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Corpus Christi: uma meditação despretensiosa

Publicado por Frei Reymond Xavier | 21/05/2016 - 11:34

O sentido mais geral a que se pode aludir a respeito da solenidade de Corpus Christi é o de que, por meio dela, a Igreja celebra a certeza de que Jesus quis se fazer alimento para o nosso caminhar. Sendo assim, a solenidade do Corpo do Senhor é para ser celebrada e também é para ser prolongada. Dois polos que de uma mesma realidade. No entanto, a solenidade extrai o seu sentido do segundo polo, isto é, do prolongamento da celebração.

Segundo uma tradição piedosa a solenidade de Corpus Christi teve início por ocasião de uma visão dada em sonho a uma religiosa de Liege (Bélgica) Juan Retine. No sonho, esta religiosa via uma lua resplandecente e cheia, mas com uma mancha. Com efeito, o sentido atribuído a este sonho pela própria religiosa foi o de que faltava uma festa no calendário litúrgico que fosse exclusivamente dedicada à Eucaristia[1]. Por força disto nas ruas de Liége no ano de 1245 ocorreu a primeira procissão em honra ao Corpo do Senhor.

Como horizonte próximo das histórias piedosas acerca da eucaristia estão às invasões dos mulçumanos e, por conseguinte, um cenário hostil e de profanação dos objetos sagrados. Não é à toa que provém deste período boa parte dos milagres eucarísticos, sobretudo, aqueles que enfatizam a presença real (corporal) de Jesus.

No entanto, a história da Igreja não é feita somente de contos piedosos, mas, sobretudo, de construções ideológico-políticas que, de certa forma, produzem determinada teologia. Com a eucaristia, e tudo o que está ligado a ela, não é diferente.

No ano de 1264 o papa Urbano IV, que havia exercido o sacerdócio em Liége, instituiu a solenidade de Corpus Christi. Portanto, cerca de vinte anos depois da primeira procissão ocorrida na cidade de Liege. A razão para tanto foi à devoção dos fiéis desta cidade. Mas, não só. Pois, o cenário teológico-litúrgico era favorável a tal instituição, já que a festa de Quinta-feira Santa - festa da instituição da eucaristia e, por extensão, da solenidade do Corpo do Senhor - tinha perdido o sentido da instituição, visto que tinha sido substituído por outro, a saber, a traição de Judas. Portanto, ir celebração da instituição do corpo do Senhor (Quinta-feira Santa) neste período, na verdade, era ir ouvir impropérios contra Judas o traidor. Que mudança de sentido!

É sabido que na Idade Média a prática eucarística estava marcada por uma imobilização anormal da consagração. Nesse período a oração eucarística era pronunciada em voz baixa, sobretudo, aquelas relacionadas ao Ofertório. Isso implicou numa simples frequência à missa e, por conseguinte, numa redução dos fiéis à comunhão. Disso se segue que houve uma mudança de sentido na compreensão da eucaristia a ponto de o acesso à comunhão ser, necessariamente, precedida de uma confissão sacramental. Ora, comungar, então, passou a significar a priori um alto nível moral de vida cristã. Em síntese, somente os ‘santos’ - entenda-se ‘puros’ - podiam ter acesso à comunhão com o Corpo do Senhor.

Da eucaristia como instituição do Corpo do Senhor doado em favor dos seus para à festa do Corpo do Senhor como mercadoria de luxo privilégio de alguns poucos.

Este cenário refratário à prática eucarística por parte dos fiéis ensejou a prática devocional à eucaristia. A prática devocional encetou duas vias: o momento da elevação da hóstia consagrada e o fora da missa (procissão). Em um contexto no qual não se tem acesso à comunhão ‘ver’ a hóstia consagrada se configura no ápice da fé eucarística. Logo, uma mudança de eixo teológico cujo alcance ainda precisa ser pesquisado.  Sendo adepto do pensamento mágico: será que esta não é a mancha vista em sonho pela religiosa?

A solenidade de Corpus Christi se insere, portanto, na segunda frente devocional, a saber, o fora missa (procissão). De fato, o culto eucarístico fora da missa, além da procissão, também inclui a visita ao Santíssimo Sacramento e a adoração e benção com o Santíssimo.

Em face do que fora dito a solenidade de Corpus Christi comporta dois polos: o dentro da missa (mistério celebrado) e o fora da missa (mistério prolongado).

Dentro da missa, ou seja, em um contexto de ação litúrgica no qual se visibiliza a fé da Igreja em ato o mistério eucarístico sempre é realizado em adoração ao Pai (centro) por meio de Jesus Cristo na força do Espírito Santo. O Deus segundo a compreensão dos cristãos sempre se faz presente, ou seja, o Deus Trindade.

Fora da missa, ou seja, o mistério prolongado o foco está posto na presença real de Jesus. Portanto, numa mudança de eixo de sentido teológico da eucaristia que não pode ser descurado a fim de que tal prática não se substitua àquela. Sendo assim, convém que tal prática devocional à eucaristia seja considerada em seu devido lugar fora da missa. Se assim o for, então, “ela é chamada a desenvolver um papel de primeiríssimo plano para o crescimento da fé em relação ao mistério da presença real” (GIRAUDO, 2008, p.155). Mas, tão-somente dentro deste contexto de sentido. Fora dele, teremos mais prejuízos que ganhos.

Bibliografia

GIRAUDO, C. Admiraçao Eucarística: para uma mistagogia da missa à luz da encíclica Ecclesiae de Eucharistia. São Paulo: Loyola, 2008.

GY, P.-M. (2004). EUCARISTIA. In: J. Y. (COORD.), Dicionário Crítico de Teologia. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2004, pp.679-687.

 


[1] Este termo fora usado desde os inícios do cristianismo: Didaque, Justino, Inácio de Antioquia etc., o qual, grosso modo, comporta dois sentidos: a) ação de graças sobre as oferendas; b) ‘eucaristização’ das oferendas.

Sobre o autor
Frei Reymond Xavier
Reymond Xavier de Lima, Professo Perpétuo. Nasceu no ano de 1983 em Ceres-GO. Filho de Edson Vieira de Lima e Maria da Conceição Xavier de Lima.