A contemplação para Santa Clara

A contemplação para Santa Clara

Santa Clara infelizmente é entendida por muitas pessoas como a sombra de Francisco de Assis; na realidade ela desenvolveu uma espiritualidade muito rica de características pessoais e femininas a partir da experiência iniciada com Francisco.

Santa Clara deixou alguns escritos que são verdadeiros tesouros do ponto de vista da espiritualidade, destacamos principalmente as quatro cartas que ela escreveu para Inês de Praga. Um dos temas mais preciosos para Santa Clara, e que estão em todas as quatro cartas à Inês, é a contemplação, como forma de oração.

Na visão franciscana a contemplação é uma característica de todas as pessoas[1], por isso rezar com as situações da vida é um aspecto tão importante na espiritualidade de Francisco ao ponto de compor um Cântico às Criaturas que o acompanharam durante sua vida.

Para falar de contemplação Santa Clara utiliza muito a figura do espelho; quem se coloca diante do espelho quer se enfeitar para ficar mais bonito(a). Quem olha para um espelho primeiro vai ver aquilo que está desarrumado, feio, ou que precisa de atenção; da mesma forma Santa Clara entende a contemplação, quem se coloca em oração e contempla, olha para Jesus que é nosso espelho por excelência e percebe que existem várias coisas que estão desarrumadas.

A contemplação para Santa Clara é um processo de transformação, é olhar para Jesus (o espelho) e transformar a própria imagem, para ficar cada vez mais parecido(a) com Ele. Santa Clara fala para Inês: “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da glória [...] e transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem da divindade” (3 CtIn 12-13) [2], é muito além do olhar edo gostar, é colocar-se inteira para transformar-se naquele que é o único amado.

Santa Clara fala de três virtudes que estão na imagem do espelho necessárias para que aconteça uma transformação daquele que contempla na imagem de Cristo:

Se referindo à primeira virtude ela diz: “Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que envolto em panos foi posto no presépio” (4 CtIn 19). A contemplação não tem força alguma sobre aquela pessoa que se recusa a ser pobre, de bens materiais, mas principalmente das convicções e certezas. Deus não tem espaço dentro de um coração obstinado. A Kenosis de Cristo é o maior testemunho de pobreza e de minoridade; Deus se abaixou para lavar os pés da humanidade, se fez menor. Aquelas pessoas que perderam a capacidade de descer do orgulho e ser humilde, isto é tocar o húmus, não contemplam o espelho da vida de Jesus.

Sobrea segunda virtude Clara diz: “No meio do espelho, considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano” (4 CtIn 22). A contemplação é um processo de seguimento[3], que tem como ponto de chegada a vida eterna, mas não é um processo livre de obstáculos, de renúncias e de desafios.

Jesus fez o convite para o seguimento “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a cada dia sua cruz e siga-me” (Lc 9,23), aqueles que nunca conseguem abrir mão das próprias vontades e suportar fadigas, ainda não entenderam o significado redentor da cruz. Todo sofrimento pode ser superado se temos um sentido para superá-lo[4]. Assumir a cruz tem sentido, quando marca um novo recomeço, onde morre o velho homem, para ressuscitar uma nova criatura. Quem não sabe sacrificar algumas vontades, também não experimenta a antecipação da ressureição.

A terceira virtude no espelho é a caridade como doação “E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa” (4 CtIn 23). Quem deixa ser transformado pela contemplação pode aos olhos do mundo ter uma vida vergonhosa, pois é uma vida doada, e não vendida. Vender a vida é o que todas as pessoas estão acostumadas a fazer, mesmo quando não dependem disso; muitas pessoas se iludem acreditando que acumular dinheiro é certificado de vida feliz, o que não é verdade.

A caridade é uma doação por amor, que não tem inveja, não é orgulhosa, nem arrogante; ela tudo crê, tudo suporta, tudo desculpa (1 Cor 13, 4-7). O amor é muito mais valioso que qualquer coisa, e seu valor está em ser gratuito. Quem ama não mede esforços pelo amado, não tem medo de perder, ou de se arrepender; o amor é a confiança que não necessita de seguranças. Só quem ama contempla, só quem ama se deixa transformar pelo amado, só quem ama fez a experiência com Deus.

Portanto a contemplação para Santa Clara é um caminho de transformação e comprometimento, transformação pessoal e comprometimento com todas as pessoas que são também espelho do rosto de Deus. Contemplação é sair de si para ir ao encontro do Outro, que é Deus, e está presente na vida concreta da comunidade. Contemplar é ver o mundo com os olhos de Deus e a partir daí começar a transformação.


[1] PEDROSO, José Carlos Corrêa Pedroso, Frei. Olhos do Espírito: itinerário de formação na contemplação na escola de Francisco de Assis. 2. ed. cor. Piracicaba: Centro Franciscano de Espiritualidade, 1992.p.1

[2]Terceira Carta de Santa Clara à Inês. In: Fontes franciscanas e clarianas. Trad. Celso Márcio Teixeira et. al. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 1708

[3] Cf. ROTZETTER, Anton. Clara de Assis: a primeira mulher franciscana. Tradução de Carlos Almeida. Petrópolis: Vozes, 1994. p. 240.

[4]Ver: Logoterapia, de Victor Frankl.

Autor:
Frei Kleber Moresco. OFMCap
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