dos céus (vv.1-5), mas logo começa a descrever o seu envolvimento com todas as criaturas da terra (vv.6-31). Alguns estudiosos definiram este salmo como uma canção da alma (alma no sentido hebraico néfesch = respiro, garganta, ser vivo, pessoa).   Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Este convite introdutório encontramos também no salmo 102 que nos fala de Deus com um pai cheio de misericórdia para com seus filhos. A benção que o homem dirige a Deus, é um humilde reconhecimento de sua bondade e um vivo agradecimento pela ação desta bondade, não somente com ele, mas com todo o universo que o rodeia.

Enviais o vosso espírito e renascem e da terra toda a face renovais. A Igreja primitiva, viu nestas palavras uma profecia sobre a ressurreição. A palavra espírito aparece em minúscula, para indicar o alento de Deus, que a liturgia interpreta como uma alusão a nova criação que acontece em pentecostes. Todas as criaturas são dependentes de sopro de vida de Deus. Renovação da vida está inteiramente nas mãos de Deus e depende de sua graça contínua. O salmo conclui com uma série de desejos e votos para que a gloria do Senhor dure para sempre. Que a glória do Senhor perdure sempre!

Liturgicamente, o povo judeu tem cantado o Salmo 104 no Yom Kippur (Dia do Perdão, proporcionando uma promessa de que uma nova vida vai emergir da penitência e da tristeza), na noite de lua nova (para consagrar mais um mês de vida), e como louvor durante toda a temporada de inverno, porque as chuvas de primavera trarão nova vida. A Igreja também tem dado ao salmo um lugar de destaque no dia de Pentecostes, para celebrar o dom do Espírito de Deus para renovar a vida.

Aprendamos do salmista que nos diz claramente que a colaboração entre a obra de Deus e o esforço humano, só é possível quando ocupamos o nosso lugar de criaturas  totalmente dependente de Deus, suas criaturas e ele nosso criador.

Sobre o autor
Frei Ribamar Gomes

Frei Ribamar Gomes, Frade Capuchinho, da Província Nossa Senhora do Carmo (MA-PA-AP-CUBA). Licenciado em Filosofia, Bacharel em Teologia, Licenciado em Filologia Trilíngue: latim, grego e hebraico e Mestre em Teologia Bíblica, pela Pontifícia de Salamanca. Com experiências em diversas áreas como: pastoral, formação e professor. Atualmente mora em São Luís, na Fraternidade de Nossa Senhora dos Capuchinhos, onde é Guardião e Mestre do Pós Noviciado de Filosofia.