Levantarei a minha voz ao Senhor sem cessar

Levantarei a minha voz ao Senhor sem cessar

Das Cartas de São Pio de Pietrelcina, presbítero
(Cartas 500 e 510; Epistolário, I, San Giovanni Rotondo 1992; pp. 1065.1093-1905)

Por obediência decidi-me a manifestar-lhe o que sucedeu em mim desde o dia cinco pela tarde, e se prolongou durante todo o dia seis do corrente mês de agosto.

Não sou capaz de dizer-lhe exatamente o que se passou ao longo deste tempo de extremo martírio. Encontrava-me a confessar os nossos seráficos na tarde do dia cinco, quando de repente me enchi de um espantoso terror diante da visão de um personagem celeste que que se me apresenta diante dos olhos da mente. Tinha na mão uma espécie de dardo, semelhante a uma lança de ferro muito longa com uma ponta muito afiada e parecia como se dessa ponta saisse fogo. Ver isto e observar que aquele personagem arremessava com toda a violência o dardo sobre a minha alma foi algo único. Mal exalei um gemido, parecia que morria. Disse ao seráfico que se fosse embora, porque me sentia mal e não me encontrava com forças para continuar.

Foto: Quadro do Museu de São Pio em San Giovani Rotondo - IT.

Este martírio durou sem interrupção até a manhã do dia sete. Não saberia dizer quanto sofri neste período tão triste. Sentia também as entranhas como que arrancadas e rasgadas por aquele instrumento, enquanto tudo foi submetido a ferro e fogo.

E que posso eu dizer-lhe a respeito do que me pergunta sobre como sucedeu a minha crucifixão? Que confusão e humilhação experimento, meu Deus, ao ter que revelar o que Vós realizastes nesta mesquinha criatura!

Na manhã do dia vinte do passado mês de setembro estava eu no coro, depois da celebração da santa missa, quando senti uma sensação de descanso, semelhante a um doce sonho. Todos os sentidos internos e externos, e inclusive as faculdades da alma se encontravam numa quietude indescritível. Entretanto fez-se um silêncio total à volta de mim e dentro de mim; seguiu-se logo uma grande paz e abandono na mais completa privação de tudo, como uma rutura dentro da própria rotina. Tudo isto sucedeu com a velocidade de um raio.

E enquanto sucedia tudo isto, encontrei-me diante dum misterioso personagem, semelhante ao que tinha visto na tarde do dia cinco de agosto, sendo diferente dele apenas no facto de que tinha as mãos, os pés e o lado jorrando sangue. Só a visão dele deixou-me já aterrorizado; não saberia exprimir o que senti naquele momento. Pensei que ia morrer, e teria morrido se o Senhor não tivesse intervido para suster o meu coração, que latejava como se quisesse sair do peito para fora. A visão do personagem desapareceu e eu encontrei-me com as mãos, os pés e o lado trespassados e jorrando sangue. Imaginai que pranto estou a experimentar continuamente quase todos os dias: a ferida do coração jorra sangue incessantemente, sobretudo desde a tarde de quinta-feira até sábado.

Meu Pai, eu morro de dor por causa do pranto e da consequente confusão que sofro no mais íntimo do coração. Temo morrer por sangramento, se o Senhor não escutar os gemidos e não retirar de mim este peso. Será que Jesus me vai conceder esta graça, Ele que é tão bom? Tirar-me-á ao menos esta confusão que experimento por causa destes sinais exteriores? Levantarei a minha voz para Ele sem cessar, para que pela sua misericórdia retire de mim a aflição, não o pranto, nem a dor, porque vejo que isso é impossível, mas estes sinais exteriores que são para mim uma confusão e humilhação indescritível e insustentável.

O personagem sobre o qual queria falar-lhe na minha carta anterior, não é outro senão o mesmo de que lhe falei noutra carta minha e que vi no dia cinco de agosto. Ele continua a sua atividade sem parar, com grande pranto da alma. Sinto no meu interior como que um contínuo rumor, parecido ao de uma cascata, que está sempre jogando sangue.

Meu Deus! É justo o castigo e reto o vosso julgamento, mas tratai-me por fim com misericórdia. Senhor – dir-Vos-ei sempre com o vosso profeta – Senhor, não me corrijais com ira, não me castigueis com cólera.

Meu Pai, agora que conheces todo o meu interior, não desdenhes em fazer chegar até mim uma palavra de consolo, no meio de tão feroz e dura amargura.

Oração

Deus todo-poderoso e eterno, que destes a São Pio, presbítero, a graça de participar de modo admirável na cruz do vosso Filho e por meio do seu ministério renovastes as maravilhas da vossa misericórdia, concedei-nos, pela sua intercessão, que, unindo-nos constantemente aos sofrimentos de Cristo, tenhamos a alegria de alcançar a glória da ressurreição. Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Autor:
No items found.
Comente