Frei Gabriel de Frazzanò, o irmão de todos

Frei Gabriel de Frazzanò, o irmão de todos

Frei Gabriel de Frazzanò foi batizado com o nome de Antonio Machi. Era de uma família simples e trabalhadora da pequena comuna de Frazzanò, que viviam as tradições sicilianas, com seu dialeto difícil e seus costumes. Nasceu no dia 27de fevereiro de 1907. Seu pai se chamava Salvatore Machi e sua mãe Maria Papa. Ainda muito criança ficou órfão de mãe. O pai ficou com a tarefa de cuidar dos filhos e do trabalho. Diante das dificuldades, o pequeno Antônio foi colocado num orfanato e lá viveu a partir dos sete anos.

No orfanato a vida era organizada de maneira tradicional e disciplinada. O horário era organizado de modo que as crianças estudassem e já tivessem responsabilidades em algumas tarefas do dia a dia. O jovem Antonio Machi já começava a deixar transparecer sua disposição para o trabalho e para a religiosidade. Essa será, posteriormente, a marca com que Frei Gabriel será conhecido: o frade da oração e do trabalho. Neste orfanato fez a catequese preparando-se para os Sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia. Depois que recebeu a Eucaristia pela primeira vez, sempre se esforçou para dela participar todos os dias. Tudo indica que viver neste orfanato ajudou a formar o seu caráter, seja pela experiência com tantos órfãos, seja pela disciplina que era imposta.    

O chamado de Deus chega de muitas maneiras nas nossas vidas. A rotina no orfanato era organizada de modo a preparar as crianças para a vida, assim tinham tempo para a oração, o estudo e o trabalho. Dessa forma, Antonio Machi foi crescendo, forjando a sua personalidade, num caminho de serviço e de disponibilidade; sempre atento, sempre disponível. Por ali sempre passava um Frade Capuchinho esmoler (ofrade que saia pedindo esmola para a manutenção do Convento e daqueles jovens que começavam a caminhada formativa para a vida Franciscana Capuchinha). O frade esmoler não só pedia, mas, também ajudava os necessitados. O adolescente Antonio Machi muitas vezes viu os frades esmoleres na sua missão, no encontro com as famílias, no serviço, no contato com as pessoas. Desse modo, pedir esmolas se tornava uma maneira de fazer um apostolado, de levar o Evangelho às pessoas, de ouvir seus problemas e de aconselhar. Tudo isso se fazia presente na pessoa do esmoler. Vendo e aos poucos entendendo a vida e a missão desses frades, foi que Antonio Machi despertou para essa vida. Depois ter refletido e rezado bastante, pôde dizer como Francisco de Assis: “É isso que eu quero, é isso que eu procuro, é isso que eu desejo fazer com todo o meu coração” (I Celano 22, 3).

Buscou, então, informações com os Frades Capuchinhos e já bem certo de que era essa avida que queria para si, seguir os passos de São Francisco de Assis como Frade Menor, ele pediu para ser admitido na Ordem Capuchinha. O Guardião acolheu o seu pedido e recebeu aquele adolescente resoluto e humilde. O que atraia Antonio Machi, podemos assim dizer, era a abnegação daqueles frades. Era isso que ele via neles, homens que tinham deixado tudo, renunciado a tudo para levar uma vida de austeridade, de pobreza, de serviço aos pobres e de total confiança em Deus. Para ele, a palavra de Jesus, no Evangelho de Mateus, é bem clara: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la. Com efeito, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida?” (Mt 16, 24-26).

Com quinze anos, Antonio Machi foi admitido como Postulante Capuchinho no Convento adjunto ao Santuário de Nossa Senhora de Gibilmana. Um adolescente, era esse o costume da época, com essa idade já estava certa do que queria para a sua vida. Esse período de formação, o Postulado, é justamente para isso: o jovem que postula, que quer ser, que aspira a vida religiosa conhecendo-a mais de perto, como é a vida daqueles que o recebem, mas, também estes, vão conhecendo o jovem, conhecendo suas aspirações, detectando se sua busca está embasada num propósito firme de viver o Evangelho, de ser todo de Deus. Foi um tempo de mútuo conhecimento e uma experiência marcante e determinante para o jovem Antonio.

O lugar onde fica o Convento em que Antonio Machi foi acolhido como postulante é um local muito bonito, no alto de uma montanha, próximo ao litoral, lá de cima pode-se contemplar o mar. Foi ali que ele deu os primeiros passos para se faze rum homem consagrado a Deus. Nessa etapa formativa, segundo testemunhas, ele se fez tudo para todos. Dedicou-se com muito empenho ao serviço doméstico, pois tinha escolhido ser um Frade Irmão (também chamado de Leigo ou não-clérigo), ou seja, ele não queria ser padre. Naquela época, o Frade Irmão tinha por missão os trabalhos domésticos, a horta, a cozinha, a portaria do convento e o ofício de esmoler. Para ele, começou aí uma vida de renúncia, de abnegação. Uma vida marcada pela confiança em Deus, pela obediência aos seus superiores e de muito serviço.

Frei Gabriel de Frazzanò, OFMCap - Capuchinhos de Minas Gerais.

Posteriormente, a admissão ao Noviciado aconteceu no dia 08 de dezembro de 1923. O local do Noviciado foi o convento de Petralia Sotana. O Noviciado é a primeira experiência intensado candidato na vida consagrada e tem a duração de um ano. É um tempo de uma experiência mais acentuada da vida religiosa Franciscana, antigamente se dizia que era um tempo de provação, aqui se fazia uma experiência mais profunda da oração, da meditação e do serviço fraterno. O Noviciado é um tempo em que o jovem pode confrontar suas aspirações e seus sonhos com aquilo que lhe é proposto. Conhece melhor a Regra deixada por São Francisco de Assis, a espiritualidade Franciscano-Capuchinha, faz a experiência de viver em fraternidade, de doar-se totalmente a Deus e ao próximo.

Para o jovem Antonio, o dia da admissão ao Noviciado, foi um dia duplamente feliz: pelo início da caminhada na vida consagrada e pela solenidade litúrgica desse dia, pois celebra-se a Imaculada Conceição, padroeira da Ordem Franciscana. Ao entrar para o Noviciado Capuchinho, com era costume na Ordem, trocou de nome. Não se tratava de uma simples troca. A pessoa que escolhia a vida religiosa Franciscano-Capuchinha renunciava, inclusive, o seu próprio nome. Recebido um nome que lhe era escolhido, colocava, em seguida, o nome Maria, em homenagem à Virgem e, para identificar de onde era a pessoa, adicionava-se o nome da cidade. Assim aconteceu com Antonio Machi. Passou a ser chamado de Gabriel, em homenagem ao Arcanjo São Gabriel, de Frazzanò, o nome da sua cidade natal, localizada na Sicília, Itália. O agora Frei Gabriel, colocou toda a sua vida nas mãos maternais de Maria. Ele, cada vez mais, se tornou um grande devoto de Nossa Senhora e estará sempre convocando as pessoas para rezar o Santo Terço.

Frei Gabriel, após o ano do Noviciado, emitiu sua primeira Profissão Religiosa no dia 09 de dezembro de 1924 e a Profissão Perpétua no dia 07 de junho de 1928.

Como dissemos, o Frade Irmão tinha, naquela época, como tarefa os afazeres domésticos. Seus serviços eram manter o Convento limpo, cozinhar, lavar, ser porteiro, ser sacristão e/ou pedir esmolas. No desempenho dessas tarefas muitos se santificaram, pois desempenhavam seu trabalho com amor, com reverência. Frei Gabriel, logo depois de sua Profissão, exerceu suas tarefas dentro do Convento e também o ofício de esmoler, saia de casa em casa, na cidade ou no campo, pedido esmolas para o Convento. Tal ofício aproximava o frade das pessoas e ele, certamente, não ficava indiferente diante daqueles que necessitavam de ajuda. Na cidade de Reggio Calabria, Frei Gabriel desempenhou o ofício de esmoler e, posteriormente, foi designado para as Fraternidades de Randazzo e Rangusa. Os frades que conviveram com ele neste início de sua caminhada, testemunharam sobre a sua humildade e de como era um homem voltado para Deus na oração e no silêncio.

Sabe-se que em 1934, Frei Gabriel era membro da Fraternidade de Randazzo, nessa cidade existia o Seminário Menor da Província de Messina, e seu ofício era o de esmolar. Em1936, Frei Gabriel foi transferido para o Convento de Messina, um grande Convento onde os frades estudavam filosofia e teologia. Neste Convento, em meio a tantos frades, Frei Gabriel, desempenhando o seu trabalho no silêncio, fez de sua ação a sua pregação. Nunca foi de muita fala, mas um frade da ação e do serviço.

Em 1936 a Província de Messina abriu a Missão aqui em Minas Gerais, a pedido de Dom Frei Luiz Maria Santana OFMCap, então Bispo Diocesano de Uberaba. O Ministro Provincial de Messina convidou os frades a rezarem pela nascente Missão. Pediu também, frades que se dispusessem em vir para à Missão em Minas Gerais. Frei Gabriel de Frazzanò se sentiu tocado pelo pedido do Ministro Provincial e começou a rezar para discernir se seria esse o seu caminho: ir para as Missões, sair de sua pátria, aventurar-se numa terra desconhecida e doar sua vida, sua juventude e suas forças para o bem do povo de Deus.

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Frei Vicente da Silva Pereira, OFMCap

Frei Glaicon Givan da Rosa, OFMCap

Autor:
Frei Vicente da Silva Pereira, OFMCap
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