A Formação Religiosa e um novo panóptico

A Formação Religiosa e um novo panóptico

No século XVIII, houve um filósofo e jurista chamado Jeremy Bentham (1748-1832). Este homem foi responsável por projetar o panóptico, um modelo disciplinar que é um marco histórico sobre a fundação das prisões modernas. Michel Foucault (1926-1984), filósofo contemporâneo, retoma as ideias de Bentham sobre o panóptico e o aplica para além da disciplina penal, desvelando a partir dele o exercício do poder manifestado em forma de uma verdade correlativa com outros modelos disciplinares modernos.

O que seria, então, o panóptico? E que relações tem ele com a formação religiosa? Pois bem, segundo Foucault (1977), em qualquer sociedade o corpo está submetido à formas de poder que lhe impõe limites, deveres e proibições. Na modernidade, estas técnicas que manifestam o exercício do poder se diferem de outras mais antigas. Recorde-se da escravidão, em que há uma relação de apropriação dos corpos. Ou da domesticidade, em que a relação de poder se dá na forma de uma dominação constante. No que chamamos panoptismo, as relações de poder induzem a um estado consciente e permanente de visibilidade e o aparato arquitetural engendra e sustenta uma relação de poder independente de quem o exerça.

Nesse sentido, as ideais que embasam o panóptico encontram verdade na formação religiosa. Michel Foucault dirá que a função das disciplinas monásticas é “realizar renúncias mais do que aumentos de utilidade e que, se implicam em obediência a outrem.” (FOUCAULT, 1977, p.127). Contudo, há toda uma microfísica do poder exercida em técnicas cada vez mais minuciosas e íntimas que induz o sujeito religioso ao domínio de seu próprio corpo, tal como um investimento político e detalhado do mesmo. O próprio religioso internaliza o poder na forma de uma manifestação da verdade, e cumpre-o à risca.

O que se tem observado nas casas religiosas no que compete à formação é, em essência, o mesmo mecanismo penal do panoptismo atuando de maneira sutil. Dessa forma, o dispositivo panóptico organiza os espaços, permitindo uma inspeção constante. Reprime-se quaisquer micropenalidades do tempo, do jeito de ser, dos discursos, do corpo e da sexualidade. A escala do controle não conduz ao cuidado do corpo, mas visa trabalhá-lo detalhadamente, exercendo sobre a corporeidade uma coerção sem folga, chegando mesmo ao nível da mecânica os movimentos, gestos e a atitude corporal. O objeto desse controle exercido sobre o corpo é observado na eficácia de sua organização interna. Pode-se dizer que o modo de controle se dá pela economia da coação. Desse modo, a coerção é ininterrupta e acontece sobre um controle minucioso das operações do corpo.

Vida religiosa e vida virtual

A vida religiosa, consagrada desde os primeiros séculos, busca testemunhar a Boa Nova de Jesus Cristo. Na Igreja primitiva encontramos o testemunho ascético de homens e mulheres que viveram no deserto a herança evangélica, fazendo opção por uma vida mais intensa de espiritualidade. No período histórico da Baixa Idade Média, vimos levantar-se na Igreja a inspiração profética dos mendicantes. E, mais recentemente, na Modernidade, a iniciativa dos “santos sociais” que fundaram institutos apostólicos, caritativos e centrados na vida comunitária.

Agora, no entanto, o processo de secularização dos últimos cem anos, impulsionado pelo rápido avanço tecnológico das últimas décadas, modificou quase completamente as relações, afetando todas as dimensões da vida humana. Também a vida consagrada é interpelada a recordar o seu itinerário para entender o novo contexto cultural e ser capaz de se renovar criativamente. Uma característica deste novo mundo precisa ser refletida com seriedade e correlativamente pelos religiosos. A saber, estamos em uma sociedade predominantemente urbana, envolvidos pela revolução digital.

Pensar o cristianismo em tempos de rede é um caminho de reflexão fundamental para a vida religiosa consagrada se atualizar. Segundo o jesuíta Antonio Spadaro (2012), a rede/a web não é mais só um instrumento, mas sim, um verdadeiro tecido social que nos conecta com a nossa experiência de realidade. Em outras palavras, a nossa realidade off-line e online são um uma conexão, e não dá mais para pensá-las dicotomicamente. As redes sociais expressam um grande tecido que conecta relações entre sujeitos. Para Spadaro, a Igreja precisa compreender o ciberespaço como um ambiente capaz de fornecer “uma base de comunhão em uma sociedade cada vez mais fragmentada”. Sendo assim, não basta estar presente na internet, transmitir conteúdos. É preciso criar relações como as sinapses neurais; e o compartilhamento de conteúdo é a expressão mais atualizada deste momento na era digital. Este parece ser o grande desafio para as pessoas consagradas.

Não obstante, não há como desconsiderar o panoptismo presente no ciberespaço. De fato, o que até poucas décadas funcionava como um modelo disciplinar para individuar e classificar comportamentos sofre uma transformação tecnológica inimaginável. A era digital deixaria Bentham estupefato, pois as relações de poder tornaram-se visíveis e ao mesmo tempo inverificáveis. O panóptico está presente na forma de logaritmos, colhendo informações, fornecendo produtos personalizados e invadindo nossas privacidades na rede, com um detalhe que faz toda a diferença comparada às disciplinas passadas: nós aceitamos o controle social-virtual, voluntariamente, em vista das benesses da internet.

Devemos nos perguntar: qual a implicação da virtualização na vida religiosa? Em se tratando dos consagrados, o que antes funcionava como aparelho regulador para criar corpos dóceis, isto é, funcionais e hierarquizados, passa agora a constitutir-se em dispositivo de controle de seus próprios processos formativos. Como estamos sendo “vigiados” ininterruptamente na internet, aquela relação dicotômica, anteriormente citada, pode vir a ser a evidência que falta para levar uma pessoa à perdição. Recorde-se da frequência com que são expostos nas mídias digitais abusos de pessoas consagradas. Não há como esconder uma vida dupla, nem mesmo optando por uma navegação anônima na web.

Aquela pressuposta vigilância “formativa” como uma manifestação da verdade de uma comunidade religiosa perde, no ambiente virtual, sua intensidade porque o controle parcial que exerce está deslocado para a rede e os formadores ou formadoras, muitas vezes, são incapazes de assimilar este “saber-poder”. Dito de outra forma, a vigilância panóptica organiza as arquiteturas em vista de sua função. Nos conventos e casas religiosas o claustro detinha esta representação. Mas, em um mundo relacionado com a internet, o exercício do poder está disperso, mas ao mesmo tempo, localizado na forma de subjetividade. Talvez, por isso, seja tão pouco atrativo para a juventude de hoje, fazer opção por uma vida religiosa que, estruturalmente, não corresponde ao ambiente cultural que vivemos.

Para quem, no entanto, optou pela vida religiosa e segue na busca de testemunhar o evangelho na era digital, deve saber que estes novos espaços são também ambientes de nova evangelização. A vida religiosa pode desvelar o que há de trascendentalidade nas relações virtuais, que são reais porque são parte do cotidiano de qualquer pessoa. Mas há também o desafio constante de ser a própria vida consagrada uma demarcação que questiona o panoptismo virtual e todo exercício do poder que aparece velado na forma de revolução tecnológica.

Referências

GONÇALVES, Alfredo. Vida religiosa e consagrada na era digital. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/570967-vida-religiosa-e-consagrada-na-era-digital Acesso em: 08 maio 2020.

FOUCAULT, Michel. Do governo dos vivos: curso no Collège de France (1979-1980). São Paulo: Centro Cultural Social, 2009. Disponível em: http://escolanomade.org/wp-content/downloads/foucault-do-governo-dos-vivos.pdf Acesso em 01 maio 2020.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1977. p.125-206. SPADARO, Antonio. A Igreja na era das mídias digitais. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/172-noticias/noticias-2012/514244-o-misterio-da-igreja-na-era-das-midias-digitais Acesso em 09 maio 2020.

Autor:
Frei Warley Alves de Oliveira, OFMCap
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