Eva e Ave

Eva e Ave

       “Por uma mulher, decaiu a natureza humana de sua pureza original. Por outra mulher, ia a

         mesma natureza encontrar o caminho de sua Redenção (Alceu Amoroso Lima).

 Se é verdade que por um homem, como escreveu Paulo aos coríntios, a natureza humana de-caiu de sua integridade primeira, é igualmente verdadeiro que pelo Filho do Homem essa mesma natureza recobrou sua primordial santidade.

 “Alegra-te, cheia de Graça, o Senhor é contigo!” (Lc 1,27-28). Na Anunciação, o nome de Maria não é Maria. Certo que Maria é seu nome próprio, mas seu nome essencial é “cheia de Graça” (em latim, gratia plena; em grego, kekaritômene).  Pela primeira vez uma criatura humana deixa a Deus todo o lugar. Esvazia-se totalmente de si. Conhece-se a si mesma em Deus, e por isso sabe que é nada; e “não conhece homem”, porquanto só conhece a Deus.

 À Mãe de Deus sabiamente a Igreja aplica as palavras do mais belo dos poemas, o Cântico dos Cânticos:

      “Quem é esta que se adianta como a aurora,

      Bela como a lua,

      Pura como o sol,

      Mas temível como um exército em ordem de batalha?” (Ct 6,10).

 Estão aí, poeticamente sugeridas, as principais características da mocinha de Nazaré: Beleza, Pureza, Fortaleza. Como Maria, podem as mulheres trazer a este mundo a verdadeira beleza; como Maria, podem as mulheres despojar a beleza de eventuais máculas; e como Maria todas as mulheres podem ser fortes como o cedro do Líbano e frágeis como a rosa de Saron. Podem ser  rosas místicas.

 Escrevendo sobre avida monástica, tem Gustavo Corção uma observação muito interessante: “Há, nas Dores de Nossa Senhora, uma atitude especial que merece muita atenção. Passa-nos despercebida primeiro; espanta-nos depois. E é esta: a mais dócil e obediente das criaturas humanas não deu um só passo e não pronunciou uma só palavra no sentido de interceder por seu Filho junto ao poder de Roma. Quem intercedeu foi a mulher de Pilatos, por causa de um sonho. Não a Mãe de Deus. Dócil e obediente à vontade do Pai, a mulher forte, a criatura ereta por excelência, o cedro do Líbano, não quis nunca submeter o Sacrifício de seu Filho aos decretos do Estado. Em cada statio da via-crucis a Virgem Santíssima afirmou a isenção da Igreja e a primazia espiritual. Sua atitude vale um tratado”.

 Tudo em Maria vale um tratado. Suas pouquíssimas palavras, sobretudo seu Fiat; seus muitíssimos silêncios; sua intercessão nas bodas de Caná e sua não-intercessão na Via Sacra de Jesus; sua atitude e, sobretudo, sua altitude junto à Cruz da Redenção.

 Vivemos, hoje, sob um dilúvio de palavras, a maioria das quais ligando nada a coisa nenhuma.  Estridentes e estéreis. Sem preposições justas, sem adjetivos apropriados e sem conjunções ajustadas. Dê-nos o Espírito Santo, de quem Maria esteve tão plena, a alegria de junto d’Ela aprender a encher de graça nossos verbos e de verdade nossos advérbios.

 Há uma tradução da Anunciação, de autoria de Fagundes Varela, que acena para um detalhe que só um grande poeta e místico saberia notar: “Eis a serva do Senhor, faça-se nela sua santa vontade, diz a virgem”. Faça-se nela?! O correto não seria dizer “em mim”, como nas traduções já consagradas? É que a Virgem Mãe, esquecendo-se por completo de si, abria em si espaço para o outro. E por isso refere-se a si mesma como se fosse outra pessoa, ou como uma pessoa existindo para os outros e para o Outro...

 

 

Autor:
Frei José Edilson Bezerra, OFMCap
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