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Fraternidade x ‘Fraternismo’

Publicado por Frei Edson Matias | 07/04/2019 - 12:21

A fraternidade na Vida Religiosa Consagrada se constitui numa vivência cotidiana. Dentro de um processo de ‘encarnação’. Seu fundamento é o próprio Cristo. Ele é o modelo e centro da reunião de pessoas vocacionadas tão diferentes. Cada um, pelo chamamento, se torna um presente de Deus para a igreja. Todavia, sabe-se que a implantação do Reino de Deus sofre resistências de nossa natureza decaída. É preciso vigiar e orar com perseverança, pois sempre se está na mercê de retorno ao homem velho.

 

Dentro da vivência fraterna falamos então da constituição de uma Fraternidade evangélica. Como o próprio adjetivo já diz, o que a funda e mantém é a própria graça de Deus. Para que isso ocorra, temos dois pontos a destacar. Primeiro, a graça inicial do chamado. É Ele que atrai para seu coração amoroso. Atraindo, Ele dá uma missão. Ou seja, não há chamado sem missão. Segundo, a capacidade daquele que foi chamado de suplicar com insistência a Deus para que derrame seu Espirito constantemente sobre as opções a serem tomadas.

 

Sabe-se então que primeiro é graça de Deus, que o centro da fraternidade é o próprio Cristo e que aquele que foi chamado precisa sempre estar atento ao que é melhor fazer. Imaginemos que no decorrer da caminhada religiosa um irmão deixe de ‘estar atendo’, ‘de saber escutar’, ‘de estar aberto’ à graça divina. Isso pode ocorrer devido ao ‘costume’, às ‘coisas institucionais’, a rotina, etc (homem velho) que acabam por tomar mais valor que a resposta a Deus. O que pode vir a acontecer? A fraternidade será ferida, começará a adoecer, pois um membro está doente, afastou-se da busca inicial, daquilo que o motivou.

 

Os conflitos fraternos, na medida que se esquece da abertura e busca da vocação aumentam na proporção que se afasta de Deus. Entra em cena o que chamo de ‘fraternismo’. Como ele se manifestaria? Como ideologia. Verdade que ele trás em si o vocabulário daquilo que a vivência cristã diz sobre o amor fraterno, porém, ao modo dos fariseus, o coração está longe de Deus. Dessa maneira, adentra todos os novos meios ‘terapêuticos’ atuais para tentar resolver os desarranjos fraternos. Dai temos o psicologismo na vida fraterna. Começa-se a encontrar soluções onde elas não estão. (Evidentemente que se precisa de vez em quando de uma boa terapia. Isso pode ser muito benéfico para a caminhada de cada um, porém, quando se coloca a solução apenas no conhecimento psicológico, como reforço da ideologia fraterna (fraternismo), se comete um grande erro) O ser humano por si mesmo, não consegue viver em fraternidade, a não ser que Deus conceda a ele. Trata-se de um dom, e não de uma produção egoísta. Por isso, para escapar de qualquer ‘fraternismo’, é preciso rezar, meditar, suplicar a Deus.

 

Enquanto, não se voltar para o encontro pessoal com Cristo não se achará o Cristo encarnado na Fraternidade. O primeiro passo é ‘descobrir’ o Cristo encarnado em si próprio para depois deixar – ‘deixar’ – esse amor se irradiar para os demais. E quais os sinais que apontam para o ‘fraternismo’ nos dias de hoje?

 

  • Afastamento da oração pessoal;
  • Falta de reflexão e dedicação a caminhada religiosa;
  • Tédio pastoral;
  • Fugas das relações fraternas conflituosas;
  • Discursos românticos sobre a condição humana;
  • Amizades possessivas;
  • Apego ao dinheiro e a cargos;
  • Confusão entre Fraternidade e amizade;
  • Prolixidade sobre o amor.
  • Misturas entre o amor humano (egóico) e o amor divino.

 

Como prevenir e combater o ‘fraternismo’?

 

  • Conversão do coração;
  • Oração pessoal;
  • Meditação e reflexão sobre a vida (igreja e pessoal);
  • Retiros e direção espiritual;
  • Reconhecimento das limitações humanas e da Graça de Deus;
  • Entrega à vida missionária.

 

 

Sobre o autor
Frei Edson Matias

Frade Capuchinho, Sacertode. Naceu no ano de 1976 em Anápolis-GO. Filho de Baltazar Justino Dias e Genoveva Matias Dias. Ingressou na Ordem Franciscana em 25 de Janeiro de 1999, inicialmente nos Frades Conventuais - Província de Brasília. Depois fez a passagem para a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos no dia 13 de Julho de 2009. 

Formação

Doutorando em Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE. Psicólogo pelo Centro Universitário de Brasilia - UniCEUB. Mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás - PUC Goiás. Pós-Graduado em Psicologia Junguiana pela Faculdade de Ciências da Saúde de São Paulo - FACIS. Pós-Graduado em Teologia Contemporânea pelo Centro Universitário Claretiano. Teólogo Pelo Centro Universitário Claretiano. 

Áreas de atuação

Foi Professor de Psicologia e disciplinas afins na Filosofia e Teologia nos Institutos: ISB/DF, ITEO/MS e IFITEG/GO e na Faculdade Brasil Central/GO. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia clínica e psicologia da religião, como também em Teologia Pastoral e Espiritualidade. Presta assessorias às comunidades e congregações religiosas. 

Livros e Artigos

Possue diversos artigos publicados em revistas e livros. 

Contato

ed.matias@gmail.com
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