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Primeira Admoestação - a) O Texto

Publicado por Frei Edson Matias Dias | 24/06/2016 - 10:36

Ad 1 - O CORPO DO SENHOR

a) O texto

Estamos diante de uma Admoestação significativa para todos os franciscanos e admiradores de São Francisco de Assis. Aqui se encontra o modo ‘católico’ dos primeiros frades. Por que dizer ‘Católico’? Pois precisamos entender que naquele período em que nasceu o movimento dos pobrezinhos de Assis, havia muitos grupos que também pregavam a pobreza e a radicalidade do seguimento de Jesus Cristo, porém, eram contrários a Igreja Romana, ao Papa e aos Clérigos e a todos aqueles que viviam no luxo e na riqueza.

O ponto comum do Movimento Franciscano com os outros Movimentos Pauperísticos é a redescoberta da piedade popular. A diferença fundamental é o tipo eclesiológico que pregam. Para os Movimentos Pauperísticos, se pode chegar a Cristo imitando a vida dos Apóstolos; para Francisco de Assis isto não é suficiente, para ele a melhor imitação se tonar perfeita quando tem lugar dentro da Igreja. Fora dos caminhos da igreja a pessoa é exposta ao subjetivismo e ao risco de buscar mais a si mesma, afastando-se dos canis da graça (sacramentos) que se encontram somente dentro da Igreja (MAZZUCO, 1996, p. 77).

Francisco vem trazer outra proposta. Mas onde ele encontrou esse modo de ser? Veremos que ele, inspirado por Deus, tira do Evangelho e dentro da Igreja seu caminho. Vamos ao texto da primeira admoestação.  

Diz o Senhor Jesus a seus discípulos: Eu sou caminho, verdade e vida; ninguém vai ao Pai se não por mim. Se conhecesses a mim, também conheceríeis certamente meu Pai; e desde agora o conheceis e o vistes. Diz-lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai e basta para nós. Diz-lhe Jesus: Tanto tempo estou convosco e não me conhecestes? Filipe, quem me vê, vê também meu Pai (cf. Jo 14,6-9). O Pai habita a luz inacessível (cf. 1Tm 6,16), e Deus é espírito (Jo 4,24), e a Deus nunca ninguém viu (Jo 1,18). Por isso não pode ser visto senão em espírito, porque é o espírito que vivifica; a carne não adianta nada (Jo 6,64). Mas nem o Filho, no que é igual ao Pai, é visto por alguém diferentemente do Pai, diferentemente do Espírito Santo. Por isso todos os que viram o Senhor Jesus segundo a humanidade e não viram e creram segundo o espírito e a divindade que ele era o verdadeiro Filho de Deus, foram condenados; assim também agora todos os que vêm o sacramento que se consagra pelas palavras do Senhor sobre o altar por mão do sacerdote na forma de pão e vinho, e não vêem e crêem segundo o espírito e a divindade, que é verdadeiramente o santíssimo corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, foram condenados, pelo testemunho do próprio Altíssimo, que diz: Este é meu corpo e meu sangue do Novo Testamento [que será derramado por muitos] (Mc 14,22,24) e: Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida eterna (cf. Jo 6,55). Por isso o espírito do Senhor, que mora em seus fiéis, é quem recebe o santíssimo corpo e sangue do Senhor. Todos os outros, que não têm o mesmo espírito e presumem recebê-lo, comem e bebem a própria conde­nação (cfr. 1Cor 11,29). Por isso: Filhos dos homens, até quando tereis um coração pe­sado? (Sl 4,3). Por que não conheceis a ver­dade e credes no Filho de Deus? (cfr. Jo 9,35). Eis que se humilha diariamente, como quando veio do trono real (Sb 18, 15) ao útero da Virgem; vem diariamente a nós ele mesmo aparecendo humilde; desce todos os dias do seio do Pai (cfr. Jo 6,38; 1,18) sobre o altar nas mãos do sacerdote. E como se mostrou aos santos apóstolos em carne verdadeira, assim também a nós agora no pão sagrado. E como eles com a visão de sua carne só viam a carne dele, mas criam que era Deus contemplan­do com olhos espirituais; assim também nós, vendo o pão e o vinho com os olhos corporais, vejamos e creiamos firmemente que é seu santíssimo corpo e sangue vivo e verdadeiro. E desse modo o Senhor está sempre com os seus fiéis, como ele mesmo diz: Eis que estou convosco até a consumação do século (cf. Mt 28,20). (Admoestação 1).

Lembro aos leitores que para fazer uma boa caminhada pela Espiritualidade Francisca, quando deparamos com os textos, falamos em “ir às Fontes”. Por que isso? Por que “Fontes”? Isto porque estamos nas Origens, na busca do Vigor que ali nasceu. Por isso é necessário ‘ler’ de forma diferente de uma simples busca de informação. Como faríamos na leitura de um livro de história, de um jornal ou revista.  

Precisaremos afinar nosso modo de ver e procurar. Para os que já têm o hábito da Leitura Orante da Palavra de Deus podem adentrar mais facilidade na leitura aqui proposta. Assim, é necessário encarar, tomar nas mãos, estes textos como se faz com a leitura espiritual bíblica. Uma coisa é quando vamos às Sagradas Escrituras fazendo um estudo histórico-crítico, outra coisa é ir a elas com uma leitura espiritual. Evidentemente que o estudo mais acurado, ajuda no entendimento e aprofundamento e por vezes, é obrigatório fazer. Todavia, a postura é diferente na busca espiritual. Nós nos detemos no texto. Lemos e relemos. Paramos. Ficamos no silêncio e retomamos novamente a leitura. É como um garimpar. Depois de um tempo – e isso exige paciência –, coisa que temos que nos desafiar nos dias atuais, vamos ficando mais hábeis no trabalho e novas portas de sentidos são abertas.

Para esse trabalho podemos dizer que precisaremos ‘queimar as pestanas’. Sentar. Ler e reler. Pode ocorrer incomodo, falta de paciência, pois estamos por demais acostumados a coisas rápidas, que tenham resultados ligeiros e agradáveis. Neste tipo de leitura aqui proposta, é preciso respirar e deixar ser tomando pelo que nasce do texto. Tranquilizar-se é o caminho. Contudo, é um tranqüilizar ‘buscando’, tateando numa procura concentrada e decidida.

Tenhamos consciência que ter tal postura, pois nos dias atuais pode levar tempo para que percebamos que é necessário adentrar em outro modo de ser. É preciso treinar. Como um atleta que se dedica na preparação para seus campeonatos, fortalecendo seus músculos e ficando hábil para a competição, assim também nós devemos entender que a maneira de ver ‘no espírito’ também requer fortalecimento destas habilidades. É preciso observar que nosso mundo contemporâneo vai à contramão desse modo de ser. A visão atual existente na sociedade é superficial, só vê as aparências, só se importa com o que é imediato e que traz satisfação. Tomar consciência que também podemos estar dentro dessa dinâmica social nos ajudará a percebermos a necessidade do ‘treinamento’. Por isso, falamos em ‘queimar as pestanas’. No início pode ser que a coisa parece que não vai andar. Podem se apresentar muitas dificuldades. Todavia, aos poucos, novas sendas vão sendo abertas e novas paisagens vão aparecendo.

Talvez uma comparação nós ajude a entender. Pensemos uma pessoa que tem constante dores lombares. Vai ao médio e este a encaminha à fisioterapia, pois, pelos exames, descobriu se que não existe problemas ósseos, e sim, que se trata de falta de fortalecimento muscular da região. Iniciam-se os treinos. Primeiramente precisa superar o comodismo. Vai doer. Junto a este trabalho, inicia-se a prática de atividade física acompanhada. Depois de algumas semanas, as dores começam a desaparecer. Estabelece uma postura e consciência corporal mais adequada. Logo, nasce uma nova visão de si e de como se cuidar. Está liberta das dores por uma nova visão física de si. Semelhantemente é a vida no Espírito. Vejamos nosso modo de ver o mundo e nós mesmos para que fique mais claro o que precisamos fazer para adentrar no modo de ser do Espírito.

Sobre o autor
Frei Edson Matias

Frade Capuchinho, Sacertode. Naceu no ano de 1976 em Anápolis/GO. Filho de Baltazar Justino Dias e Genoveva Matias Dias. Ingressou na Ordem Franciscana em 25 de Janeiro de 1999, inicialmente nos Frades Conventuais - Província de Brasília. Depois fez a passagem para a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos no dia 13 de Julho de 2009. 

 

Formação

Doutorando em Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE. Psicólogo pelo Centro Universitário de Brasilia - UniCEUB. Mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás - PUC Goiás. Pós-Graduado em Psicologia Junguiana pela Faculdade de Ciências da Saúde de São Paulo - FACIS. Pós-Graduado em Teologia Contemporânea pelo Centro Universitário Claretiano. Teólogo Pelo Centro Universitário Claretiano. 

 

Áreas de atuação

Foi Professor de Psicologia e disciplinas afins na Filosofia e Teologia nos Institutos: ISB/DF, ITEO/MS e IFITEG/GO e na Faculdade Brasil Central/GO. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia clínica e psicologia da religião, como também em Teologia Pastoral e Espiritualidade. Presta assessorias às comunidades e congregações religiosas. 

 

Livros e Artigos

Possue diversos artigos publicados em revistas e livros. 

 

Onde trabalha

Mora atualmente em Belo Horizonte na Província de Minas Gerais, permanência temporária para a realização dos primeiros semestres do doutorado em teologia na FAJE.  Presta auxilio pastoral na Paróquia N. S. Do Rosário da Pompéia em BH. 

 

Contato

ed.matias@gmail.com